O pacto do teatro

Há algo de intrinsecamente coletivo no teatro que começa antes mesmo da abertura das cortinas ou do terceiro sinal. O teatro nasce no encontro, claro, entre quem faz e quem assiste, mas também, e tão importante quanto, entre quem divide o íntimo espaço do público. Sentar-se em uma plateia é aceitar uma convivência íntima e provisória com desconhecidos, é compartilhar o silêncio, o riso, o desconforto. Um raro pacto em tempos mediados por telas e dividido por bolhas.
Por ser uma das poucas atividades que ainda necessitam do encontro presencial, o teatro se faz ainda mais importante. Exige presença, atenção e respeito não apenas ao que está em cena, mas ao outro ao lado, vivendo a mesma experiência. Em um momento em que tudo disputa nossa atenção, o teatro ainda pede e merece entrega.
A ida ao teatro não é um ato solitário. Mesmo quando a cena é íntima, há sempre uma dimensão coletiva que sustenta tudo. A plateia é parte da engrenagem invisível do espetáculo. É o testemunho em comunidade.
Exatamente por isso, pequenos gestos ganham tanto peso. Um celular com flash, um toque que invade silêncio e desvia o olhar da cena – tudo isso rompe e desfaz a atmosfera criada pelo espetáculo, quebrando o pacto coletivo. O teatro não compete com a tecnologia porque sua força está justamente no oposto: no humano.
Respeitar a plateia é também respeitar o próprio teatro. É entender que o momento não pertence a um indivíduo, mas a todos.
‘Um homem célebre’
Se o teatro é o espaço de encontro, ele também é, inevitavelmente, o espaço de diálogo com a tradição. A Trupe Qualquer retorna a Juiz de Fora com “Um homem célebre”, que traz a possibilidade de revisitar Machado de Assis sem transformá-lo em peça de museu, mas em matéria viva de cena. A peça terá apenas duas apresentações: sábado (25) e domingo (26), às 19h, no Teatro Paschoal Carlos Magno.
Há, nesse gesto, algo que ecoa diretamente nas reflexões de Sábato Magaldi sobre o próprio Machado. Ao analisar sua relação com o teatro, Magaldi lembra que seus escritos “não revelam apenas uma individualidade; mais que isso, iluminam um dos períodos mais ricos da história do teatro brasileiro”. Ou seja, revisitar Machado não é apenas olhar para trás, mas é também rever um momento em que o teatro pensava a si mesmo, seus limites e suas responsabilidades.
A montagem da Trupe, ao tensionar música, literatura e cena, dialoga também com um Machado, evocado por João Roberto Faria, e relembrado por Sábato: a ideia de que a arte não deve ser tomada “pela arte”, mas como “missão social, missão nacional e missão humana”. Ao trazer à tona as contradições de um artista em busca de reconhecimento, o espetáculo atualiza um dilema antigo e, ainda assim, profundamente contemporâneo.
Com texto e direção de Rafael Coutinho e supervisão dramatúrgica de Pedro Kosovski (vencedor do Prêmio Shell), utiliza a música ao vivo para desconstruir o universo machadiano. Rafael Coutinho destaca: “O conto que tem título homônimo ao da peça retrata a vida de um compositor frustrado com o próprio sucesso. A peça, portanto, usa a farsa em vários sentidos, enquanto gênero teatro, falso musical, falso show e no fim, é a vida em si”.
Test Drive
Se, de um lado, há o diálogo com a tradição, de outro há o teatro no instante anterior à forma. O evento Test Drive, que acontece neste domingo (26), no Instituto Cultural Tenetehara, cria um lugar de risco, de abertura e de criação: cenas curtas, leituras, músicas, processos ainda em construção.
A iniciativa encabeçada pelo ator, diretor, dramaturgo e músico Phill de Orixalá revela algo essencial para a vitalidade de uma cena: a existência de lugares onde o erro é permitido, onde a experimentação não é apenas aceita, mas necessária. Antes do espetáculo acabado, existe o ensaio e a tentativa. Nesses momentos, o teatro respira de maneira mais crua.
Ao abrir suas portas para processos, o Test Drive reafirma a importância do caminho para chegar ao destino. Na troca entre artistas, no olhar inicial do público, na possibilidade de compartilhar o inacabado.
Serviço
Espetáculo “Um Homem Célebre” – Trupe Qualquer
Data: 25 e 26 de abril (Sábado e Domingo)
Horário: 19h
Local: Teatro Paschoal Carlos Magno (Rua Gilberto de Alencar, Juiz de Fora)
Ingressos: Valor único antecipado: R$ 20
Vendas: pelo Sympla ou na bilheteria do teatro duas horas antes do evento
Classificação: 14 anos
Test Drive: Experimentações Artísticas no Tenetehara
Data: 26 de Abril (Domingo)
Horário: A partir das 17h
Local: Tenetehara Instituto Cultural – Juiz de Fora
Entrada: Gratuita
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