Tribuna de Minas

Cinthia Gama: ‘A poesia se tornou uma presença que me escutava em silêncio, meu consolo íntimo e minha forma de liberdade’

Arquiteta e poetisa, Cinthia Gama relança ‘Alicerce poético’, composto por poemas que atravessam temas muitas vezes reprimidos: amor erótico, depressão, ansiedade e desejos não realizados (Foto: Lage Estúdio/ Divulgação)
Cinthia Gama escreve desde bem pequenina. Os versos que tecia ficavam guardados só para si, até que decidiu dividi-los com amigos e familiares. Por isso, no ano de 2020, lançou um livro, intitulado “Do infanto (com fase de encanto) ao insano”, composto por poemas escritos da meninice até os 35 anos. Contudo, com o tempo, sua escrita íntima começou a pedir circulação pública. Então, ela decidiu partir para a produção de uma segunda obra. Agora, sem restrição de leitores.
Assim, três anos depois da estreia literária, nasceu “Alicerce poético” (Autoria, 92 páginas), cujo relançamento ocorrerá em breve. Vale dizer, após um período em que a poetisa havia desistido da poesia. “Depois da primeira tiragem, eu acreditava que a vida de escritora não era para mim, já que não sou do tipo que se engaja em redes sociais ou domina estratégias de divulgação. Mas, após a ressaca da publicação, as poesias voltaram com força, diferentes: mais ousadas, mais corajosas do que tudo que eu havia escrito até então. Passei a brincar mais com os versos, com as palavras, a me imaginar como outra mulher, e isso me deu novo estímulo”, conta.
A decisão de revisitar “Alicerce poético” foi tomada, de acordo com a autora, “como um ensaio de divulgação”. Ela resolveu participar de feiras e disponibilizar exemplares em pontos comerciais, o que não foi possível ser feito no lançamento da primeira tiragem, pois o número de exemplares era baixo. “Hoje, escrever é um estímulo para permanecer na arte. A poesia deixou de ser apenas terapia e se tornou também diversão, ficção, experimentação. Ela continua sendo meu alicerce, mas agora também é ensaio e jogo criativo. Dessa experimentação nasceu também uma nova coletânea de poesias e, com sorte, provavelmente virará um novo livro, desta vez publicado através da Lei Murilo Mendes.”
Cinthia Gama é arquiteta e, não por acaso, sua poesia, de certa forma, é atravessada pela profissão que escolheu. “Como velha arquitetura/ Estou sendo restaurada/ Alterando uns cômodos/ Removendo incômodos/ E dessa reforma íntima/ Que minha alma intima/ Reestruturo as paredes/ Tiro o que não impende/ Revejo minha decoração/ Emancipo meu coração/ E com paisagismo novo/ Harmonia do lar, promovo.”
Marisa Loures: Cinthia, você está relançando “Alicerce poético”, cujo título sugere base, sustentação, estrutura. Que tipo de alicerce esse livro constrói?
Cinthia Gama: “Alicerce poético” constrói, sobretudo, uma base pessoal e existencial, embora também haja uma dimensão estética. Pessoal, porque é através da poesia que realizo minha autoanálise e busco soluções para questões que me causam incômodo. Existencial, porque o livro reflete um olhar voltado para a sociedade e questiona a forma como ela se organiza nos dias atuais. E, por fim, a estética, igualmente essencial, pois sempre procuro versos que tragam musicalidade, ritmo e rima, tornando a experiência poética mais completa.
E o livro é aberto com um poema em que você se descreve como uma “velha arquitetura” em processo de restauração. De que maneira a arquitetura atravessa a sua escrita poética e a forma como você pensa a si mesma?
Na minha concepção, a arquitetura é a união entre o funcional e o belo. Vejo nela um dinamismo marcado pela dualidade: claro e escuro, forte e leve, interior e exterior. Essa dualidade reflete muito o ser humano, que precisa olhar para dentro de si para se transformar e, ao mesmo tempo, oferecer aos outros o que tem de melhor. Precisamos nos manter em constante transformação para acompanhar as demandas que mudam cada vez mais rápido. A arquitetura me atravessa como metáfora dessa mutabilidade e dessa condição dual que nos constitui.
Revisitar um livro já publicado altera a forma como você se reconhece nele?
Sim, muito! Sinto que as poesias, além de terem sido uma forma de realização no imaginário, também funcionaram como um enfrentamento dos meus medos, um encorajamento para transformar desejos em realidade e um consolo diante daquilo que não posso mudar. Relê-las é sempre um exercício de avaliar meu crescimento, tanto pessoal quanto poético, e confirmar superações que eu nem imaginava possíveis.
Capa de “Alicerce poético” (Foto: Divulgação)
No prefácio, você afirma que “Alicerce” atravessa temas muitas vezes reprimidos: o amor erótico, a depressão, a ansiedade, os desejos não realizados. A poesia é o lugar onde você encontra liberdade para dizer o que, socialmente, tende a permanecer escondido?
Sempre vi a poesia como um espaço seguro para expressar, sem medo, meus desejos e meus demônios, buscando respostas para minhas ansiedades. Com o tempo, percebi que ela também era uma forma de realização através do imaginário. Em relação ao amor erótico, sobretudo, já que fui ensinada a mantê-lo restrito às quatro paredes. Na poesia, porém, eu me libertava, escrevia sem amarras, porque ali as regras eram minhas. O mesmo acontecia com temas como depressão e ansiedade, que não encontravam acolhimento fora da escrita. A poesia se tornou como uma presença que me escutava em silêncio, um ouvido atento, meu consolo íntimo e minha forma de liberdade.
Antes de “Alicerce”, você publicou “Do infanto (com fase de encanto) ao insano”, um livro inicialmente pensado como presente para amigos e familiares. Em que momento essa escrita íntima passou a pedir circulação pública?
Isso aconteceu quando percebi que minhas poesias não falavam apenas de mim, mas também podiam refletir sentimentos e desejos de outras pessoas. Passei a compartilhá-las com amigos e colegas, sem grandes intenções. Quando me perguntaram sobre a possibilidade de publicação, compreendi que a poesia não deveria ficar restrita a mim, mas deveria ser aberta para representar, encorajar e consolar outros. Foi nesse momento que percebi que, mesmo muito pessoal, a escrita é também universal, e isso me motivou a torná-la pública.
Aliás, os poemas de “Do infanto (com fase de encanto) ao insano” atravessam um longo período da sua vida, da infância aos 35 anos. O que mudou na sua relação com a poesia entre esse primeiro gesto e a publicação de “Alicerce poético”?
– A mudança mais evidente é que a poesia surgia como inspiração, diferente de hoje. Na infância, eu escrevia estimulada por professores nas aulas de português, recebia temas e os transformava em versos, percebendo que tinha facilidade em criar rimas. Na adolescência, o amor romântico era o tema central, e os versos vinham como sopros, leves e fantasiosos, sem grandes pretensões. Já em “Alicerce poético”, a escrita nasce da reflexão, da introspecção, do desejo de resolução e de prazer. Hoje percebo mais profundidade, como se a poesia tivesse se tornado menos inspiração e mais expiração: um processo de mergulho e elaboração consciente.
Por falar em redes sociais, no poema “Blasé”, você lança um olhar bastante crítico sobre a vida mediada pelas telas e pelas redes sociais. A poesia é uma forma de resistência a esse empobrecimento da experiência?
Acredito que não apenas a poesia, mas a escrita em geral, funciona como resistência a esse empobrecimento. Ela nos abre para a vida real, para os fatos, mesmo quando parte da ficção ou do íntimo alheio. Infelizmente, muitas pessoas têm valorizado coisas superficiais e perdido a vivência do presente. Preferem registros perfeitos a momentos verdadeiramente vividos. Não pensam em guardar lembranças, mas em acumular curtidas. Isso mecaniza a vida, porque o foco deixa de ser a experiência e passa a ser a divulgação, muitas vezes desconectada do sentimento real. Escrevi esse poema num ônibus urbano, distraída pela paisagem de um dia bonito. Ao olhar ao redor, vi pessoas mergulhadas em suas telas, indiferentes ao entorno. A mesma sensação tive em um show, quando percebi que muitos assistiam ao artista apenas pela gravação que faziam. É assustador como se deixou de viver o real. Por isso, acredito que a escrita, pela sua complexidade e demanda de atenção, ajuda a diminuir essa desconexão e nos reconecta à realidade.
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