Há 150 anos, Juiz de Fora inaugurava sua ferrovia e entrava de vez na era do café e do progresso
A ferrovia faz parte da cultura de Juiz de Fora — para o bem e para o mal. Ela cortou bairros, impulsionou a economia, ajudou a cidade a crescer e, ao mesmo tempo, deixou marcas urbanas que seguem sendo debatidas até hoje. Essa história começa oficialmente em 30 de dezembro de 1875, data da inauguração do ramal da Estrada de Ferro Dom Pedro II em Juiz de Fora.
A chegada do trem representou um marco definitivo no desenvolvimento da cidade, conectando a Zona da Mata aos grandes centros econômicos do país e acelerando o escoamento da principal riqueza da época: o café.
Pressão do café trouxe o trem
A ferrovia não chegou por acaso. Ela foi resultado de forte pressão do setor cafeeiro, que concentrava grande poder econômico e político no século XIX. Os produtores queriam rapidez no transporte dos grãos até os portos, especialmente o do Rio de Janeiro.
O peso da produção era tão grande que, naquele período, cerca de 60% da malha ferroviária de Minas Gerais estava concentrada na Zona da Mata, evidenciando a importância estratégica da região no ciclo do café. Os dados estão presentes no livro “Formação e Ordenamento Territorial de Juiz de Fora”, do professor e pesquisador da UFJF, Pedro Machado
Juiz de Fora, já despontando como polo industrial e comercial, tornou-se ponto-chave dessa engrenagem logística.
A primeira estação e a “treta” histórica
A primeira estação ferroviária de Juiz de Fora foi instalada onde hoje fica a estação em frente ao Museu Mariano Procópio. Na época, ela se chamava Estação Rio Novo — nome alterado em 1881 para Estação Mariano Procópio.
A escolha do local, porém, gerou polêmica. A região era considerada distante do Centro urbano, o que desagradou parte da elite política da época. O episódio também ficou marcado pela rivalidade entre Halfeld e Mariano Procópio, dois dos principais personagens da história da cidade, que definitivamente não se davam bem.
Incomodados, políticos juiz-foranos chegaram a enviar ofício ao Ministério da Agricultura, pedindo a construção de uma estação no Centro. O pedido até seria atendido, mas só quase 30 anos depois — uma história que rende outro capítulo à parte.
Do transporte de passageiros ao minério
Pelos trilhos que cortam Juiz de Fora, passaram não apenas cargas, mas também pessoas. Um dos símbolos desse período foi o trem de passageiros conhecido como “Xangai”, que marcou gerações e ajudou a integrar cidades da região.
Com o passar das décadas, o papel da ferrovia mudou. Hoje, a malha ferroviária que atravessa Juiz de Fora é concedida à MRS Logística, sendo utilizada principalmente para o transporte de minério, e não mais de passageiros.
Mesmo assim, os trilhos seguem presentes no cotidiano da cidade — seja como infraestrutura logística, seja como elemento permanente do debate urbano.