“A fé é um ato político”

Pe. Guanair participou do Congresso das Entidades Negras Católicas, realizado recentemente em Belo Horizonte.
Ele completou, há pouco mais de um mês, 37 anos de dedicação ao sacerdócio. Um dos nomes mais emblemáticos da luta antirracista em Juiz de Fora e nas mais diversas cidades por onde passou em Minas e no Rio de Janeiro, Pe. Guanair da Silva Santos, natural de Além Paraíba, compartilha, nesta entrevista exclusiva, sua trajetória e experiência na Igreja Católica focadas no engajamento com a cultura afro-brasileira, a promoção da identidade negra e a luta contra o racismo estrutural dentro e fora da comunidade eclesial.
Primeiro presidente do hoje denominado Conselho Municipal Para a Igualdade Racial, criador do Axé Criança e do Axé Mulher e membro atuante de diversas frentes antirracistas na América Latina, o pároco da Paróquia Nossa Senhora Mãe de Deus, no Bairro de Lourdes, considera a fé como um ato político, transformador e essencial para a construção de uma sociedade inclusiva e justa. Não por menos, colaborou com a preparação do documento nacional, A Pastoral Afrobrasileira, já acolhido pelo Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que será lançado em 2026 e servirá de guia para a evangelização da população católica negra, com foco em suas tradições e experiências.
O senhor chegou em Juiz de Fora, em 1995, para assumir a igreja no bairro Ipiranga e provocou uma verdadeira revolução, integrando fé e cultura afro-brasileira. Como foi essa experiência?
Pe. Guanair – Havia na comunidade uma expressão muito forte que era o grupo dos Marianos, da Congregação Mariana. E tinha também um grupo de Marianinhos que estava em crise, porque as crianças não queriam mais ir aos sábados apenas para rezar o terço e voltar pra casa. A Helena, que coordenava o grupo, me procurou e disse que não sabia mais o que fazer para incentivá-las. Então, dei a sugestão: vamos fazer com elas um estudo da cultura afro-brasileira, um estudo da cultura, da religiosidade, dos costumes. E assim nós começamos e as crianças gostaram. O fato importante é isso: elas gostaram. A Helena fazia a chamada e elas respondiam “axé” em vez de “presente”, e transportaram isso para a escola que era em frente à igreja. Aí começou a dar um problema com a professora, com a diretora, porque os meninos e as meninas falavam axé durante a chamada também. Tive que ir na escola para explicar esse tipo de coisa. Uma escola municipal em que a maioria dos alunos é de periféricos e negros tinha dificuldade de tratar desses assuntos. Lidava como se eles fossem do Centro da cidade e tivessem todas as condições ideais, mesmo sabendo que não tinham. Então, quer dizer que na escola, no lugar onde ela estava, parecia que os professores estavam fora do lugar, porque não fizeram a imersão, o mergulho na realidade.
E sua proposta para os Marianinhos foi acolhida tranquilamente?
– A princípio toda novidade causa espanto e temor. Foi o que aconteceu, mas, depois, o grupo transformou-se em uma ONG, a Axé Criança, que sobrevive até hoje e já foi fonte de pesquisa e estudo para várias teses de mestrado e doutorado na Universidade Federal de Juiz de Fora. Várias pessoas colaboraram na formação dessas crianças e muitas hoje são profissionais liberais, psicólogos, jornalistas, assistentes sociais, professores. Até um que encontrei há pouco tempo e falei assim: você é professor de química, menino? Ele falou: sou. Você acredita? (risos) Do Axé Criança, criou-se também o Axé Mulher. Um outro espaço de criação, porque também tínhamos uma mulher guerreira chamada Cirene Candanda, lá no bairro. Ela era porreta, aquela mulher. Partia mesmo para a luta e chamava as mulheres para seguirem juntas.
Pe. Guanair em audiência pública com o Papa Francisco, no Vaticano.
O senhor também é um incentivador do diálogo inter-religioso e todo seu trabalho lhe valeu o título de cidadão honorário de JF e a conquista da Medalha Nelson Silva. Conte como foi.
– Lá no bairro Ipiranga foram muitos lançamentos. Um outro importante que nós fizemos foi na dimensão do diálogo inter-religioso. O que denominamos Fórum das entidades afrodescendentes, o Feafro. Nos reunimos para um dia de espiritualidade, para rezar ao Deus da vida, a partir da experiência religiosa de cada um. E foi muito bonito. Nós escolhemos uma granja onde cada um, dentro da sua expressividade, podia rezar, louvar a Deus, cantar, dançar e, depois, partilhar junto o alimento. Tínhamos católicos, gente da umbanda, do candomblé, do espiritismo, cardecista, todo mundo ali. Foi muito forte este fórum. Deste somatório resultou que, em Juiz de Fora, precisava-se criar o Conselho Municipal da População Negra. Com a autorização de Dom Clóvis, primeiro, e, depois, de Dom Eurico, me lancei candidato para esse conselho e nós fomos eleitos. Começamos, assim, a partir da prefeitura, a fazer uma conversa mais ampla sobre a participação do negro como protagonista de uma nova cidade. Ao convocar para uma participação mais ativa na construção de uma nova sociedade, esse conselho faz essa abertura e traz um novo para a cidade de Juiz de Fora se descobrir negra. Até então, Juiz de Fora era branca. Então, os nossos irmãos negros saem das suas periferias e vêm ocupar o Centro. Realizamos dois eventos marcantes: o encontro inter-cultural e religioso com a presenca do Afoxé Filhos de Gandhi, vindos de Salvador, e a Festa da Comunidade Negra, com presenças de Isabel Filardis e Neguinho da Beija Flor, e com a participação de escolas de samba de Juiz de Fora. Fizemos também a bênção anual das chaves, na Festa de Santos Reis, evento que reuniu mais de 5 mil pessoas no Parque Halfeld. Realizamos também várias caminhadas simbólicas. Eu tinha um gorro verde e a minha mãe fez pra mim uma veste no tom verde também. O pessoal queria saber de qual país africano eu era (risos). Inclusive, a partir daí nós começamos a usar roupas com matriz africana.
E aí a gente entra nesse território fundamental à participação do negro que é a política. Para o senhor, a fé é um ato político?
– Sim. A fé é um ato político, porque é uma opção. A pessoa que faz o ato de fé faz uma opção de vida. É uma opção política, porque a fé em Jesus Cristo vai te levar a transformar a sua vida. Ela não deixa você na subserviência como fizeram no passado. A fé vai te fazer crescer. Vai te levar a um desenvolvimento para você ser uma pessoa humana e, com isso, acolher o outro que é diferente. Quem não é humano não acolhe quem é diferente, porque ele tem medo do outro. Então, ele não faz uma profissão de fé. Entende? Quem é humano acolhe o que é diferente. Isso é a fé e na sua dimensão espiritual, para atingir o ponto máximo que é a vida em Cristo. Tudo se reportar em Cristo. Ou assim, como diz o apóstolo Paulo, recomeçar tudo em Cristo, porque Cristo assumiu a pessoa inteira do jeito que ela é. Quando sou um cristão católico, tenho uma posição política. E essa posição política é o que Jesus me chama a ser. Para eu ser discípulo de Jesus, eu tenho que fazer opção pela vida. Tenho que resgatar aqueles que estão vulneráveis. E, aqui, nessa sociedade estratificada, quem está sem vida, quem está vulnerável é o povo negro. Então você tem que começar a fazer com que este povo apareça efetivamente. Aqui em Juiz de Fora, nós podemos dizer assim, nós temos vários personagens, várias pessoas importantíssimas, mas que foi dado pouco valor a elas, como, por exemplo, os falecidos Flavinho da Juventude e o ex-vereador Nathanael do Amaral, que começou conosco, lá no Grupo Jovem, em Santa Luzia.
Com a criminalização do racismo, o caminho para o cristão negro está mais fácil ou segue sendo difícil?
Olha, estará sempre difícil, porque é sempre difícil ser cristão e ser negro. Entende? Nós temos hoje duas frentes de trabalho muito interessantes. Temos a Pastoral Afro-brasileira, realizamos, inclusive, há pouco, um congresso nacional das entidades negras católicas, em Belo Horizonte, para refletir a atuação no dia a dia, a partir da fé. Como é defender a ecologia integral? É simplesmente falar que ama flor? Isso é muito romântico. Mas para eu amar a flor, tenho que amar a pessoa que planta a flor, que cuida dela. Tenho que amar a terra que produz a flor. Essa é a dimensão. Nessa perspectiva, a pastoral não quer dar respostas, mas quer chamar toda a comunidade negra, para viver o novo, a partir do Evangelho, para que ela possa se compreender como protagonista desta ação, porque é assim que Jesus nos quer. Nós já construímos um texto que vai ser o documento em nível nacional para a Igreja do Brasil. Um guia para todas as igrejas particulares fazerem a leitura. E, a partir dela, compreender como fazer o anúncio do Evangelho para esta população negra. O documento está centrado na experiência, nas tradições do povo negro que clama. O negro reza e, quando põe o joelho no chão, Deus escuta e rompe qualquer tipo de corrente. Tem muita gente que fica brava com isso, porque não quer ver o negro na frente, porque ainda tem uma estrutura mental do tempo da escravidão. No século 21, com todas essas informações, toda inteligência artificial, ainda tem gente que se acha o senhor e o outro é o escravo. Graças a Deus, isso acabou. E, graças a Deus, a Igreja está acordando, porque esse documento que nós construímos a várias mãos, eu ajudei a construir esse texto, já foi acolhido pelo Conselho Permanente da CNBB. E nesta próxima Assembleia, do ano que vem, ele será, então, acolhido por todo episcopado, para se tornar documento de estudo. Uma fonte, uma referência para esta caminhada. E será muito bom para toda a nossa Igreja.
Pe. Guanair na Romaria das Comunidades Negras, no Santuário de Aparecida, em 2024.
O senhor também participa da Pastoral Afro-Americana e Caribenha?
Sim. Nós participamos do Encontro da Pastoral Afro-Americana e Caribenha, realizado a cada dois anos. As últimas edições foram no México, depois da pandemia, e, agora, na Argentina. Dois países que falam que não existem negros, mas existem. Estão invisibilizados. No México, tem a Pastoral Afro-mexicana, assim como existe a Pastoral Afro-argentina. Inclusive, o negrito Manuel, beatificado, está em processo de ser santificado. Ele é um homem negro, devoto de Nossa Senhora da Conceição, que evangelizou a região de Luján na Argentina. E isso quase não se fala, assim como o Beato Victor, de Três Pontas (MG), que foi ordenado padre em 1851. Quando chegou na paróquia ninguém o queria. Depois, o povo começou a perceber que ele era um santo. A santidade dele extravasou. Quando este homem morre, o corpo dele fica insepulto por três dias. E conta a história que cheirava a rosas. Agora você vê como é interessante. Um corpo negro, que as pessoas falam que é fedido, exalar perfume de rosas.
No mês da Consciência Negra, qual mensagem gostaria de deixar?
Eu digo que nesse caminhar de uma sociedade antirracista, cada negro e negra tem que se compreender como protagonista da história. Tem que perceber a sua importância no lugar onde está, no lugar que ocupa, para ser voz com o outro, e, com isso, construir políticas públicas que favoreçam efetivamente a valorização da vida. A sociedade de amanhã será comandada pelos negros. E esse é o grande desafio que nós já estamos vivendo hoje. Estamos disputando vários lugares, mas quem está em cima não quer abrir mão de jeito nenhum. Mas não vai ter outro jeito, eles vão ter que sair. Nós vamos ocupar de uma forma diferente. Não para oprimir, para exercer autoritarismo, mas para dizer que estamos vivendo um novo tempo. Cada um na sua corresponsabilidade colabora para o bem de todos. Aí vamos ter melhores escolas, melhores postos de saúde, teremos melhores pessoas que vão administrar os bens necessários para todos. Porque a essência de nós, negros, é ser com o outro. Nós nunca somos sozinhos. Essa é a dimensão ancestral que temos. Pensamos o mundo a partir do comunitário, porque nós somos comunidade.
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