Tribuna de Minas

Copa de 2026: gigantismo global e economia da torcida no Brasil

A poucas semanas da abertura no Estádio Azteca, a Copa do Mundo de 2026 já se anuncia como o maior torneio da história. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o título em três países: Estados Unidos, México e Canadá. O gigantismo esportivo tem preço, promessa e, como sempre, riscos.
Eventos dessa escala costumam ser vendidos como motores de crescimento. Geram empregos temporários, atraem turistas e aquecem setores como hospedagem, alimentação e transporte. Há também efeitos menos contabilizáveis: o clima de mobilização coletiva, o orgulho nacional e a sensação de pertencimento que cada jogo desperta. O problema é que esses benefícios raramente chegam a todos. Boa parte se concentra nos meses do evento, e o legado depende de planejamento e governança. Sem isso, sobram os riscos conhecidos: endividamento público, pressão sobre serviços urbanos e estádios vazios depois que as câmeras se apagam.
As projeções para 2026 são expressivas. Segundo análise da Goaleconomy para a FIFA, o torneio pode gerar US$ 80 bilhões em produção econômica global, mais de US$ 40 bilhões em contribuição ao PIB e cerca de 824 mil empregos em tempo integral. Só nos Estados Unidos, o impacto estimado chega a US$ 17,2 bilhões. São números que ajudam a dimensionar a escala do evento, mas precisam ser lidos como projeções, não como crescimento garantido.
O Brasil, fora do papel de anfitrião, participa por outra via: o consumo. Levantamento da Creditas com a Opinion Box revela que 74% dos brasileiros pretendem gastar durante o Mundial e 80% admitem que podem consumir sem planejamento. Diferentemente de edições anteriores, dominadas pela corrida aos televisores, a Copa de 2026 deve ser marcada pelas apostas esportivas e pelos serviços digitais. Cerca de 56% não descartam apostar em bets ou bolões, e 19% citam gastos com streaming entre suas previsões de consumo.
No varejo físico, o movimento deve se concentrar nos dias de jogos da Seleção. Alimentos, bebidas, carnes e itens de conveniência ganham espaço no orçamento das famílias. Para supermercados, bares e pequenos comércios espalhados pelo país, a Copa funciona como um calendário promocional curto, mas poderoso.
O sinal de alerta está no endividamento. A mesma pesquisa aponta que 14% dos brasileiros se endividariam para “viver” a Copa e que 20% aceitariam contrair dívidas para ver o Brasil campeão. O comportamento preocupa num ambiente de crédito caro. O Relatório Focus do Banco Central projeta a Selic em 13% ao ano ao fim de 2026 e crescimento do PIB de apenas 1,85%.
Entre o gigantismo da América do Norte e o bolso apertado do consumidor brasileiro, a Copa de 2026 mostra que a economia do futebol vai muito além do gramado. Torcer é legítimo. Gastar, também. Mas planejar é essencial, porque o extrato bancário não tem VAR para reverter uma decisão tomada no calor do jogo. E ninguém quer que a festa termine com as famílias brasileiras levando um 7 a 1 nas próprias finanças.
Andressa de Souza Manso, Everton Emanuel Lima e Silva, André Takano e Weslem Rodrigues Faria
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