Explosão de clubes de leitura contrasta com a fuga de leitores no Brasil. O que explica esse fenômeno?

No Brasil, uma curiosa contradição: enquanto pesquisas mostram que o país perdeu milhões de leitores nos últimos anos, clubes de leitura, sejam presenciais, online e por assinatura, explodiram em adesão. Como entender esse contraste? Spoiler: não é só sobre livros, é sobre comunidade, formato e propósito.
O choque de números (e o que eles dizem)
A pesquisa Retratos da Leitura revelou que, nos últimos anos, o Brasil perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores. E o pior, a pesquisa mostra que mais da metade da população não leu nenhum livro nos três meses anteriores à sua realização. Esses dados acendem um alerta sobre acesso, tempo e prioridades culturais.
Ao mesmo tempo, relatos de clubes e iniciativas culturais mostram aumentos de participação que chegam a mais de 150% em alguns casos. Por exemplo, um clube ligado ao CCBB registrou crescimento de 163% em público; somando modalidades, estima-se que cerca de 2 milhões de brasileiros participem de algum clube de leitura hoje. Ou seja: enquanto a leitura individual cai, a leitura em grupo cresce e se transforma.
Foto: Freepik (via Canva)
Por que clubes conseguem atrair onde o hábito individual falha?
Analisando por um viés bem intelectual, podemos considerar que os clubes de leitura representam espaços fundamentais de formação de comunidades leitoras que transcendem a experiência individual da leitura, funcionando como catalisadores para o desenvolvimento do pensamento crítico e o fortalecimento de vínculos sociais. Esses ambientes coletivos e dialógicos criam oportunidades únicas para que não-leitores sejam atraídos pela literatura através do contato com grupos que compartilham afinidades, enquanto promovem o intercâmbio de diferentes conhecimentos e múltiplos pontos de vista entre os participantes.
A dinâmica colaborativa desses encontros estimula uma postura crítica diante dos textos e do mundo, transformando a leitura em uma experiência social enriquecedora que vai além do consumo passivo de conteúdo. Ao democratizar o acesso à discussão literária e criar redes de apoio entre leitores, os clubes estabelecem-se como ferramentas eficazes para expandir o alcance da literatura, tornando-a mais acessível e relevante para diferentes perfis de público, contribuindo assim para a formação de uma cultura de leitura mais inclusiva e participativa.
Mas esta resposta também tem camadas, e nenhuma é só sobre conteúdo:
Comunidade: discutir um livro vira motivo social (um programinha gostoso, não uma tarefa).
Responsabilidade suave: prazos, metas e amigos que cobram fazem a leitura acontecer.
Formato flexível: encontros online, híbridos e temáticos permitem encaixar leitura na rotina.
Experiência cultural: lives com autores, podcasts e wine & books transformam o livro em evento.
Esses elementos convergem para tornar a leitura mais atraente, menos solitária e mais “social media-friendly” – o que explica parte do boom dos clubes.
E para quem acha que Juiz de Fora não aderiu esta tendência, a Tribuna de Minas já mapeou alguns exemplos ano passado.
Como montar um clube de leitura que funciona (passo a passo rápido)
Quer transformar vontade em hábito? Aqui vai um roteiro prático:
Defina o foco (gênero, tema ou público).
Recrute 6–12 pessoas iniciais (amigos, vizinhos, redes sociais).
Combine periodicidade (mensal é ótimo para começar).
Escolha o primeiro livro por votação.
Combine um moderador e um roteiro leve de perguntas.
Misture formatos: presencial + transmissão, encontros temáticos, lives com autores.
Dica rápida: comece pequeno, publique o calendário e ofereça uma “edição teste” gratuita para atrair curiosos.
Formatos que estão bombando, e por quê
Presencial: calor humano, trocas de olhares, cafés e sebos. Ótimo para quem busca laços locais.
Online: acessibilidade, alcance e participação de quem mora longe.
Híbrido: flexibilidade máxima – bom para equilíbrio entre intimidade e escala.
Clubes temáticos (poesia, sci-fi, literatura indígena) e modelos comerciais (caixas de assinatura) ampliam o público e movimentam o mercado — alguns players já relatam crescimento de vendas impulsionado por recomendações desses grupos.
O impacto no mercado editorial e na educação
Os clubes funcionam como um megafone para livros: recomendação boca a boca aumenta vendas, editoras fazem parcerias e autores independentes ganham visibilidade. Para escolas e bibliotecas, esses grupos podem ser laboratórios de incentivo à leitura crítica, são um complemento prático ao ensino formal.
Há quem considere que os clubes de assinatura de livros emergiram como uma alternativa promissora para o mercado editorial brasileiro após a crise de 2018, quando o colapso das principais livrarias do país – Saraiva e Cultura – deixou um vazio de 40% nas vendas nacionais e expôs dívidas bilionárias do setor. Enquanto as vendas tradicionais despencavam, esses clubes consolidaram-se oferecendo um modelo de negócio baseado na entrega mensal de obras selecionadas diretamente aos consumidores. Exemplos atuais, que são mais assinaturas que o formato tradicional de clube, e se você lê já deve ter sido impactado por publicidade nas Redes Sociais: TAG Livros, Intrínsecos, Clube da Leiturinha.
Apesar dos desafios enfrentados em devido à inflação e ao aumento dos custos de produção, que forçaram ajustes operacionais e estratégicos, os clubes de assinatura demonstram potencial de expansão através da diversificação em nichos específicos e adaptação de modelos de negócio mais acessíveis, posicionando-se como uma ferramenta importante para a revitalização e democratização do acesso à literatura no país, especialmente em um momento de recuperação do mercado editorial evidenciado pelo sucesso de eventos como a Bienal do Livro, que no Rio este ano, bateu recorde de público e de vendas.
Conclusão: uma aposta coletiva
O crescimento dos clubes não cancela a crise da leitura no Brasil, mas mostra um caminho: transformar a leitura em experiência social e cultural pode reacender hábitos e abrir portas para leitores novos. Quer começar? Convide alguém, escolha um título e marque a primeira reunião, o resto costuma acontecer sozinho.
Eu, que não sou sociável, já contei aqui da minha descoberta (que já comemorou uma década de existência) – o Clube do Livro Silencioso -, um movimento que cresceu sem perder o que o torna único: a liberdade total de participar à sua maneira. Sem regras, sem cobranças, sem “tema do mês”. Todos os modelos, para mim, têm a vantagem essencial, indispensável, indiscutível, que é o de estimular o hábito da leitura. Só quem não experimentou, não sabe o que está perdendo.
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