Bloco Filhas da Luta transforma o Carnaval de Juiz de Fora em espaço resistência
O Bloco Filhas da Luta volta às ruas do Centro de Juiz de Fora nesta quinta-feira, 5 de fevereiro, com um desfile que vai além da festa. Primeiro bloco de carnaval feminista da cidade, o Filhas da Luta chega a mais um ano reafirmando que alegria, política e afeto podem caminhar juntos no Carnaval.
A concentração acontece a partir das 17h, no Parque Halfeld, de onde o bloco segue pelo Circuito Zé Kodak, em cortejo aberto conduzido pelas artistas do Lá na Lona e pela bateria das Charmosas do Tamborim. O trajeto termina na Praça Doutor João Penido, onde o público acompanha as apresentações do Samba de Colher, DJ Many e Xota Efe.
Um bloco que nasce da luta e ocupa a cidade
Fundado em 2019 pelo Fórum 8M/JF, o Filhas da Luta surge como extensão das mobilizações feministas da cidade, especialmente das articulações em torno do 8 de março. Desde o início, o bloco se propõe a politizar o Carnaval, levando para a rua pautas que atravessam o cotidiano das mulheres, sem abrir mão da festa, da música e do encontro.
A cada ano, um novo mote organiza o desfile e amplia o diálogo com a cidade. Em 2026, o tema escolhido é “Mana Mina Mona Move Mundo”, um chamado direto para refletir sobre a precarização do trabalho e a invisibilização da força feminina que sustenta a sociedade.
Imagem: Arquivo Pessoal/Filhas da Luta.
O que o mote de 2026 quer dizer
Ao ocupar o Centro com esse tema, o Filhas da Luta chama atenção para realidades que seguem naturalizadas. Mulheres são as mais afetadas pela escala de trabalho 6×1, acumulam jornadas de cuidado não remunerado com crianças e idosos, recebem os menores salários e continuam afastadas dos cargos de decisão.
As violências também atravessam esse cenário. Dados seguem crescendo, enquanto políticas públicas e legislações ainda falham em oferecer proteção efetiva. No Carnaval, o bloco transforma essas dores em discurso coletivo, reafirmando que também somos alegria, festa e resistência.
“O bloco é uma grande ferramenta de comunicação”
Em entrevista ao Folha JF, uma das organizadoras, Laiane Araújo explica que o Filhas da Luta é pensado como um espaço de diálogo com a cidade. “O bloco já é uma movimentação para as paralisações e manifestações do 8 de março. A arte permite que a gente faça essa comunicação de uma forma mais leve, mas sem perder o caráter político”, afirma.
Segundo ela, ocupar o espaço público é parte essencial da proposta. “Nossos corpos no Centro da cidade também são políticos. Estar ali é afirmar que temos direito à cidade, à diversão, ao respeito. A rua vira um espaço de escuta.”
Imagem: Arquivo Pessoal/Filhas da Luta.
Carnaval também é estrutura, dignidade e pertencimento
Laiane destaca ainda a importância da estrutura oferecida nos últimos anos para a realização dos blocos. Palco, som, banheiros químicos e apoio da Guarda Municipal são apontados como condições mínimas para que a festa aconteça com dignidade.
“Isso incentiva mais pessoas a criarem blocos. Hoje vemos não só os blocos do Centro, mas também de regiões mais distantes. É um processo de retomada do Carnaval em Juiz de Fora, algo construído a longo prazo”, avalia.
Festa, política e encontro
Neste ano, o encerramento do Filhas da Luta ganha um simbolismo especial, com a participação do bloco feminista Sagrada Profana, de Belo Horizonte, convidado para se apresentar após o cortejo. Dois blocos feministas se encontrando na rua, ampliando redes e afetos.
Entre tambores, vozes e corpos em movimento, o Filhas da Luta reafirma que o Carnaval também é coisa séria. É espaço do povo, de quem trabalha, de quem cuida, de quem move as engrenagens da cidade. E, acima de tudo, é um lembrete coletivo de que celebrar também é um direito.