Jornalista Ana Paula Araújo lança em Juiz de Fora livro sobre violência de gênero

Ana Paula Araújo lança em Juiz de Fora o livro-reportagem “Agressão: A escalada da violência doméstica no Brasil”, resultado de quatro anos de pesquisas e entrevistas sobre violência de gênero (Foto: Tribuna)
A violência de gênero – e suas diferentes camadas, recortes e facetas – é o tema do livro-reportagem da jornalista Ana Paula Araújo. A autora veio a Juiz de Fora para lançar a obra “Agressão: A escalada da violência doméstica no Brasil”, fruto de quatro anos de pesquisas e entrevistas sobre o tema, um período em que ela escutou vítimas, agressores, familiares, profissionais da saúde e representantes do sistema judiciário. As diferentes perspectivas construíram um retrato da realidade enfrentada por milhares de brasileiras, que convida os leitores a refletirem sobre como ajudar essas mulheres e os desafios para combater o problema.
A obra é uma espécie de continuação do trabalho realizado em “Abuso: A cultura do estupro no Brasil”, em que a escritora começa a investigar as camadas dessa violência. Dessa vez, no entanto, o olhar se volta para os contornos da violência física, psicológica, institucional e até virtual sofrida pelas mulheres. O que a instigou a começar o trabalho foi justamente perceber o seu lugar no mundo e querer se aprofundar nos reflexos que o tema deixa: “Ser mulher e ter filha mulher me fizeram querer entender essa violência e o machismo que está encravado no nosso dia a dia e na sociedade como um todo”, afirma a jornalista durante coletiva à imprensa.
Em sua trajetória na televisão e como parte dos apresentadores do Jornal Nacional, ela já conhecia o tema, mas foi preciso também reconhecer as próprias limitações para entender as dificuldades de denúncia dos casos e o silenciamento que ainda atinge tantas histórias. “Como todo mundo, eu ainda tinha uma cobrança injusta em cima de mulheres vítimas de violência. Eu via situações e me perguntava: ‘Por que é que essa mulher não sai dessa situação?’ Mas fui percebendo que temos que cobrar o agressor”, diz, acrescentando que os motivos são diversos e muitas vezes estão relacionados à própria violência. “Mulheres são ensinadas desde cedo a manter a família ou um casamento unido, a encontrar um valor próprio tendo um relacionamento. Então são inúmeras situações, mas nenhuma delas faz uma vítima ser culpada da agressão que ela está sofrendo”, conta ela.
Além de proporcionar um aprofundamento diferente no tema, é através das páginas de um livro que ela também entende que muitas mulheres podem se reconhecer nas histórias. “Naquele momento em que a pessoa está sozinha, no seu cantinho, lendo e refletindo, é o momento em que pode vir essa percepção”, analisa. A recepção do livro tem feito a autora perceber muito isso: os casos estão sempre mais próximos do que se imagina, e nenhuma mulher está totalmente a salvo sem uma mudança estrutural maior. Conversar com agressores, no mesmo sentido, também foi elucidador. “Mesmo os que foram flagrados, eles tendem a se desculpar, assim como a sociedade faz”, diz.
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Papel da mídia e da educação
Durante a escrita da obra, um dos aspectos que chamou sua atenção foi a cobertura midiática sobre o tema. Um dos casos que mais a impressionou, e que ela decidiu incluir na obra, foi o da Eliza Samudio, assassinada pelo goleiro Bruno Fernandes. “A imprensa se ocupava, boa parte do tempo, a questionar a atitude e o caráter da vítima”, relembra. Ainda hoje ela acredita que exista um cuidado excessivo com o agressor em detrimento ao tratamento da vítima, e é um policiamento que também se faz dentro do próprio jornalismo.
Mesmo assim, ela acredita que o cenário melhorou nos últimos anos e que, para o debate público avance, é preciso não se alienar. “Eu realmente acredito que a informação tem esse grande poder de transformação e de mudar a realidade”, afirma. Junto ao jornalismo, ela entende que a educação é uma chave de mudança necessária: seja dentro de casa, na educação de meninos que não se tornem homens que pratiquem violência de gênero, até na conscientização de mulheres sobre esses perigos e a formação de profissionais mais capacitados para lidar com esses casos.
Reflexão constante
A violência de gênero é uma ferida aberta no Brasil e, por isso, dar um ponto final em uma obra que pretende trazer um panorama sobre essa situação não foi nada fácil para ela. Inclusive, durante esse processo, foi percebendo o quanto essa cultura está presente na vida de cada um, com músicas que fazem referências explícitas à violência contra a mulher e eram naturalizadas, até discursos de ódio que vão se disseminando nas redes.
“No momento em que estamos hoje, precisamos tirar esse assunto da invisibilidade e começar a pensar de uma outra forma. Precisamos passar a questionar e fazer com que as futuras gerações questionem ainda mais”, afirma ela. Ainda sem poder revelar muitos detalhes, a autora conta que já tem um terceiro livro em planejamento, que deve seguir dentro da mesma linha temática.
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