Fevereiro Roxo: lúpus atinge mais mulheres e pode levar tempo para ser diagnosticado

O Fevereiro Roxo alerta para lúpus, fibromialgia e Alzheimer. Criada em 2014, a campanha adota o lema “Se não houver cura, que ao menos haja conforto” e reforça a importância do diagnóstico e do acolhimento. A partir deste domingo, a Tribuna publica uma série especial sobre a campanha, abordando as três condições.
Doença inflamatória autoimune – quando o sistema imunológico passa a atacar, por engano, estruturas saudáveis do próprio corpo -, o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) pode atingir pele, articulações, rins e cérebro. Segundo o Ministério da Saúde, está entre as doenças autoimunes de maior relevância clínica.
Segundo a reumatologista Aline Teixeira de Landa, o lúpus não é hereditário, embora exista predisposição genética – o que faz com que pessoas com familiares com a doença tenham maior chance de desenvolvê-la. De acordo com a médica, o quadro resulta da interação entre genética, gatilhos ambientais e fatores hormonais. Entre os principais gatilhos está a radiação ultravioleta, o que reforça a orientação de uso diário de proteção solar.
Mulheres têm maior risco
Segundo a reumatologista, a doença é mais frequente em mulheres em idade reprodutiva, sobretudo entre 20 e 45 anos, embora também possa atingir adolescentes.
Uma das hipóteses para essa predominância é a influência de hormônios sexuais, especialmente o estrogênio, que pode favorecer o desenvolvimento do lúpus em pessoas com predisposição genética, de acordo com o Centro Multidisciplinar de Estudos Clínicos. Ainda assim, o hormônio, sozinho, não explica a doença.
Pesquisas também apontam maior risco e maior gravidade em mulheres negras, latinas e asiáticas, com mais chance de complicações, como o comprometimento renal; as causas dessas diferenças ainda são investigadas.
Quando afeta vários órgãos
O lúpus pode se apresentar de formas diferentes, com manifestações e impactos distintos no organismo. Para a reumatologista, a doença é considerada cutânea quando há acometimento exclusivo da pele e sistêmica quando envolve múltiplos órgãos – com ou sem alterações cutâneas.
No lúpus cutâneo, as lesões aparecem na pele e podem se concentrar em áreas como rosto, nuca e couro cabeludo. Já o sistêmico pode comprometer, além da pele, estruturas como articulações, rins, coração, pulmões e sangue, variando de quadros leves a situações mais graves. O Ministério da Saúde ressalta que, em alguns casos, pessoas com a forma cutânea podem evoluir para a forma sistêmica.
Aline Landa também cita o lúpus induzido por medicamentos, que costuma ser mais leve e melhora após a suspensão do remédio relacionado ao quadro. Sobre o neonatal, o órgão federal explica que se trata de uma condição rara, que pode afetar recém-nascidos de mães com lúpus, com sinais como erupções na pele, alterações no fígado ou baixa contagem de células sanguíneas, geralmente temporários nos primeiros meses de vida.
Sintomas variam e podem ser discretos
Segundo a médica, os primeiros sinais do lúpus costumam incluir lesões na pele – principalmente em rosto, braços e colo – e dores articulares em mais de uma articulação ao mesmo tempo. Ela chama atenção para sintomas que podem passar despercebidos, como fadiga intensa, alterações de humor e mudanças cognitivas.
A médica alerta ainda que alterações na urina, como espuma ou presença de sangue, podem indicar comprometimento renal e exigem avaliação médica imediata.
O Ministério da Saúde complementa que os sintomas podem surgir de forma súbita ou gradual e variar em intensidade. Em muitos casos, aparecem em crises, com períodos de piora seguidos de melhora. Entre as manifestações mais citadas estão febre, sensibilidade ao sol, queda de cabelo, feridas na boca, dor no peito ao respirar fundo, falta de ar, além de sinais neurológicos como dor de cabeça, confusão mental e perda de memória.
Dependendo do órgão atingido, podem ocorrer sintomas específicos, como convulsões, alterações de visão e mudanças de comportamento; dor abdominal, náuseas e vômitos; arritmias; tosse com sangue; e alterações na pele e na circulação, como o fenômeno de Raynaud.
Diagnóstico pode confundir
Por ter sintomas que se parecem com os de outras enfermidades, o Lúpus nem sempre é uma doença simples de diagnosticar. A reumatologista explica que a demora pode ocorrer por diferentes razões: em muitos casos, o quadro começa com queixas mais subjetivas ou sinais inespecíficos, o que faz com que a suspeita inicial recaia sobre outras condições. No contexto do SUS, ela destaca que um dos principais entraves é o tempo até o paciente conseguir chegar ao reumatologista, especialista habilitado para confirmar o diagnóstico e conduzir o tratamento – dificuldade que se agrava pela escassez desse profissional na rede pública.
Segundo a médica, as confusões mais comuns envolvem outras doenças reumatológicas imunomediadas, como artrite reumatoide e síndrome de Sjögren. Em algumas situações, infecções e até doenças neoplásicas também podem entrar no diagnóstico diferencial, dependendo dos sintomas e dos exames iniciais.
O Ministério da Saúde orienta que a investigação da LES inclui avaliação clínica e exame físico, além de exames laboratoriais e de imagem para apoiar a confirmação do quadro e verificar possíveis comprometimentos. Entre eles estão o teste de anticorpos, como o anticorpo antinuclear (ANA), o hemograma, o exame de urina e, quando indicado, radiografia de tórax e biópsia renal.
Tratamento ajuda no controle
Apesar de não ter cura, Landa enfatiza que com tratamento adequado o paciente tende a apresentar bom controle do quadro e manutenção da qualidade de vida. De acordo com o Ministério da Saúde, nos quadros mais leves, o controle costuma envolver anti-inflamatórios não esteroides para aliviar dores articulares e inflamações, uso diário de protetor solar para prevenir lesões cutâneas, corticoides tópicos para pequenas lesões na pele e antimaláricos, como a hidroxicloroquina, além de corticoides em baixa dosagem quando há comprometimento de pele e articulações.
Já nos casos considerados mais graves, o tratamento pode exigir doses mais altas de corticoides e o uso de medicamentos que reduzem a resposta do sistema imunológico, como os imunossupressores. Em situações em que não há resposta adequada ou quando os sintomas se agravam após a suspensão dos corticoides, podem ser indicadas drogas citotóxicas, que atuam bloqueando o crescimento celular.
*Estagiária sob supervisão da editora Carolina Leonel
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