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Acadêmicos do Baixo Centro estreia no Carnaval de Juiz de Fora e ocupa espaço por direito

Nem todo bloco nasce de um estandarte, de uma bateria ou de uma tradição passada de geração em geração. Alguns nascem do chão. Do concreto. Do encontro improvisado. Da noite que vira manhã no Centro. O Acadêmicos do Baixo Centro, que estreia neste Carnaval de Juiz de Fora em 2026, nasce exatamente desse lugar: do cotidiano urbano, da experimentação cultural e da insistência em ocupar a cidade quando tudo parece empurrar para o esvaziamento.
O bloco não surge como uma “novidade” deslocada do que a cidade já vive. Ele é consequência direta de um movimento que, há anos, vem redesenhando o Centro de Juiz de Fora como território cultural ativo, especialmente a partir da música eletrônica, da cultura DJ e das produções independentes. O carnaval, aqui, não é ruptura. É continuidade.
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Acadêmicos do Baixo Centro: Um bloco que nasce do Baixo Centro
O nome não é metáfora. O Baixo Centro existe como espaço simbólico, afetivo e político. É onde bares, festas, coletivos e artistas aprenderam a produzir cultura com poucos recursos, muita criatividade e forte senso de comunidade. O Acadêmicos do Baixo Centro surge como uma espécie de síntese desse processo.
Mais do que um bloco, ele funciona como uma declaração: a cultura underground também é carnaval. E não apenas como trilha sonora alternativa, mas como linguagem legítima de ocupação do espaço público.
A estreia do bloco marca, também, um momento simbólico importante para o Marginal Lab, que passa a se consolidar oficialmente como produtora cultural. O Marginal Lab nasce da experiência do bar homônimo, que, ao longo de três temporadas, foi fundamental para popularizar a cultura DJ no Centro da cidade, sempre com programação gratuita e aberta.
Mais do que estrear um bloco, o Acadêmicos do Baixo Centro consolida um modelo que já vinha sendo testado na prática. À frente desse processo está Júlio Piubello, cofundador, DJ residente e produtor tanto do Marginal Lab quanto do Clube Contra.
Em entrevista ao Folha JF, ele explica que a construção do bloco segue a mesma lógica que sempre guiou o coletivo: ocupar a cidade de forma responsável, coletiva e aberta. “O Marginal começou na rua, com o nosso primeiro bar. Em 2025, a gente testou fazer um evento no viaduto e a resposta foi ótima. A gente adorou.”
Durante cerca de um ano, o espaço ajudou a formar público, revelar artistas e ativar uma área que carecia de opções culturais acessíveis, especialmente no campo da diversão noturna. Agora, essa experiência se expande para a rua.
Júlio Piubello na última edição do Marginal Lab. Imagem: Divulgação.

Do bar à praça: quando a cidade vira pista
Levar o Acadêmicos do Baixo Centro para a Praça Tarcísio Delgado, antiga Praça do PAC, não é uma escolha aleatória. O espaço carrega uma carga simbólica forte: é um ponto de passagem, de encontros rápidos, de trânsito constante. Transformá-lo em pista de dança, por algumas horas, é alterar a lógica da cidade.
De acordo com Júlio, a ideia, agora, é ampliar essa experiência. “Em 2026, queremos manter esse modelo e fazer pelo menos mais cinco eventos abertos, ocupando espaços do Centro de Juiz de Fora”, afirma. O bloco de carnaval, portanto, é apenas o primeiro grande passo oficial de uma agenda que vai além da folia.
No sábado, 31 de janeiro, das 16h às 22h, o palco da praça será comandado por onze DJs, todos nomes relevantes da cena underground local e regional: Julio, Amanda Fie, Crraudio, Ever Beatz, Beire, Princesinha do Contra, Natik, Satarbaby, Jesus, Shyoty e Grelin.
Não há trio elétrico tradicional, nem bateria no formato clássico. O que há é um convite para ouvir o carnaval por outra frequência. Beats, camadas eletrônicas, experimentações sonoras e a lógica do set contínuo transformam o espaço público em lugar de permanência, não apenas de passagem.
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Carnaval, economia e cidade
Para Júlio Piubello, o Carnaval de Juiz de Fora em 2026 dá sinais claros de amadurecimento, mas ainda exige uma mudança de olhar mais ampla. “Quanto mais a cidade entende como fazer carnaval, esse sucesso se amplia para diversos outros negócios locais”, avalia.
Mesmo sendo sua primeira experiência direta na organização de um bloco, a percepção inicial é positiva. “Minha impressão tem sido muito boa, tanto pelo suporte da Prefeitura quanto pelo retorno do público, principalmente nas redes. O juiz-forano sabe aproveitar o pré-carnaval, e abrir a temporada é um aquecimento perfeito.”
Edição do Marginal Lab nas ruas de Juiz de Fora.

A cena underground entra oficialmente no carnaval
Talvez o ponto mais simbólico da estreia do Acadêmicos do Baixo Centro seja este: pela primeira vez, a cena da música eletrônica e da cultura DJ entra oficialmente no calendário do Carnaval de Juiz de Fora como protagonista.
Durante anos, essa cena existiu à margem dos grandes eventos, sustentada por festas independentes, ocupações temporárias e muito trabalho voluntário. O bloco representa um reconhecimento tardio, mas necessário, de sua potência cultural.
Mais do que isso, ele amplia a ideia do que é carnaval. Não se trata de substituir tradições, mas de somar. O carnaval juiz-forano de 2026 se fortalece justamente porque é capaz de abrigar múltiplas linguagens: do samba ao eletrônico, do bloco tradicional ao experimento urbano.
A ansiedade para o primeiro desfile é assumida sem filtros. “É o primeiro ano do bloco. A gente já está acostumado a tocar na rua, mas estrear já nessa praça deixa o coração quentinho”, confessa Júlio. A expectativa principal, segundo ele, é apresentar com clareza o DNA do Marginal Lab. “Música eletrônica em várias vertentes e um público tão diverso quanto a própria música.”
Depois da rua, a continuidade
Quando o bloco se encerra, às 22h, a experiência não termina. Ela se desloca. O after oficial acontece no Clube Contra, dando sequência à proposta de estender o carnaval para além do espaço público, sem perder o vínculo com a rua.
Essa continuidade reforça uma ideia central do Acadêmicos do Baixo Centro: o carnaval não é apenas um evento pontual, mas um fluxo. Ele começa antes, atravessa a cidade e segue depois, conectando pessoas, espaços e linguagens.
No fim das contas, o Acadêmicos do Baixo Centro fala menos sobre carnaval e mais sobre cidade. Sobre quem ocupa, quem cria, quem insiste. Sobre transformar espaços esquecidos em lugares de encontro. Sobre reconhecer que cultura também nasce fora dos formatos consagrados.
E talvez seja exatamente isso que o torne tão necessário neste Carnaval de Juiz de Fora: lembrar que a festa só continua viva porque há gente disposta a criar, experimentar e ocupar a cidade com o que ela tem de mais pulsante.
A festa acontece neste sábado, 31, a partir de 16h na Praça Tarcísio Delgado (Ex-PAC), no Centro.
Por Anderson Narciso, para o Folha JF

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