Chuvas deixam prejuízos e colocam parte do comércio de Juiz de Fora sob risco de fechamento
As fortes chuvas que atingiram Juiz de Fora no fim de fevereiro de 2026 também deixaram marcas profundas no comércio da cidade. Um levantamento realizado pelo Sindicato Empresarial do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio JF) aponta que lojistas enfrentaram prejuízos, interrupções nas atividades e dificuldades para retomar o funcionamento normal após a tragédia.
Além dos impactos humanos e estruturais provocados pelas enchentes, comerciantes passaram a lidar com um cenário de incerteza econômica. Ruas alagadas, queda no fluxo de clientes e danos em estabelecimentos foram algumas das consequências relatadas por empresários de diferentes regiões da cidade.
A pesquisa reuniu 277 respostas de empresários do comércio local e buscou dimensionar os efeitos econômicos das enchentes. Os dados mostram que o problema vai além dos prejuízos imediatos provocados pela água: a combinação de perdas financeiras, interrupção das atividades e dificuldade de acesso a crédito tem colocado muitos negócios em situação delicada.
Danos nas lojas e prejuízos financeiros atingem comerciantes
Segundo o levantamento, 60% dos estabelecimentos relataram danos graves, com a água atingindo estoques, móveis e equipamentos dentro das lojas. Outros 12,7% tiveram danos leves, principalmente relacionados à limpeza e reorganização dos espaços após a enchente.
Há também casos mais críticos. Cerca de 3,6% dos empresários afirmaram ter tido perda total do imóvel, com estruturas comprometidas ou risco de desabamento.
Mesmo entre os estabelecimentos que não foram diretamente atingidos pela água, o impacto ainda foi significativo. Aproximadamente 23,6% relataram prejuízos indiretos, causados por falta de energia, interrupção no abastecimento de água ou dificuldade de acesso às ruas onde os negócios estão localizados.
Os prejuízos financeiros também começaram a aparecer. A maior parte dos empresários estima perdas significativas, com 63,6% relatando prejuízos de até R$ 50 mil. Outros 14,5% apontam perdas entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, principalmente relacionadas à destruição de mercadorias, equipamentos e à necessidade de reparos nas estruturas das lojas.
Perfil do comércio aumenta vulnerabilidade após a tragédia
O levantamento também ajuda a entender por que os impactos podem ser mais difíceis de absorver para muitos negócios da cidade.
A maior parte das empresas que respondeu à pesquisa atua no varejo, que representa 75,9% da amostra, enquanto o setor de serviços aparece com 14,8%. Outros segmentos somam uma parcela menor das respostas.
Quando analisado o porte das empresas, fica evidente o predomínio de pequenos negócios. Empresas de pequeno porte representam 81,5% dos estabelecimentos, enquanto médias empresas correspondem a 14,8% e grandes empresas aparecem com apenas 3,7%.
Esse perfil contribui para aumentar a vulnerabilidade diante de crises, já que pequenos empreendimentos costumam ter menor capital de giro e menos reservas financeiras para enfrentar períodos prolongados de interrupção das atividades.
Outro dado que chama atenção no levantamento é a baixa cobertura de seguros. A pesquisa mostra que 81,8% dos empresários não possuem seguro empresarial, o que significa que os custos de recuperação precisam ser assumidos diretamente pelos proprietários.
Além disso, 83,6% dos estabelecimentos funcionam em imóveis alugados, situação que pode gerar novas dificuldades, como renegociações contratuais e custos adicionais em um momento de reconstrução.
Falta de crédito preocupa empresários e pode afetar empregos
Diante desse cenário, o acesso a crédito aparece como a principal preocupação do comércio neste momento.
A pesquisa mostra que 72,7% dos empresários apontam o crédito bancário como a necessidade mais urgente, enquanto 65,5% afirmam que conseguir financiamento é hoje o maior desafio administrativo enfrentado após as enchentes.
Entre as demandas mais citadas pelos comerciantes estão:
reposição de mercadorias e estoques (50,9%)
empréstimos com condições especiais (47,3%)
linhas de crédito emergencial (45,5%)
recursos para pagamento da folha de funcionários (38,2%)
Sem apoio financeiro, o cenário para as próximas semanas preocupa. O levantamento indica que 40% dos empresários apontam risco de endividamento severo, enquanto 18,2% avaliam que podem reduzir as operações.
A possibilidade de fechamento também aparece entre os entrevistados. O estudo mostra que 16,4% admitem risco de encerrar as atividades, enquanto 14,5% apontam possibilidade de demissões caso o cenário não melhore.
Enquanto a cidade tenta se recuperar de uma das maiores tragédias recentes de sua história, os dados indicam que a reconstrução econômica também será um desafio. Para muitos empresários, a retomada do comércio depende não apenas da reabertura das lojas, mas da recuperação gradual da rotina da cidade e do acesso a condições que permitam manter os negócios funcionando nos próximos meses.
Maria Angélica é estagiária sob supervisão do editor-executivo do Folha JF, Matheus Brum.