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Bastidores: Ione Barbosa aposta no efeito Nikolas para se reeleger

Na última semana, a deputada federal Ione Barbosa anunciou a troca do Avante pelo PL para a disputa à reeleição na Câmara dos Deputados. Depois de passar os últimos 6 anos – disputou o primeiro pleito em 2020, para a Prefeitura de Juiz de Fora – evitando assumir declaradamente de direita, a parlamentar vestiu a camisa ideológica do partido e busca se manter no cargo através desta plataforma política.
A escolha pelo PL já vinha sendo costurada há tempos. Enfrentou algumas resistências, mas, no fim, Ione conseguiu a filiação. E no ato, um gesto simbólico: estava ao lado de Flávio Bolsonaro – senador e pré-candidato à Presidência -, Valdemar da Costa Neto (presidente do partido) e o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante. Ou seja, mostrou que chega forte e com status dentro do partido.
Escolha pelo PL é sobrevivência para Ione
O Folha JF conversou com diversos nomes para entender a estratégia de Ione e a do PL em Juiz de Fora para as Eleições de 2026. A troca de sigla é entendida como uma estratégia de sobrevivência para Ione, inclusive confidenciada pelo círculo mais próximo da parlamentar.
Ione surgiu como um fenômeno eleitoral em Juiz de Fora. De delegada midiática, responsável por diversos inquéritos na Delegacia da Mulher, foi alçada ao posto de 3ª mais votada nas eleições para a Prefeitura em 2020. Se candidatou pelo Republicanos, teve apoio do PSDB e do PDT – este último com diversos problemas – e chegou a 56.699 votos. Ficou a menos de 3 mil votos para ir ao 2º turno e, é um consenso geral, se tivesse ido, provavelmente seria eleita a primeira prefeita na história da cidade.
Impulsionada pela bela campanha, se candidatou à Deputada Federal pelo Avante. Na chapa, André Janones, que tinha uma forte presença digital e seria um “puxador de votos” no partido. Deu certo. Ione teve 52.630 votos – sendo 44.048 votos apenas em Juiz de Fora.
Na Câmara, a expectativa era que Ione se fortalecesse para disputar o pleito de 2024 à PJF com chances de desbancar Margarida Salomão (PT), ou pelo menos deixar pavimentado o caminho para suceder a petista – sem o apoio de Margarida, por óbvio – em 2028. Mas, essa estratégia deu errado.
Com um mandato claudicante, sem grandes entregas, Ione chegou fragilizada para o pleito de 2024. Com uma campanha ruim, sem um norte, e com muita dificuldade de fechar apoios políticos – precisou recorrer aos caciques do União Brasil para ter o partido como vice – viu ruir a base de apoio construída. Repetiu o 3º lugar no pleito, mas viu sua votação despencar para 27.732 votos.
A partir daí, no mercado político, a reeleição à Câmara dos Deputados passou a ficar sob júdice, com muitas pessoas apostando que Ione não conseguiria, caso permanecesse no Avante, a reeleição.
Rumo à direita e carta na manga
Com esse cenário posto, o time de Ione foi à campo buscar um partido em que pudesse repetir o efeito de 2022: ter um puxador de votos e ela ser eleita na sobra eleitoral. A escolha foi pelo PL.
Como já explicado, Ione nunca foi uma parlamentar declaradamente de direita. Apesar de vir da segurança pública e com penetração no meio evangélico conservador, a deputada sempre evitou embates ideológicos. Sempre tratou com respeito a prefeita Margarida – inclusive nos debates – e tinha uma tendência de votar favorável ao Governo Lula. Um levantamento do site Congresso em Foco mostra que Ione votou 76% com o governo nos anos de 2023 e 2024.
Mas, com a proximidade da filiação ao PL, Ione tomou o rumo da Direita. Foi uma das vozes mais eloquentes contra a nomeação da deputada Érika Hilton (PSOL) à presidência da Comissão das Mulheres na Câmara. E ao acertar com o PL e ter Flávio Bolsonaro ao lado, já deixou claro como irá se comportar no pleito de outubro.
Mas, não será fácil convencer parte do eleitorado de direita sobre isso. Por não ser eloquente contra o PT e contra as gestões Margarida e Lula, Ione sempre foi vista como esquerdista por parcela significativa do eleitorado direitista. Tanto que, após sua filiação, começaram a circular mensagens nas redes sociais criticando o PL por ter aceitado uma “infiltrada” no partido.
Aposta no Efeito Nikolas
Sabendo que a base eleitoral em Juiz de Fora se fragilizou, principalmente após o resultado da eleição de 2024, Ione Barbosa aposta no efeito Nikolas. O parlamentar teve, em 2022, impressionantes 1.492.047 votos no Estado. A expectativa é que o deputado consiga aumentar a votação e possa ultrapassar a barreira de 2 milhões de votos. Com isso, ajudará a puxar muita gente para a Câmara.
Em 2022, Nikolas ajudou a puxar Lincoln Portela (42.328 votos), Rosângela Reis (42.009 votos) e Marcelo Álvaro Antônio (31.025 votos) para a Câmara. A expectativa, pelo que o Folha JF apurou no gabinete de Ione, é que todo candidato do PL com pelo menos 40 mil votos consiga se eleger.
Sabendo que a base em Juiz de Fora fraturou, Ione aposta nos vínculos conquistados em cidades da Zona da Mata. Nas contas, 25 prefeituras da região tem alinhamento com a deputada, que poderia garantir preciosos votos para chegar na conta de 40 mil e manter uma cadeira em Brasília.
2 nomes do PL em Juiz de Fora
A confirmação de Ione Barbosa no PL colocou o partido com 2 nomes de Juiz de Fora para a disputa à Câmara dos Deputados. Além dela, o ex-deputado federal Charlles Evangelista também estará no pleito. Mas, internamente, eles não se veem dividindo o mesmo espaço. Cada um tem um público diferente e, dificilmente, um tirará o voto do outro.
O vereador Sargento Mello também tenta entrar na chapa para a disputa de uma cadeira na Câmara dos Deputados. Mas, viu a situação ficar mais difícil com a entrada de Ione. Tanto que já reclamou publicamente disso, na tribuna do Palácio Barbosa Lima.
Charlles quer Nikolas, mas apenas em partes
Apesar da situação de Ione não preocupar Charlles, o ex-deputado tem um outro nome para ter dor de cabeça: Nikolas Ferreira. E aí entra uma dicotomia.
Charlles precisa de Nikolas puxando voto para voltar à Câmara dos Deputados. Mas, ao mesmo tempo, tem em Nikolas um rival. Em 2022, o ex-vereador de Belo Horizonte teve 29.404 votos em Juiz de Fora. A expectativa, mais pessimista, coloca Nikolas com uma projeção de ter 50 mil votos na cidade em 2026.
Nikolas e Charlles competem pelo mesmo público. Logo, pelo que o Folha JF apurou, Charlles quer ter Nikolas por perto, mas nem tão perto assim.
Tanto que o ex-deputado pretende lançar, mais próximo da eleição, um manifesto pedindo que o juiz-forano vote em um juiz-forano na eleição para Deputado Federal e Estadual. É uma forma, sutil, de rifar Nikolas e outros nomes da direita da cidade, e se colocar como o principal expoente deste eleitorado em JF.
Apesar de ser da cidade, Charlles teve apenas 9.139 votos em Juiz de Fora na eleição de 2022. Ele voltou a ter protagonismo em 2024, quando surpreendeu ao chegar em 2º na eleição para Prefeitura, com 76.953 votos. Com forte presença nas redes sociais e rodando a cidade criticando a gestão Margarida, após a tragédia que abateu a cidade em fevereiro, há uma expectativa que Charlles chegue com musculatura para o pleito de outubro.
Se no círculo de Ione a conta é 40 mil para se eleger, na de Charlles esse número salta para 60 mil. Por isso, na visão do ex-deputado é preciso uma campanha que estimule o eleitor a não votar em pessoas de fora da cidade.

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