Palacete Santa Mafalda: Imóvel que Dom Pedro II recusou em Juiz de Fora e a “praga” que marcou a cidade
Quando Juiz de Fora ainda atendia pelo nome Cidade do Paraibuna, em 1861, vivia um momento de expectativa. A cidade recém-criada se preparava para receber ninguém menos que Dom Pedro II, que viria para a inauguração da Estrada União e Indústria, marco da modernização do Império no século XIX.
Em meio à euforia pela visita imperial, o comendador Manuel do Valle Amado decidiu que o soberano merecia um palacete à altura — e mandou erguer, no coração da cidade, uma imponente construção. O plano era simples: hospedar o Imperador e, depois, oferecer o imóvel como presente a ele, buscando prestígio e reconhecimento.
Mas o roteiro não saiu como esperado.
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A preferência por Mariano Procópio
Quando Dom Pedro II chegou à cidade, preferiu se hospedar na residência de Mariano Procópio, seu amigo pessoal e uma das figuras mais influentes da região.
A escolha já causou incômodo ao comendador, mas a decepção maior veio logo depois: o Imperador recusou o palacete oferecido como presente.
Segundo relatos históricos, Dom Pedro II afirmou que o espaço não deveria servir como moradia imperial, e sim à população, como uma escola ou hospital.
A decisão contrariou as expectativas de Manuel do Valle Amado, que reagiu de forma dura — e lendária.
A “praga” que virou história no Palacete Santa Mafalda
Irritado com a recusa, o comendador teria lançado uma praga: o palacete não seria ocupado nem vendido; ficaria abandonado para sempre.
Um ano depois, Manuel do Valle Amado morreu — e registrou em testamento que seu desejo fosse cumprido.
O filho, José Maria de Cerqueira Valle, o Barão de Santa Mafalda, respeitou a vontade do pai por décadas, mantendo o palacete vazio e sem uso.
A promessa só foi quebrada após a morte do Barão, em janeiro de 1904.
Da promessa quebrada ao destino público
Nesse momento, o imóvel foi deixado à Santa Casa, que no mesmo ano o cedeu ao Governo de Minas Gerais para que se tornasse uma escola — exatamente como Dom Pedro II havia sugerido mais de 40 anos antes.
O palacete passou a abrigar a Escola Estadual Delfim Moreira, que funciona ali até hoje.
Após uma grande obra de restauração, o local foi reinaugurado em 2023 e é considerado um dos edifícios mais belos e importantes do patrimônio histórico de Juiz de Fora.
A “praga” virou lenda, mas o destino foi consumado: o espaço que deveria impressionar um imperador acabou servindo ao povo.