Com esforço próprio, blocos transformam o Carnaval 2026 de Juiz de Fora em um marco histórico
O primeiro fim de semana do Carnaval de 2026 em Juiz de Fora deixa um recado claro antes mesmo da chegada oficial da folia: o carnaval da cidade voltou a ser plural, diverso e profundamente conectado com os territórios e com as pessoas que o constroem. Entre blocos tradicionais, estreantes, manifestações afro, coletivos LGBTQIAPN+ e festas espalhadas por bairros e comunidades, a cidade vive um retrato fiel do que o carnaval de rua sempre representou: ocupação do espaço público, identidade cultural e encontro.
Ao mesmo tempo em que esse resgate acontece, cresce também a discussão sobre os limites do modelo atual de financiamento e apoio aos blocos. O aumento do número de eventos, do público e da circulação de pessoas escancara uma realidade já conhecida por quem faz carnaval em Juiz de Fora: a festa cresce, mas os recursos continuam restritos.
Uma cidade que volta a se reconhecer na rua
A programação do primeiro fim de semana mostra que o carnaval juiz-forano deixou de ser concentrado apenas no Centro e voltou a pulsar em diferentes regiões. Da Praça da Estação ao Morro do Cristo, passando por bairros como Jardim Glória, Vitorino Braga, Aeroporto, Ipiranga e comunidades da Zona Norte, a folia se espalha e reafirma seu caráter popular.
Na sexta-feira (30), o Esquenta de Carnaval do Samba dos Amigos abre os trabalhos na Praça da Estação. No sábado (31), a cidade amanhece com blocos infantis, como o Muvukinha e o Bloquinho Catavento, e segue com uma sequência de eventos que mistura tradição, novidade e diversidade cultural. O domingo (1º) mantém o ritmo, com blocos em bairros, distritos e no circuito central.
Essa ocupação descentralizada é um dos sinais mais evidentes da força do carnaval de rua. Ele não pertence a um único público, nem a um único formato. Ele se adapta aos territórios e às histórias que encontra pelo caminho.
Imagem: Divulgação/PJF.
O peso da tradição: 30 anos do Concentra, Mas Não Sai…
Poucos blocos traduzem tão bem essa relação entre carnaval, memória e cidade quanto o Concentra, Mas Não Sai…. Fundado em 1996, o bloco chega a 2026 comemorando 30 anos de festas públicas, gratuitas e ininterruptas na Praça Ministrinho, no bairro Jardim Glória.
Criado por um grupo de amigos que se reunia no antigo restaurante Adega Lugar de Sempre, o bloco nasceu quase como uma brincadeira, mas rapidamente se tornou uma referência. Desde a mudança para a Praça Ministrinho, o Concentra construiu uma identidade própria, marcada pela valorização de artistas de Juiz de Fora e pela forte ligação com a obra de Chico Buarque, especialmente a figura de Julinho da Adelaide, pseudônimo autorizado pelo próprio artista.
Em entrevista ao Folha JF, o presidente do bloco, Wilian Choppinho, explica que a sobrevivência do Concentra passa, hoje, por um esforço coletivo e por apoios pontuais.
O bloco se mantém, principalmente, com o apoio de vereadores da cidade e de parceiros locais, que ajudam na confecção das camisas. O suporte da Prefeitura, por meio da Funalfa, se restringe à infraestrutura básica, como palco e banheiros químicos, sem repasse direto de verba.
Choppinho também ressalta que o bloco tem plena consciência do impacto que gera no entorno – e que mesmo assim, muitos bares parecem não apoiar o evento. “O Bloco tem consciência do retorno que produz em torno da Praça Ministrinho, com os bares e ambulantes. Sentimos não termos apoio algum dos bares que estão em torno da Praça. Mas isso não impede que o Bloco, que comemora 30 anos, siga em frente.”
William Choppinho e Doce Maria, organizadores do Bloco Concentra, Más Não Sai… Imagem: Arquivo Pessoal.
A verdade é que bares, ambulantes e comerciantes da região se beneficiam diretamente do evento, embora, segundo a organização, esse retorno nem sempre se traduza em apoio financeiro ao bloco. Mesmo diante dessas dificuldades, o Concentra segue como símbolo de resistência e continuidade.
Blocos que reinventam o carnaval para sobreviver: Bloco das Cores mantém tradição viva para o público LGBTQIAPN+
Se a tradição sustenta parte da festa, a reinvenção é o que permite que novos blocos surjam e se consolidem. Um dos exemplos mais emblemáticos dessa nova geração é o Bloco das Cores, que chega ao seu quinto ano como um dos principais espaços de celebração da diversidade LGBTQIAPN+ em Juiz de Fora.
Idealizado pelo performer, DJ e apresentador TITIago, em parceria com o DJ Fábio Laroque, o Bloco das Cores nasceu após a pandemia, primeiro em formato fechado, até ganhar as ruas e se transformar em um dos grandes destaques do carnaval recente da cidade. A proposta sempre foi clara: criar um espaço seguro, festivo e inclusivo, onde a diversidade fosse protagonista.
Em conversa com o Folha JF, TITIago destaca que o carnaval é, também, uma engrenagem importante da economia local. Para ele, ainda falta aos juiz-foramos a necessidade de compreender que investir em carnaval não é gasto, mas retorno. Pessoas de fora vêm para Juiz de Fora, consomem, ocupam hotéis, bares e restaurantes. O bloco, segundo ele, é prova disso: todos os anos, recebe foliões de outras cidades.
Além disso, ele comentou sobre a escolha pelo formato com trio elétrico e cortejo em movimento, no Circuito Júlio Guedes. Para o organizar, fazer esse moviemnto tem um significado que vai além da estética. “É uma forma de resgatar a memória das antigas paradas LGBTQIAPN+ que marcaram a cidade e de reafirmar a presença desse público no espaço urbano.“. O sucesso do modelo, sempre com grande público, mostra que existe demanda e pertencimento.
DJ Fábio Laroque e TITIago, organizadores do Bloco das Cores. Imagem: Paula Terra/ Divulgação.
Diversidade que se manifesta em ritmos e territórios
O primeiro fim de semana também reforça a pluralidade de linguagens do carnaval juiz-forano. O Bloco Afro Ilú Axé Muvuka, por exemplo, leva para as ruas a força da cultura afro-brasileira, com tambores, cantos e ancestralidade. Já o bloco 360 nas Alturas, estreante no Morro do Cristo, aponta para novas possibilidades de ocupação simbólica da cidade.
Nos bairros, blocos como o do Coveiro, no Vitorino Braga, e os eventos em regiões da Zona Norte reafirmam que o carnaval não é exclusividade do Centro. Ele se constrói nas comunidades, nos encontros locais e na relação direta entre artistas e moradores.
Leia também: Confira a programação completa dos Blocos de Rua do Carnaval 2026 em Juiz de Fora
Apoio público, editais e limites do modelo atual
Apesar da diversidade e da vitalidade do carnaval, o modelo de financiamento segue como um dos principais desafios. O apoio da Prefeitura, por meio da Funalfa, se concentra na oferta de infraestrutura. Editais específicos ajudam alguns blocos, mas não contemplam a totalidade das demandas.
A percepção, compartilhada por diferentes organizadores, é que o carnaval de 2026 avançou em organização e diálogo, mas ainda precisa ser entendido como política pública estratégica. Investir na festa é investir em cultura, turismo e economia criativa.
Esse debate se torna ainda mais urgente diante do crescimento do número de blocos e da retomada dos desfiles das escolas de samba, organizados pela Liesjuf. Com orçamento limitado, o risco é que a expansão da festa não seja acompanhada por condições adequadas de segurança, estrutura e valorização dos artistas.
Um carnaval que aponta caminhos
O que o primeiro fim de semana do Carnaval 2026 revela é que Juiz de Fora tem um carnaval vivo, diverso e profundamente conectado com sua população. Blocos tradicionais e novos, manifestações culturais distintas e ocupações descentralizadas mostram que a cidade voltou a se reconhecer na rua.
Ao mesmo tempo, a festa escancara a necessidade de amadurecer o debate sobre financiamento, patrocínio privado e políticas públicas para a cultura. O carnaval não é apenas entretenimento. Ele movimenta a economia, fortalece identidades e constrói pertencimento.
Se o desafio é grande, a resposta também é clara: o carnaval juiz-forano cresce porque as pessoas acreditam nele. Cabe agora à cidade, como um todo, decidir se esse crescimento será sustentado ou limitado pela falta de investimento.