Tribuna de Minas

Arquiteta juiz-forana coordena projeto de acessibilidade nos museus brasileiros

Juiz-forana coordena projeto de acessibilidade em museus do país (Foto: Arquivo Pessoal)
De Juiz de Fora para Brasília: assim segue a trajetória de Rafaela Felício, arquiteta e atual coordenadora de Arquitetura e Acessibilidade em Espaços Museais do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). A juiz-forana celebra uma nova fase na carreira e conduz projetos que buscam tornar os museus brasileiros mais inclusivos e acolhedores.
Nascida no Bairro de Lourdes, na Zona Leste da cidade, Rafaela conta que a decisão de cursar Arquitetura surgiu apenas no terceiro ano do Ensino Médio. Depois de uma conversa com uma tia, percebeu que seus interesses iam além do curso de Administração – que até então pretendia seguir. Unindo o raciocínio da gestão à curiosidade pelas formas e espaços que a cercavam, ela brinca que foi “mordida pelo mosquito do Patrimônio Cultural” ainda na faculdade, quando começou a compreender o poder transformador da arquitetura em lugares de memória.
Entre os primeiros passos da carreira, Rafaela destaca o trabalho na Funalfa e a experiência na restauração do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, como momentos que a fortaleceram para os caminhos que viriam. Formada desde 2008 e trabalhando no Ibram há 13 anos, ela explica que o papel do arquiteto em um museu vai muito além da estética: trata-se de criar espaços que dialoguem com as pessoas e contem histórias acessíveis a todos. “Acessibilidade é uma obrigação legal”, afirma.
Hoje, Rafaela coordena três grandes eixos de atuação: cuidar dos conhecimentos que o museu abriga e do que pode ser produzido a partir deles, aprimorar o conforto de quem o frequenta e promover a acessibilidade. É nesse último ponto que ela tem se dedicado com mais afinco.
‘Não é favor, é obrigação’
Mais do que uma questão técnica, Rafaela enxerga a acessibilidade como uma forma de sensibilização e cidadania. “Não é favor, é obrigação”, reforça. Ela destaca que garantir o acesso não se resume a instalar rampas ou sinalizações, mas envolve transformar o espaço museal em um lugar de pertencimento. Isso inclui adaptações arquitetônicas e comunicacionais, como audioguias, materiais em braille, vídeos em Libras e réplicas táteis, além da capacitação de equipes e do estímulo a uma cultura de acolhimento.
Os dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar a importância do tema: o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o que representa 7,3% da população com 2 anos ou mais. A região Nordeste concentra os maiores índices, com estados como Alagoas (9,6%) e Piauí (9,3%) acima da média nacional.
Rafaela Felício durante apresentação sobre o Programa Acesse Museus (Foto: Arquivo pessoal)
Implementando o Programa Nacional de Acessibilidade em Museus e Pontos de Memória (Acesse Museus) há um ano, Rafaela explica que o projeto atua em eixos: articulação; fomento e regulamentação; capacitação; e informação e difusão -, além de um quinto voltado à participação social, representatividade e protagonismo. O objetivo é construir políticas públicas que consolidem a acessibilidade como um princípio permanente dentro dos museus e pontos de memória, estimulando práticas inclusivas e anticapacitistas em todo o país.
O programa visa democratizar o acesso e garantir que pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e diferentes corpos e identidades possam ocupar e se reconhecer nesses espaços culturais.
A questão regional é um dos grandes desafios. Considerando que o programa se aplica a museus e pontos de memória distribuídos por diversas regiões, Rafaela reconhece que unificar uma regra para todos é complexo. Por isso, ela explica que, o projeto Acesse Museus busca promover o diálogo entre instituições, gestores e comunidades, valorizando as diversidades e incentivando soluções adaptadas a cada território.
Preservar é incluir
Questionada sobre os desafios de pensar a acessibilidade dentro dos museus, Rafaela é categórica: apesar de serem muitos, é justamente isso que torna o tema mais urgente e necessário.
Ela explica que o processo parte da participação social e do envolvimento do público-alvo, ouvindo as pessoas e compreendendo as ausências que precisam ser corrigidas. A partir desse diálogo, o Ibram promove articulações intersetoriais e ações de capacitação voltadas a profissionais de diferentes áreas. “Temos um público-alvo, mas o benefício é para todos”, ressalta.
O Instituto é responsável por 30 museus federais espalhados pelo país. Para Rafaela, o desafio de unificar regras e parâmetros é grande – e, muitas vezes, inviável – diante da dimensão territorial e da diversidade cultural e estrutural do Brasil.
Ela acredita que cada espaço museal carrega particularidades e que a acessibilidade também deve respeitar essas diferenças. Antes de avançar sobre museus regionais e independentes, Rafaela defende que os museus federais já representam um importante campo de aprendizado sobre inclusão – e, muitas vezes, sobre a própria falta dela. “A memória não se limita ao museu”, lembra, com a certeza de quem entende que preservar também é incluir.
Quando o diálogo vira acesso
Na última semana, Rafaela participou da Jornada “Compartilhando Práticas de Acessibilidade em Museus e Pontos de Memória”, transmitida pelo canal do Ibram no YouTube. O evento reuniu gestores, profissionais, pesquisadores e representantes de instituições de todas as regiões do país em uma tarde de trocas e reflexões sobre acessibilidade e inclusão no campo museal.
Durante o encontro, a coordenadora apresentou o panorama do primeiro ano do Programa Acesse Museus, destacando conquistas importantes alcançadas nesse período. Entre elas, estão a criação dos pontos focais de acessibilidade nos museus vinculados ao Ibram, o lançamento do Plano de Ação do Acesse Museus, a participação ativa do programa na organização do 8º Fórum Nacional de Museus e o fortalecimento do diálogo com instituições nacionais e internacionais, como na 5ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência.
O evento foi, segundo Rafaela, essencial para compreender a diversidade de práticas e desafios enfrentados por museus em diferentes partes do país. “O diálogo com profissionais de diversas áreas nos permite encontrar parceiros, referências e, principalmente, entender como as ideias funcionam na prática”,  explica.
Além das ações institucionais, Rafaela se dedica à difusão de ideias e à comunicação das iniciativas do programa. Ela acredita que a população precisa conhecer as políticas públicas que a envolvem – e que a acessibilidade só se torna efetiva quando as pessoas entendem que têm o direito de serem ouvidas e atendidas.
“Política pública precisa falar que existe para o povo entender que deve ser ouvido e atendido”, defende.
Mesmo de Brasília, Rafaela mantém o olhar carinhoso voltado para Juiz de Fora. Reconhece que, assim como o restante do país, o município tem suas particularidades e desafios, mas também um enorme potencial para avançar na construção de espaços culturais mais inclusivos. Para ela, a acessibilidade é um caminho coletivo, construído a partir do respeito às histórias e identidades de cada lugar.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
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