A educação que faz falta

Se nosso tempo é marcado pela indiferença, resgatar a capacidade de ouvir, compreender, cultivar a beleza e agir com gentileza é uma atitude que pode nos devolver as delicadezas perdidas. (Foto: Pexels/Anna Shvets)
Já repararam que cada vez mais as pessoas estão sem paciência para ouvir? Você começa a falar na expectativa de ser escutado, mas logo percebe que está jogando palavras ao vento. O motivo? O celular vibra, pisca, apita, sinalizando uma nova mensagem e, sem qualquer cerimônia, seu interlocutor desvia toda a sua atenção para a tela. De repente, aquilo que você tinha para dizer perde o sentido. Alguns vão dizer que isso é um tipo de mal dos novos tempos, afinal, hoje é quase impossível pensar a vida sem o uso do celular. Mas não é só isso; é também falta de educação, porque ignorar alguém que fala diante de você é o auge da indelicadeza.
Gostaria de saber quando foi que ficamos tão mal educados? É verdade que a falta de educação não é uma novidade e sempre rondou os nossos hábitos e convivência. Porém, o que se vê hoje é algo mais grave, pois a delicadeza parece ter se tornado uma raridade, uma prática em extinção. O descuido virou rotina, e a grosseria, uma regra que permeia nosso dia a dia.
Ouvi de uma conhecida, que é usuária fiel do transporte público, que vai deixar de andar de ônibus. Segundo ela, já não aguenta testemunhar jovens com fones de ouvido mergulhados em si mesmos, incapazes de enxergar o outro. Os mais velhos permanecem em pé, enquanto os mais novos seguem sentados, sem sequer pensar em ceder seus assentos. Eu fui ensinado pela minha mãe que, nesse tipo de situação, devemos oferecer o nosso lugar sem qualquer hesitação. Parece-me que o maior desafio de nossa sociedade, chamada de civilizada, seja resgatar a simples arte da delicadeza. Um gesto simples, mas que diz muito sobre quem somos.
A má educação se manifesta nas pequenas atitudes do cotidiano, mas é ainda pior nos grandes conflitos sociais, como intolerância, preconceito e violência. Cada gesto de desconsideração ao outro transforma-se em contribuição para a propagação de um ambiente hostil, onde o ódio e a impaciência parecem normalizados.
É certo que essa carência de educação não é algo que tenha a ver apenas com conhecimento escolar, pois envolve também valores de ética, de civismo e de empatia. Uma pessoa bem-educada não é considerada aquela que apenas sabe ler e escrever, mas aquela que sabe respeitar, ouvir, compreender e conviver com as diferenças. Se contamos com uma gama de informações que circulam rapidamente e com as redes sociais que amplificam opiniões sem filtro, a falta de educação se transforma em intolerância coletiva, gerando resistência e afastamento entre as pessoas.
Portanto, compreendo que a educação, tendo em vista seu sentido mais amplo, é o que faz a separação entre o joio e o trigo, entre o convívio harmonioso e o caos. Praticar o respeito, a paciência e a empatia é responsabilidade de cada um de nós, um antídoto contra a banalidade da rudeza. Penso ainda que ter boas referências, ler bons livros, assistir a bons filmes, ouvir boa música, hábitos cada vez mais escassos diante das futilidades digitais, são formas de alimentar nosso senso crítico, algo fundamental para o despertar da educação. Se nosso tempo é marcado pela indiferença, resgatar a capacidade de ouvir, compreender, cultivar a beleza e agir com gentileza é uma atitude que pode nos devolver as delicadezas perdidas.
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