Tribuna de Minas

Lais Myrrha faz escultura feita para público vivenciar arte com o corpo no Inhotim

(Ícaro Moreno/ Divulgação)
No caminho até a escultura “Contraplano”, que fica em um dos pontos mais altos do Instituto Inhotim, o público vê primeiro a obra de baixo: a referência que tem é o próprio corpo, que é mesmo pequeno perto dos 250 metros quadrados de área que a obra utiliza. Mas quando chega até a obra de Lais Myrrha, inaugurada em abril deste ano como parte das celebrações de 20 anos do maior museu a céu aberto do mundo, o referencial passa a ser outro. A montanha e o horizonte fazem com que o concreto em arte pareça muito menor. A artista já está acostumada a pensar em escalas no seu trabalho, sempre levando em conta que serão vistas de forma relacional. Neste caso, o projeto foi comissionado e teve como objetivo, desde o início, explorar e tensionar o modernismo. A reflexão colocou o corpo como foco e criou uma obra feita para as pessoas vivenciarem a arte. 
Ao ser convidada para fazer um trabalho no Inhotim, pela atual diretora artística, Júlia Rebouças, e também Bernardo Paz, idealizador do projeto, Lais conta que tentou buscar no parque o que não fosse tão evidente nas obras já existentes. Encontrou. “Esse trabalho é um espaço de uso livre. Quem quiser entrar, fazer um piquenique, ficar deitado, namorar ou ler um livro, vai funcionar”, conta ela, que começou a elaboração há cerca de 3 anos. Esse movimento se relaciona com a própria formação, como alguém que sempre referenciou muito a arte brasileira que reforça a utopia entre arte e vida, a partir de nomes como Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Waltercio Caldas e, como boa belorizontina, Oscar Niemeyer. 
A partir desses estudos e referenciais, a artista também tinha outras premissas em mente: a escolha de um ponto no parque em que fosse possível ver o horizonte, por exemplo. Quando recebeu o convite, conta que foi incentivada a fazer o que imaginasse e onde sonhasse, e escolheu o local pensando nisso. O ponto foi estratégico: entre obras de artistas homens e estrangeiros, e criou também um novo deslocamento de olhar. Foi a partir dessa escolha que outras relações se formaram, inclusive a aproximação com a arquitetura, que aos poucos foi aparecendo na sua obra. “A arquitetura não apareceu por causa de um interesse específico em relação às questões construtivas da obra, mas meu interesse pela imagem e como elas participam da construção do poder.” Esse eixo do seu trabalho se chama “Estudos de caso”.
Além disso, a centralidade da vivência com o corpo foi outra dessas premissas que guiaram a obra. “Não só o corpo como imagem, mas o corpo como experiência de se deixar vivenciar aquilo”, explica. Em seus estudos e nas outras obras que realizou ao longo de sua carreira, reflete sobre a forma como a aquisição de conhecimento e arte já esteve integrada com o prazer e o erótico — mas deixou de estar. “Tenho pensado muito nessa cisão entre o prazer e a fruição da arte, entre a aquisição de conhecimento e o prazer. Acho que estamos precisando criar condições para experiências prazerosas.”
Uma crítica e uma homenagem
(Foto: Ícaro Moreno/ Divulgação)
Os trabalhos de Laís lidam com um aspecto da arte que ela sempre defende: a ambiguidade. É por isso que, ao tratar dessa ligação com o modernismo, também escolheu fazer, ao mesmo tempo, uma crítica e uma homenagem. “Quando fazemos uma obra, não estamos só fazendo uma obra. Estamos criando condições de existência e pensamento. A minha questão com esse trabalho é pensar que sim, devemos fazer uma crítica ao mundo moderno, que provocou e provoca ainda tanto gasto de recursos. É algo sempre muito calcado no acúmulo e na extração de recursos da terra. Mas também tem um outro lado utópico e democrático”, diz. 
Encarando que a arte não precisa ser boa e nem má, também convida o público a entender esses dois lados. Ao trazer a forma do Edifício Niemeyer e colocá-la sublinhando a montanha, fazendo uma linha quase abaixo da mineração que o público pode ver, cria também um paralelo. “O ‘Contraplano’ é a gente olhando pra lá e aquela montanha nos olhando de volta. Na hora que associo essa forma àquilo, estou colocando um problema, porque, ao final de contas, estou colocando um paralelo”, diz.
Devolver a terra à terra
(Foto: Ícaro Moreno/ Divulgação)
A escolha de como trazer essa crítica e essa homenagem também teve tudo a ver com a forma que pensou para as pessoas ocuparem o espaço. Isso se deu por uma escultura feita de concreto, mas com chão de terra, e que funciona como sombra no meio do museu. “Estivemos aqui em dias quentes, e é impressionante como fica mais fresco do que fora da escultura”, conta. Na elaboração, ela já tinha em mente que não queria que a obra usasse luz e nem ventilação artificiais.
A intervenção que a arte provoca, no entanto, trata esse uso de forma consciente: inclusive a escolha pelo concreto, que entende como um material vivo, que precisa de cuidados para ser mantido em boas condições. “Toda vez que é construído um formigueiro, escava a terra. Às vezes ocupa um espaço de uma montanha. Os seres humanos também deslocam esses recursos, mas a forma de deslocar isso, nessa altura da nossa vida, precisa ser pensada. Se a gente não quer ver aquela cava, então talvez tenha que restaurar aquela montanha, e não tapar a vista”, reflete.
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