A persistência do efêmero: o que 2025 nos devolve

Em agosto, escrevi por aqui que o teatro acontece no silêncio que antecede a catarse. Agora, diante da descida da penúltima cortina desta coluna, percebo que o exercício de olhar para a cena juiz-forana foi, na verdade, um exercício de escuta. Escutamos os passos nos tablados, o eco nos palcos por vezes esquecidos e o pulsar de uma cidade que insiste em se ver representada.
O teatro não é um passatempo, mas um ofício de rigor e exigência. Ao longo destes meses, vimos que a cena de Juiz de Fora amadurece quando entende que o aplauso não é o fim, mas a consequência de uma ética do palco. Não se faz teatro para preencher horários, mas para preencher vazios existenciais que nenhuma máquina nunca será capaz de tocar.
Sábato Magaldi nos lembra que o teatro é o reflexo da nossa formação. Ao revisitar os espetáculos do ano, vemos que a cena local é um organismo vivo. Ela pulsa com as companhias que transformam nossas pequenas salas em territórios de universalidade. O teatro em Juiz de Fora começa a deixar de ser um evento fortuito para se tornar, novamente, um hábito necessário.
Caderno de Cena foi, acima de tudo, um convite ao encontro. Se o teatro é a arte do presente, este retrospecto não é uma olhada para o que passou, mas uma constatação do que fica. Na próxima semana o ano se encerra, mas a cena, esta, coletiva e insistente, continuará a desafiar o silêncio. Estamos quase no último sinal, mas a luz, felizmente, ainda não se apagou.
A cidade que se reconhece em cena
Existe uma ilusão comum de que, para falar de uma cidade, é preciso citar seus monumentos, suas ruas ou sua história. No entanto, o teatro nos ensina o contrário: a cidade se revela de forma mais profunda quando o palco silencia o nome, mas grita a essência de quem a habita. Ao longo deste ciclo, registramos uma Juiz de Fora que não foi apenas o cenário, mas a própria substância dos temas que cruzaram nossos palcos.
Quando assistimos a peças que trataram do luto, afeto, ancestralidade, existência e trabalho, não estávamos vendo dramas distantes. Reconhecemos a forma como o juiz-forano se despede e como ele se abraça. A cidade encontra na cena a autorização para transbordar. Reconhecemos o nosso “luto” na perda e na falta de espaços físicos e o nosso “afeto” na resistência coletiva de quem faz teatro apesar de tudo.
Essa “cidade que se reconheceu em cena” apareceu também fortemente nos temas da precariedade e do trabalho. Quando discutimos o “teatro pobre” e a luta contra a sazonalidade, espelhamos nossa própria Juiz de Fora: uma cidade que se equilibra entre a tradição de grupos veteranos e a urgência de quem ainda precisa inventar o próprio chão. A espiritualidade e a ancestralidade, também presentes em muitas das nossas montagens, dialogam com a nossa identidade mineira, mística e barroca, sem que fosse necessário pronunciar uma única coordenada geográfica.
Falar de Juiz de Fora por meio de nossos ritos contemporâneos é um exercício de tradução. O trabalho do ator, o suor no rosto de quem ensaia próximo à exaustão, tendo que equilibrar outras fontes de renda com o alimento da alma, é, também, o motor da nossa cena. A precariedade técnica, transformada em potência estética, é a cara de uma cidade que aprendeu a fazer muito com pouco. Como diria Bárbara Heliodora, “para apreciar um bom teatro é preciso que se conheça teatro, que as pessoas estejam habituadas e possam apreciar a dificuldade que é fazer existir esse milagre teatral: transformar uma página escrita em um espetáculo em cena”.
Juiz de Fora nunca esteve fora do teatro. Ela esteve sentada na plateia, reconhecendo-se no Outro. O teatro não foi sobre a cidade; ele é a cidade acontecendo no tempo presente.
LEIA MAIS textos da coluna Caderno de Cena aqui
O post A persistência do efêmero: o que 2025 nos devolve apareceu primeiro em Tribuna de Minas.



