Ecoturismo como aliado da preservação: conheça destinos na Zona da Mata mineira
O crescimento do interesse por trilhas, cachoeiras e áreas verdes na Zona da Mata mineira tem acompanhado uma tendência nacional: a busca por experiências ao ar livre, em contato direto com a natureza. De acordo com o Ministério do Turismo, o ecoturismo foi o principal motivo para uma em cada quatro viagens domésticas de lazer no país, evidenciando o avanço desse segmento. Mais do que uma opção recreativa, a modalidade tem se consolidado como ferramenta estratégica para a preservação ambiental, a educação ecológica e o fortalecimento de economias locais sustentáveis.
Apesar da tradicional preferência por destinos de sol e praia, os números mostram o potencial de crescimento de outros segmentos. Em 2024, Minas Gerais consolidou a liderança do turismo nacional, com desempenho cerca de 100% acima da média do país, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e muitos dos destinos são as belezas naturais que o estado abriga.
Para o biólogo e diretor do Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Breno Motta, o ecoturismo tem se consolidado como uma das estratégias mais eficientes para fortalecer a preservação dos remanescentes da Mata Atlântica. “Quando estruturado com planejamento e responsabilidade técnica, ele amplia a percepção pública sobre a importância da sociobiodiversidade e dos serviços ecossistêmicos que esses fragmentos florestais oferecem à sociedade”, explica.
Biólogo defende uso responsável das áreas verdes que combine lazer e preservação. (Foto: Divulgação / UFJF)
O especialista afirma que a visitação a áreas naturais deve ir além do passeio contemplativo. Trilhas interpretativas, atividades guiadas e ações de educação ambiental são estratégias capazes de aproximar o visitante da ciência e estimular o sentimento de pertencimento e cuidado com o meio ambiente. “A vivência direta com a floresta, com suas dinâmicas ecológicas e sua diversidade biológica, promove um aprendizado que ultrapassa o discurso teórico”, afirma.
Além do impacto educativo, o ecoturismo também pode gerar recursos para a própria conservação. De acordo com Motta, a renda obtida com a visitação pode ser reinvestida em manejo, monitoramento ambiental e restauração de áreas degradadas, criando um ciclo positivo entre uso público e preservação. Ele ressalta, porém, que esse modelo deve estar articulado às comunidades do entorno, oferecendo alternativas econômicas compatíveis com a proteção da floresta.
O que é ecoturismo?
Para entender o que é ecoturismo, é importante o diferenciar de outras formas de turismo em ambientes naturais. Nem toda atividade realizada em trilhas, cachoeiras ou montanhas pode ser considerada ecoturismo. O chamado turismo de natureza, por exemplo, tem como principal objetivo o contato com paisagens naturais, mas nem sempre inclui ações de educação ambiental ou planejamento técnico. Já o turismo exploratório prioriza a experiência imediata do visitante, muitas vezes sem controle de impacto, o que pode resultar em degradação do solo, poluição e perturbação da fauna.
O ecoturismo, por sua vez, pressupõe uma proposta mais ampla: além do lazer, envolve manejo responsável, respeito à capacidade de suporte dos ecossistemas, orientação ao visitante e participação das comunidades locais. A ideia central é que a experiência na natureza contribua para a conservação ambiental, a educação ecológica e a geração de renda de forma sustentável.
Ações necessárias para preservação
Apesar dos benefícios, a abertura de áreas naturais ao turismo também envolve riscos ambientais concretos. Entre eles estão compactação do solo, erosão de trilhas, perturbação da fauna e introdução de espécies exóticas. Em fragmentos florestais menores, a alteração no comportamento de animais sensíveis pode comprometer processos reprodutivos e o equilíbrio das cadeias alimentares.
Por isso, o diretor destaca que a visitação precisa ser planejada com base em estudos técnicos. “O monitoramento contínuo, a sinalização adequada e a educação ambiental reduzem impactos e qualificam o uso público.” O biólogo também destaca que a importância da definição da capacidade de suporte é fundamental, ou seja, do fluxo de visitantes. “Em algumas unidades de conservação, o controle de acesso diário e o agendamento prévio são instrumentos importantes de manejo”, explica.
Outras medidas incluem a implantação de passarelas em áreas sensíveis, gestão eficiente de resíduos com políticas de lixo zero, ordenamento de trilhas e restrição de acesso a regiões mais vulneráveis, evitando a perturbação de espécies mais vulneráveis.
Potencial regional
Na avaliação do biólogo, Juiz de Fora e o entorno reúnem condições favoráveis para o desenvolvimento do ecoturismo sustentável. Inserida no contexto da Serra da Mantiqueira e influenciada por remanescentes de Mata Atlântica, a região combina paisagens montanhosas, cursos d’água e áreas protegidas próximas, como o Parque Estadual do Ibitipoca e o Parque Estadual da Serra Negra.
Além das unidades de conservação, o território conta com reservas particulares, trilhas, mirantes e cachoeiras que ampliam o leque de atrativos naturais. A localização estratégica entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro também favorece o fluxo de visitantes. “Com planejamento, qualificação de serviços e ordenamento do uso público, o município tem condições técnicas de estruturar uma oferta baseada em conservação, educação ambiental e desenvolvimento territorial sustentável”, conclui Motta.
Para o especialista, a expansão do ecoturismo pode representar um caminho promissor para a região: ao mesmo tempo em que promove lazer e bem-estar, reforça a proteção dos remanescentes de Mata Atlântica e cria oportunidades econômicas alinhadas à preservação ambiental.
“A partir da minha experiência na direção do Jardim Botânico da UFJF, compreendo o ecoturismo como uma estratégia pedagógica concreta, capaz de transformar a visitação em experiência formativa. Ao percorrer trilhas, observar interações ecológicas e compreender os serviços ecossistêmicos, o visitante amplia sua percepção crítica sobre conservação. Tenho convicção de que a conexão sensorial e emocional com ambientes naturais fortalece o sentimento de pertencimento e responsabilidade socioambiental”, destaca.
Veja destinos de ecoturismo para visitar na Zona da Mata mineira
Jardim Botânico da UFJF
(Foto: Divulgação/Jardim Botânico)
O Jardim Botânico da Universidade Federal de Juiz de Fora ocupa um dos maiores remanescentes de Mata Atlântica em área urbana do Brasil — a Mata do Krambeck — e integra cerca de 85 hectares de floresta preservada que abriga mais de 500 espécies vegetais, muitas delas nativas e ameaçadas de extinção, além de nascentes e fauna local. O espaço vai além das trilhas: é um centro de educação ambiental ativo, recebendo escolas e público em geral em visitas guiadas temáticas que abordam desde a importância das plantas nativas e relações ecológicas até práticas sustentáveis no dia a dia, por meio de oficinas e exposições. Com projetos que combinam ensino, pesquisa e extensão, o Jardim Botânico busca formar cidadãos conscientes sobre a conservação da sociobiodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais, transformando a experiência de visita em aprendizado ativo e envolvente.
Parque Estadual do Ibitipoca
(Foto: Leonardo Costa)
Um dos destinos de ecoturismo mais conhecidos de Minas Gerais, o parque é famoso por suas trilhas que levam a mirantes, grutas e cachoeiras. Os circuitos são sinalizados e controlados, o que ajuda a preservar os ecossistemas locais e garante uma experiência de contato responsável com a natureza. A unidade oferece trilhas divididas em três circuitos principais (Águas, Pião e Janela do Céu), variando de nível leve a difícil.
Parque Estadual da Serra Negra / Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Chapadão da Serra Negra
(Foto: Divulgação/RPPN Serra Negra)
Com altitudes que ultrapassam os 1.600 metros, a Serra Negra reúne campos de altitude, florestas e diversas nascentes que abastecem importantes bacias hidrográficas. A área abriga espécies ameaçadas, como onça-parda e lobo-guará, além de grande diversidade de plantas. A recente aprovação do plano de manejo da unidade definiu diretrizes para pesquisa, educação ambiental e turismo sustentável, organizando a visitação a atrativos como cachoeiras, mirantes e trilhas em meio à Mata Atlântica. A área também é lembrada pelo Chapadão da Serra Negra, um planalto que oferece vistas amplas da região, incentivando atividades ao ar livre e a conexão com a natureza.
Serra do Funil
(Foto: Divulgação/TripAdvisor)
Conhecida por suas paisagens montanhosas, trilhas e cachoeiras, a Serra do Funil é um destino procurado por praticantes de caminhada, ciclismo e observação da natureza. A região combina atrativos naturais com o turismo rural, valorizando a produção local e a preservação ambiental.
Parque Estadual da Serra do Brigadeiro
(Foto: Evandro Rodney/Imprensa MG)
Uma das mais importantes unidades de conservação em Minas, a Serra do Brigadeiro se destaca não só pela riqueza de trilhas, cachoeiras e cursos d’água em meio a florestas e campos de altitude, mas também pela biodiversidade que abriga — como o muriqui-do-norte, maior primata das Américas, ameaçado de extinção. O parque protege nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas e oferece atividades de observação de aves, banhos em piscinas naturais e visitas educativas sobre conservação ambiental e biodiversidade. Além do ecoturismo tradicional, a unidade caminha para se tornar referência em astroturismo.
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