Lições da fragilidade

Laços podem se fortalecer ou se romper de vez. Mas também é um momento que desvenda a verdadeira beleza do estar presente e do afeto. (Foto: Reprodução)
Meu pai foi internado nesta semana. Entre punções, aferição de pressão e sonos interrompidos durante a madrugada, vi toda a fragilidade de um ser humano quando seu maior bem, a saúde, fica por um fio. Numa situação como essa, em que o filho precisa tomar o lugar do pai, devolvendo-lhe o mesmo cuidado que recebeu ao longo de uma existência, a vida parece desfilar diante de nossos olhos.
Memórias da infância vêm à tona, como as comemorações de Dia dos Pais, mas, junto a elas, surgem também os pensamentos que tantas vezes preferimos silenciar, adiando para um momento que esperamos ser mais oportuno. Contudo, essa “ocasião propícia” nunca chega, e é justamente em instantes cruciais que ela bate à porta, e um filme começa a passar em nossa cabeça.
Numa hora dessas, é inevitável pensar em tudo que poderia ter sido e não foi, em palavras que ficaram por dizer, em abraços que nunca passaram da vontade. A imagem do meu pai na cama, preso ao soro, revelou-me, com mais nitidez, aquilo que todos nós já nascemos sabendo: a finitude é algo que nos acompanha o tempo todo. Dela não há escapatória e, se dermos bobeira, ela mostra a que veio antes do que imaginávamos e nos tira a chance de tentar fazer diferente.
Meu pai sempre foi um homem de hábitos simples, de grande senso de responsabilidade e de pouca fala. Posso dizer que dele recebi como grande ensinamento a compreensão de que o amor pode se revelar no cuidado diário, nas pequenas atitudes, sem precisar ser sempre declarado em palavras. Escrevo este texto depois de ter passado a noite e parte da manhã como acompanhante dele, em mais um dia de revezamento, numa escala que nenhuma família atravessa sem marcas. Laços podem se fortalecer ou se romper de vez. Mas também é um momento que desvenda a verdadeira beleza do estar presente e do afeto.
Quando deixei o hospital, já no sexto dia de internação motivada por um incômodo urinário, ainda aguardávamos o resultado de alguns exames. Por isso, não posso adiantar aqui o desfecho dessa empreitada médica. Espero que, no dia em que esta coluna for publicada, meu pai já esteja em casa recuperado e gozando de plena saúde. Aos 76 anos, esta é a segunda vez que permanece hospitalizado por alguns dias. A primeira, que já tem quase dez anos, aconteceu depois de um susto com o coração.
É em momentos assim que compreendemos, com mais clareza, a importância de estarmos ao lado de quem queremos bem. A vida não nos dá garantias, mas nos oferece o presente valioso do tempo. E o melhor uso que podemos fazer dele é dedicá-lo ao que realmente conta: aproveitar cada instante ao lado daqueles que nos importa, sem restrições de palavras e de abraços.
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