Tribuna de Minas

O que podemos aprender com o modernismo

A chegada do Giramundo mais uma vez aos palcos de Juiz de Fora com dois espetáculos, entre eles, “Cobra Norato”, traz, junto com as peças, um capítulo importante da história cultural brasileira. Com texto escrito em 1921 por Raul Bopp, o poema é uma das obras centrais do modernismo, movimento que, mais do que uma estética, propôs uma ruptura profunda na forma de fazer arte no país.
O modernismo brasileiro surge com força na década de 1920, especialmente a partir da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. A proposta era romper com modelos europeus que dominavam a produção artística e construir uma linguagem própria, mais próxima da realidade brasileira. Isso significava experimentar novas formas, incorporar elementos da cultura popular e, principalmente, abandonar a ideia de padrões rígidos para a arte.
Um dos conceitos mais importantes desse período é a antropofagia. Inspirados por textos como o manifesto de Oswald de Andrade, os artistas defendiam que o Brasil deveria “devorar” influências estrangeiras e transformá-las em algo novo. Não se tratava de rejeitar o que vinha de fora, mas de absorver, superar, reinventar e produzir uma linguagem própria.
“Cobra Norato” surge dentro desse contexto. Ao buscar referências na cultura amazônica, nas lendas populares e em uma imaginação que mistura o real e o fantástico, a obra constrói um Brasil não apenas documental, mas também inventado. É um país em transformação, em que identidade não é fixa, mas algo em constante criação.
Esse movimento de criação em processo, aliás, não ficou no passado. Em Juiz de Fora, o Circo-Teatro – movimento que, de acordo com o pesquisador Walter de Sousa Junio, teve participação ativa na formação cultural brasileira, tendo influenciado também o Modernismo – reaparece. Nesta quarta-feira (29), o projeto Picadeiro Aberto, promovido pelo Circo Teatro Marcos Frota, alocado no estacionamento do Independência Shopping, recebe um trecho do musical “O Rei Leão”, em montagem pela Entreato. A apresentação, que encerra a sessão das 20h, antecipa cenas de um espetáculo que estreia na cidade ainda no segundo semestre e traz em si a máxima de que o teatro também se constrói aos poucos, e que essa construção também pode acontecer no encontro com o público, antes mesmo da finalização do espetáculo.
Ao mesmo tempo em que o Grupo Giramundo traz à cena universos inteiros construídos a partir de bonecos, tanto a floresta mítica de “Cobra Norato” como as fabulações presentes em “Um baú de fundo fundo”, na cidade também se ensaiam os próprios gestos nessa linguagem. O musical “O Rei Leão”, com montagem da Entreato, também aposta na força simbólica dos corpos e dos bonecos para contar sua história. Em comum, permanece o mesmo princípio: dar vida ao inanimado, fazer do artifício um modo de acessar o imaginário. 
Trazer esse tipo de material para o teatro hoje também levanta uma questão importante: até que ponto a atitude modernista ainda está presente e até que ponto deve estar na cena contemporânea?
Se, no momento da Semana de Arte Moderna, a arte brasileira buscava romper e experimentar, hoje o cenário encontrado é ainda mais complexo. Com uma produção diversa e potente nacionalmente, que escoa também para Juiz de Fora, vem junto uma tendência à repetição de formatos e à busca por uma comunicação mais direta, por vezes simplista. Em muitos casos, o risco, elemento englobado pelo modernismo ao tentar romper tradições, parece cada vez menor.
O modernismo não partia — e a arte não deve partir — de respostas prontas, mas de perguntas, de provocações e reflexões. Não deve buscar afirmar uma identidade, mas construí-la coletivamente. O teatro não deve perder seu espaço de invenção.
Quase um século depois, a presença de “Cobra Norato” em cena funciona não apenas como um resgate-homenagem, mas também como um convite às origens do pensamento modernista e suas reflexões.
Afinal, ser moderno não depende do período histórico.
Agenda
Grupo Giramundo – 55 anos
Palestra “Processo Giramundo”, nesta sexta (1), às 15h.
Ambos os espetáculos acontecem com entrada gratuita, com retirada de ingresso 1 hora antes da apresentação.
“Cobra Norato” acontece neste sábado (2), às 19h, no Teatro Paschoal Carlos Magno. Já o “Um baú de fundo fundo” acontece neste domingo (3), às 17h também no Teatro Paschoal Carlos Magno.
Entreato – musical Rei Leão
Nesta quarta-feira (29), ao final da sessão das 20h, no picadeiro do Circo Teatro Marcos Frota, montado no estacionamento do Independência Shopping.
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