Eleições 2026: Saiba como as IAs podem influenciar debates e em quais falhas prestar atenção

(Foto: Arquivo pessoal)
Esta entrevista integra a série Perspectiva 2026, da Tribuna, que discute os desafios impostos pelas novas tecnologias ao processo eleitoral brasileiro. Em reportagem especial, o jornal ouviu especialistas para analisar como o avanço da Inteligência Artificial deve impactar as Eleições de 2026, ampliando tanto os riscos de manipulação quanto as possibilidades de uso estratégico por campanhas e partidos.
Nesta matéria, a pós-doutora em Modelagem Computacional pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Priscila Capriles Goliatt, detalha os aspectos técnicos por trás da produção de vídeos, áudios e textos sintéticos, explica o grau de maturidade das tecnologias de clonagem vocal e discute as limitações atuais das IAs. A entrevista também aborda os desafios para identificação de conteúdos falsos, o uso de agentes automatizados em campanhas eleitorais e as implicações desse cenário para a proteção do eleitor e a integridade do debate democrático.
Confira a entrevista na íntegra:
Tribuna: Como o avanço dos modelos de voz sintética e clonagem vocal pode alterar debates eleitorais? A tecnologia já é suficientemente estável para enganar auditorias?
Priscila: Com relação à vocalização, sim, é bem avançada, é bem estável, e fica muito difícil para uma pessoa comum identificar. Se eu tô ali assistindo um vídeo no Instagram, no TikTok, que são vídeos curtos, breves, e a maioria das pessoas já não está com uma atenção 100%, porque são canais de comunicação muito rápidos. Então, a maioria das pessoas já não prestam atenção no todo. Elas consomem somente a mensagem por alto e nem a mensagem inteira do que elas querem entender. Então, pra elas, vai ficar muito difícil realmente identificar. E, hoje em dia, você precisa realmente de profissionais qualificados para fazer essa identificação.
Tribuna: Até que ponto as campanhas conseguem usar IA para ajustar discurso quase instantaneamente com base na reação do público?
Priscila: Se eu tiver treinado, eu vou chamar a minha inteligência, porque, quando eu faço login em uma conta, tudo o que eu coloco dentro daquela conta vai aprendendo comigo: o que eu gosto de falar, o que eu gosto de pesquisar, como eu gosto que a resposta seja dada para mim, qual é o tom que eu quero, se é um tom formal, se é um tom descontraído, se é uma linguagem simples ou não.
Então, sim, dependendo, por exemplo, se eu estou fazendo um debate em um canal que vai atingir mais a população comum, ou em um canal em que eu vou atingir a população que tem um poder aquisitivo maior, ou um nível de escolaridade maior, eu posso avisar, nesse prompt, que eu falei nessa engenharia de prompt. Eu posso avisar à inteligência que eu quero uma resposta mais simples, uma resposta para um cidadão comum, ou que eu quero uma resposta mais rebuscada, porque eu estou falando com pessoas que têm curso universitário, por exemplo. E aí, então, ela vai adaptando o discurso.
E, se eu estou com um notebook lá durante a campanha — ou melhor, durante o debate — e vão vindo as perguntas, eu vou digitando essas perguntas que estão vindo e vou alimentando a minha inteligência computacional com elas. E peço para ela já prever quais seriam as próximas perguntas e eu já esboçar respostas. Então, se o candidato tiver acesso a esses resultados durante o debate, sim, ele consegue ajustar perfeitamente a resposta e o discurso dele ali em tempo real.
Tribuna: Agentes de IA já têm capacidade para planejar e executar ações básicas de campanha? Isso pode ser usado em 2026?
Priscila: Qualquer pessoa que faça hoje um treinamento de engenharia de prompt vai ter capacidade, sim, para planejar e executar essas ações de campanha. Isso realmente… claro, você precisa de alguém que entenda bem a diferença entre as inteligências artificiais, porque hoje existem várias. E, muitas vezes, a gente não usa uma só; a gente usa três, quatro simultaneamente, para comparar as respostas ou até juntar as respostas em uma que seja mais convincente.
Então, qualquer pessoa que seja contratada por um partido ou, enfim, por uma coligação para poder apoiar essa campanha vai conseguir, sim, fazer ações essenciais: ajustar discurso, indicar que roupa tem que vestir, qual é a linguagem que tem que usar, quais são as expressões faciais e gestos que devem ser feitos. Inclusive, pode indicar quais são as melhores pessoas para estarem no palanque ao lado do candidato quando ele for fazer determinado discurso.
Então, ela pode fazer um ajuste de qualquer tipo de cenário para que aquilo traga uma sensação de reconhecimento e de bem-estar para o público que vai estar assistindo. Eles querem que as pessoas se sintam bem, se sintam confortáveis e se sintam abraçadas, apoiadas e incluídas.
Tribuna: Existe algum meio totalmente eficaz e acessível ao grande público para verificar se um conteúdo é falso? Qual será a melhor forma de proteção do eleitor no ano que vem?
Priscila: Hoje, para o público em geral, verificar se um conteúdo é falso é difícil. Como falei, as pessoas dificilmente percebem essas diferenças. É claro que as inteligências artificiais ainda têm pontos fracos, como, por exemplo, uma mão. As IAs ainda não conseguem fazer uma mão perfeita. A mão é uma parte do nosso corpo muito complexa, que faz muitos gestos, muitos movimentos, tem muitas finalidades. Então, isso deixa a inteligência artificial um pouco confusa. Mas, sim, já avançamos bastante.
Então, normalmente, quando a gente vai usar uma inteligência artificial, a gente procura justamente não incluir aquelas coisas que a gente já sabe que são fracas, que têm uma certa deficiência, para a população em geral não conseguir perceber.
Hoje, é preciso que um candidato entre com uma ação informando que o vídeo não é verdadeiro, que o áudio não é verdadeiro, que o texto não é verdadeiro. E aí você tem uma auditoria feita por especialistas, que têm programas próprios para poder identificar qualquer tipo de manipulação. Pode ser uma manipulação feita manualmente ou uma manipulação feita por inteligência artificial.
Tribuna: Modelos generativos atuais conseguem produzir textos, áudios e vídeos em grande volume e com alta qualidade. O que, do ponto de vista técnico, torna essa produção tão convincente?
Priscila: Vamos pensar aqui com relação aos filmes que a gente tem hoje, de animação com realidade virtual. Por exemplo, Avatar, que vai começar agora um outro filme. Eles são feitos ali para a gente perceber que tem um movimento real de vento, de água, de fogo, a expressão facial etc. E isso tudo é treinado com pessoas de verdade atuando ali.
Os conceitos da inteligência artificial vão além disso, porque eles aprendem não com uma ou duas pessoas que estão ali fazendo personagem, mas com milhões, bilhões de vídeos postados na internet: expressões faciais, trejeitos que as pessoas têm.
Então, na hora de gerar essas imagens, ele vai fazendo uma geração já com pensamento estatístico. Ou seja, dado que eu quero fazer uma imagem lá na frente de alguém se perguntando sobre algo, eu já começo a criar agora uma expressão facial que vai mudando do estado em que eu estou agora para um estado de pergunta. E aí isso tudo deixa muito real.
Porque, por trás disso tudo, a gente tem duas coisas: um algoritmo que vai refinando, refinando, refinando esse processo até não conseguir distinguir o que é fictício do que é real. Segundo: as pessoas que estão por trás disso são o que a gente chama de operário de chão de fábrica de inteligência artificial.
Então, por trás de cada código que não fica muito bom ou que dá errado, você tem um ser humano por trás corrigindo, avisando para a inteligência artificial: isso daqui não está certo, tem que ser desse jeito. Então, ela também não aprende sozinha com o que ela vê na internet. Ela tem seres humanos atrás falando que o que ela aprendeu está certo ou está errado.
Tribuna: Quais são as limitações reais das IAs hoje? Elas já conseguem entender contexto a ponto de produzir peças políticas complexas?
Priscila: A inteligência artificial não consegue produzir uma resposta se você não fornecer para ela um contexto. Então, vamos pensar nas eleições. Eu vou treinar a inteligência artificial para favorecer o meu partido. E eu vou treiná-la com o histórico de cada um dos meus adversários. E vou explicar para ela o contexto em que cada um desses cenários aconteceu. Ela vai aprender com isso.
Agora, eu vou falar para ela um novo contexto: agora estou nas eleições de 2026, tenho como candidatos oponentes, e eu gostaria que você interpretasse quais são as possíveis perguntas que eles podem realizar e quais são as possíveis respostas que eu posso oferecer. Então, isso que a gente chama de engenharia de prompt.
Então, se eu fizer um treinamento correto e uma pergunta bem clara, objetiva e com um contexto muito bem informado, ela, com certeza, vai te trazer uma resposta excelente. Mas tudo o que ela traz, a gente tem que verificar, porque há alguns momentos que a gente chama de delírio da inteligência artificial. É quando ela fica confusa ou não sabe o que te responder. Aí, com base no que ela conhece, ela faz uns cálculos e te dá a resposta que ela acha que seria mais provável. Mas não necessariamente esse “mais provável” é, de fato, real.
Tribuna: Mais alguma consideração?
Priscila: De tudo isso que a gente está falando de inteligência artificial, o uso da IA vai ser maior agora para converter os indecisos. Porque a gente precisa entender qual é o perfil desse indeciso: o que ele gosta, o que ele faz, com o que ele se preocupa. Para aí, sim, reutilizar a inteligência artificial para poder começar a mostrar para essa pessoa que, sim, eu tenho aquelas coisas que ela procura, que ela deseja em algum momento.
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