Roza Cabinda: a história de resistência que inspira o Dia Internacional da Mulher em Juiz de Fora
A história de Juiz de Fora guarda personagens que ajudam a explicar não apenas a formação da cidade, mas também as lutas sociais que moldaram o país. Entre esses nomes está Roza Cabinda, uma mulher negra africana que, no século XIX, transformou sua própria história em símbolo de resistência, liberdade e protagonismo feminino.
Neste Dia Internacional da Mulher, lembrar de Roza Cabinda é também reconhecer o papel de mulheres que, muitas vezes em silêncio, desafiaram estruturas de poder e ajudaram a construir caminhos de dignidade e direitos.
Roza Cabinda: a mulher que enfrentou a escravidão na justiça
Roza Cabinda era uma mulher africana, possivelmente originária da região do Congo, que foi escravizada no Brasil durante o século XIX. Ela pertencia ao comendador Henrique Guilherme Fernando Halfeld, figura conhecida na história de Juiz de Fora e ligada ao desenvolvimento da cidade.
Mesmo vivendo sob o regime escravista, Roza decidiu lutar por sua liberdade utilizando os caminhos legais disponíveis na época.
Em 1873, poucos anos após a promulgação da Lei do Ventre Livre, ela reuniu o valor de 300 mil réis para comprar sua alforria. No entanto, Halfeld recusou o pagamento. O motivo alegado era simples e brutal: Roza era considerada “excelente” nos serviços domésticos e, portanto, valiosa demais para ser libertada.
Diante da recusa, Roza tomou uma decisão rara e corajosa para a época. Ela recorreu à justiça.
O processo judicial tornou-se um marco na história local. Após a análise do caso, no dia 2 de julho de 1873, a Justiça determinou que Roza Cabinda tinha direito à liberdade.
A vitória não representou apenas uma conquista pessoal. Ela simbolizou um dos muitos enfrentamentos jurídicos que ajudaram a fragilizar o sistema escravista brasileiro nas décadas que antecederam a abolição.
Um símbolo de liberdade e resistência feminina
Hoje, mais de um século depois, o nome de Roza Cabinda continua presente na memória de Juiz de Fora como um símbolo de resistência e coragem.
Em 2024, a cidade inaugurou o Viaduto Roza Cabinda, localizado na região central. A homenagem busca valorizar a memória de uma mulher que enfrentou a escravidão utilizando a lei como instrumento de libertação.
Debaixo da estrutura também funciona a Feira Roza Cabinda, um espaço dedicado ao empreendedorismo feminino. Cerca de 20 mulheres comercializam artesanato, alimentos e peças de vestuário, criando um ambiente de geração de renda e valorização do trabalho feminino.
O local acabou se transformando em um espaço simbólico onde a história de luta se conecta com o presente. Além disso, desde 2010, coletivos femininos da cidade entregam a Medalha Rosa Cabinda, uma homenagem concedida durante a semana do Dia Internacional da Mulher para reconhecer mulheres que contribuem para o desenvolvimento social, cultural e comunitário de Juiz de Fora.
Uma história que ecoa no presente
Em uma cidade marcada por diferentes histórias de luta e transformação, Roza Cabinda representa algo maior que um personagem do passado. Ela simboliza a força de mulheres que desafiaram injustiças, que lutaram por dignidade e que abriram caminhos para outras gerações.
Neste Dia Internacional da Mulher, sua história lembra que o protagonismo feminino não é apenas um conceito contemporâneo. Ele já estava presente muito antes, nas decisões corajosas de mulheres que se recusaram a aceitar a opressão como destino.
E em Juiz de Fora, a memória de Roza Cabinda segue viva, inspirando novas histórias de resistência, trabalho e liberdade.