Carnaval e o direito à cidade

Valemos menos à medida em que envelhecemos. Já nos adiantara dessa realidade o poeta maior Carlos Drummond de Andrade em suas reflexões poéticas.
Nossa cultura não celebra a conquista da longevidade. De um modo geral, com o nosso envelhecimento, a sociedade brasileira nos conduz ao silêncio da indiferença, da invisibilidade, do esquecimento social e nos empurra para fora da paisagem urbana. A cidade não quer saber mais de nós. Não somos mais convidado/as.
O tempo acelera tudo. E quem não acompanha esse compasso apressado – como muitos de nós – vamos ficando para trás, como se fôssemos excessos, sobras, estorvos. Assim, não fica difícil de perceber que muitas pessoas idosas passam a existir apenas nos bastidores da sociedade: nos bancos duros e desconfortáveis do Parque Halfeld; atrás das cortinas das janelas fechadas dos apartamentos e nas filas dos supermercados e das agências bancárias.
O espaço urbano que deveria ser um território de convivência, transforma-se em um labirinto social hostil. Faltam rampas, sobram degraus. Faltam cafés, sobram farmácias. Faltam bancos, sobram obstáculos. Faltam escuta e sensibilidade, sobram pressa e descaso. A cidade não está organizada. Planejada.
Para as pessoas idosas: ou elas, as que podem, as que tem recursos próprios – buscam algum tipo de adaptação por si só; ou as outras – que são a maioria – ficam recolhidas ao abandono urbano. A cidade não é para elas. Mesmo elas tendo contribuído para o seu crescimento e progresso. Mas é tempo de carnaval!
Nesses dias, o silêncio urbano é interrompido pela zoeira coletiva, como se a cidade, enfim, buscasse sair de sua mesmice ordinária. Para muitos idosos, o carnaval não é apenas a possibilidade de usufruir do direito à alegria; é ter a reconexão com a vida. É ter também o direito de ocupar a cidade – quebrar o isolamento social imposto a eles – é reencontrar-se consigo mesmo e com as outras pessoas.
É o que eu faço quando vou ver a banda passar. Não é a banda do Chico Buarque. É a Banda Daki Com o carnaval, a gente faz do território da cidade, um espaço de afetos e de encontros humanos, tão desejados nesses tempos áridos de gentilezas. Mas, esse desejo exige escolha política, ética e humana para quem caminha devagar. Não apenas para quem grita, mas, principalmente, para quem precisa ser ouvido. Para quem toca a bateria da escola de samba. Para quem carrega a memória coletiva.
… Que o carnaval nos provoque mudanças. Novas possibilidades de envelhecer e de existir na cidade. Que o bloco Recordar é Viver nos mostre que as pessoas idosas exigem mais atenção e menos preconceito.
Que nos ensine que uma cidade só se torna plena e civilizada, quando reconhece, protege e celebra aqueles que envelhecem. Uma cidade que silencia seus idosos perde a sua própria voz. Caro/as leitor/as, bom carnaval!
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