E-book aborda protagonismo da população negra em Juiz de Fora no século 19

Trio de pesquisadores lança livro sobre ações de liberdade em Juiz de Fora (Foto: Anna Júlia / Divulgação)
Escrito por Giovana de Carvalho Castro, Vanessa Ferreira Lopes e Luan Pedretti de Castro Ferreira, o e-book “Ações de liberdade em Juiz de Fora: protagonismos, autonomias e insurgências” aborda o protagonismo de sujeitos negros em situação de escravização e em busca da liberdade no século 19. Lançado este mês, o livro será disponibilizado na primeira quinzena de outubro via instagram do projeto e na aba “Juiz de Fora: Cidade Negra”, no site da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
De acordo com os autores, a ideia de produzir a obra surgiu da interrelação entre a pesquisa e o ativismo de Giovana, que é historiadora e defensora do lugar da memória enquanto política de reparação histórica. Anteriormente, ela publicou um e-book sobre a ação de liberdade mais conhecida em Juiz de fora, a de Roza Cabinda, e assim, com o levantamento das ações em parceria com Luan e Vanessa, amadureceu a ideia de se amplificar as discussões sobre as ações de liberdade na cidade.
Desenvolvimento de um estudo de impacto
Inicialmente, foi feita uma pesquisa sobre a produção historiográfica nos cenários local e nacional relativas ao tema e, a partir disso, os historiadores conseguiram localizar uma documentação relativa às 19 ações de liberdade conservadas sob a guarda do Arquivo Histórico Municipal. Dessa maneira, os materiais foram digitalizados por Vanessa e, posteriormente, transcritos por profissionais especialistas em leitura do século 19. Os autores, então, realizaram a leitura de todas as ações, o levantamento de cada informação a respeito de cada documento e a produção do texto que dá origem ao livro.
“O primeiro ponto importante que esse livro destaca, que é uma discussão historiográfica, é o que chamamos de emancipações e pós-abolições, pois não utilizamos mais o termo escravidão e pós-escravidão. Assim, para entender a dinâmica das cidades escravistas, nós, e a própria historiografia, defendemos que essas pessoas não eram vítimas passivas de um sistema. Elas eram humanas que tinham estratégias de enfrentamento a essas condições, que não eram só de fuga, mas de reivindicação de direitos de maneira revolucionária em uma sociedade que não aceitava isso”, afirma Giovana.
O autores mencionam vários personagens que os marcaram durante a pesquisa, um deles é Marcellina Angélica de Almeida, a única pessoa que tem o nome completo nas ações. Todos os outros personagens foram identificados somente com o primeiro nome, ou então com um indicador de origem, como “creoula”, que indica o nascimento no Brasil, e “cabinda”, com nascimento no continente africano.
Marcellina era uma pessoa livre, portanto, havia adotado um sobrenome. Dessa maneira, entrou com um processo de ação em favor do seu filho, demonstrando a força dos laços familiares e como esses vínculos não se esgotavam com o alcance da liberdade de um dos integrantes do núcleo familiar. Nesse cenário, a mãe, afetada pela antiga situação de cativeiro, almeja que seu filho seja poupado.
Impactos e futuro
Lançamento do ebook reuniu diversas pessoas no Anfiteatro João Carriço (Foto: Anna Júlia / Divulgação)
Aprovado e realizado mediante a Lei Murilo Mendes, o e-book explora como a liberdade era algo precário, instável e difícil de ser mantido numa cidade movida pela força da escravidão. Ao mesmo tempo, conforme os escritores, esse processo serve como um demonstrativo de como essas pessoas se mantiveram firmes na luta pelo direito de liberdade sob diversas formas e vias. Assim, os historiadores abordam a oportunidade de divulgar essa realidade para diversos públicos e de forma acessível.
“É possível conectar as ações históricas de liberdade com as lutas sociais contemporâneas ao compreendermos que, quando nós fazemos parte de um país que foi marcado pela exploração da mão de obra escravista, não tem como você fazer um corte historiográfico dessa época e considerar que agora nós somos uma cidade completamente industrial, formada somente pelo trabalho imigrante, desconsiderando a força da escravidão na constituição de todo o capital e de toda a movimentação social que é feita a partir das heranças da exploração desse trabalho”, enfatiza Giovana.
Além do lançamento do livro, o trio organiza duas oficinas didáticas para uso do e-book em sala de aula. Os encontros ocorrem nesta quinta-feira (18), às 14h e na próxima (24), às 18h, no Instituto Casa Cirene Candanda, localizado na Avenida Rio Branco. As inscrições podem ser realizada via formulário na bio do instagram do projeto até 30 minutos antes de cada encontro. A atividade é direcionada para todos que tiverem interesse de compreender as possibilidades do uso desse material, como por exemplo, nas escolas do município, na rede estadual e no ambiente universitário.
*Estagiária sob supervisão da editora Gracielle Nocelli
Serviço
Oficinas didáticas
Data: 18 e 24 de setembro
Horário: 14h (18/09) e 18h30 (24/09)
Local: Instituto Casa Cirene Candanda (Av. Barão do Rio Branco, 2288)
Inscrições gratuitas mediante formulário no link da bio do projeto (podem ser realizadas até 30 minutos antes dos encontros)
LEIA MAIS sobre Cultura aqui
O post E-book aborda protagonismo da população negra em Juiz de Fora no século 19 apareceu primeiro em Tribuna de Minas.



