Tribuna de Minas

Midiatização e plataformização: Entenda fenômenos que afetarão as Eleições 2026

(Foto: Arquivo pessoal)
Esta entrevista integra a série Perspectiva 2026, da Tribuna, que analisa os principais desafios e transformações que devem impactar as Eleições de 2026. Em reportagem especial publicada pelo jornal, especialistas de diferentes áreas alertaram para o avanço do uso de novas tecnologias no processo eleitoral, com destaque para a Inteligência Artificial, a disseminação de desinformação e os riscos de manipulação de conteúdo no ambiente digital.
Ao mesmo tempo em que crescem as preocupações com deepfakes, áudios adulterados e estratégias de influência algorítmica, os entrevistados também apontam caminhos para o uso responsável das tecnologias, capazes de ampliar o acesso à informação e contribuir para escolhas mais conscientes por parte do eleitorado. Nesta matéria, a Tribuna apresenta, na íntegra, a entrevista com o doutor em Ciência Política (IUPERJ) e Pós-Doutor em Comunicação Social (UFJF), Luiz Ademir de Oliveira, que faz uma análise sobre o contexto das novas tecnologias nas Eleições de 2026.
Confira a entrevista completa:
Tribuna: Quais transformações no ambiente digital dos últimos anos devem ter maior impacto na forma como as campanhas políticas vão operar em 2026?
Luiz Ademir: Estamos imersos hoje numa nova ambiência midiática, marcada pela confluência entre as mídias massivas (como TV, rádio, jornais) e as plataformas digitais, que implicam em novos hábitos de consumo. Fala-se muito hoje em dois fenômenos que são complementares – a midiatização (as pessoas estão conectadas quase 24 horas do dia – em conteúdos informativos, troca de mensagens, entretenimento, o que faz com que a qualquer hora do dia possam receber e compartilhar mensagens) e a plataformização (há uma sociedade que é regida hoje por plataformas de conteúdos, aplicativos, redes sociais que estão vinculadas a grandes grupos econômicos – as big techs). Isso tem impactado a vida social, econômica, cultural e, principalmente, o universo da política.
No caso do Brasil, desde 2016, nas eleições municipais, a TV e o rádio perderam espaço com a redução dos programas do Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE), que era o espaço hegemônico das disputas majoritárias (presidência, governos de estado e prefeituras de cidades de médio e grande porte). Com isso, já em 2016, vimos o uso mais estratégico das redes sociais e a vitória de candidatos que tinham menos de 10 segundos no Horário Eleitoral da TV. Para citar um exemplo, foi o caso do empresário Alexandre Kalil, que saiu vitorioso em Belo Horizonte. As eleições de 2018 são consideradas um marco em termos de uso das plataformas digitais com a vitória de Jair Bolsonaro, por um partido nanico, o PSL, que na época, tinha apenas 8 segundos no HGPE. O uso de redes sociais, como o Twittter, e disparo de mensagens por grupos de WhatsApp foram importantes para definir a vitória de Bolsonaro. Em seu governo, o então presidente atacou as instituições como a imprensa, o judiciário e recorreu às redes sociais para se manter ligado ao eleitorado, com as lives semanais no Facebook e Youtube e o Twitter como canal quase oficial de anúncio de medidas do seu governo. 
No entanto, ainda que as plataformas digitais tenham se tornado tão cruciais na vida dos indivíduos e na política, é preciso enfatizar que a sociedade do século XXI não é tão diferente em termos de valores e práticas da sociedade do século XX. Na política, temos como exemplo o poder do chamado Centrão no Congresso, grupo que agrega mais de 250 parlamentares que são suprapartidários e fazem da política um balcão de negócios. Pressionam o governo para obter emendas, cargos e favorecimentos. Isso é uma prática da política mais tradicional e oligárquica, que tem a ver com a criação do Centrão em 1987 durante a Constituinte justamente para garantir privilégios para grupos políticos. A maior parte dos políticos do Centrão não têm como estratégias eleitorais as redes sociais e plataformas digitais. Vencem, geralmente, em seus redutos eleitorais, na política de barganha. Mandam emendas e garantem apoio de prefeitos e lideranças. Então, vivemos a era da cultura digital, mas ainda fortemente marcada por práticas da velha política no sentido menos republicano, que é a política da troca de favores e do clientelismo. Isso se mantém e hoje Hugo Motta (presidente da Câmara dos Deputados) tem um poder por ser a figura que lidera o Centrão no Congresso. Outra questão diz respeito ao fato de que as mídias convencionais não deixaram de ter importância. A imprensa ainda tem um papel fundamental na garantia da democracia, no agendamento de temas importantes e até como referencial de mundo para os indivíduos que necessitam de informações para se situar e poderem tomar decisões. Podemos dizer que hoje há uma confluência entre as mídias convencionais e as plataformas digitais, que tornou a vida mais acelerada, com a possibilidade de maior interação. Hoje, o indivíduo recebe, mas produz e compartilha conteúdos. Mas estamos de fato diante de um mundo e de uma sociedade diferente? Os dados e estudos apontam que avançamos muito em termos de tecnologia, mas os nossos dilemas existenciais, as desigualdades sociais, as disputas de poder e a busca pela sobrevivência em tempos da lógica cada vez mais produtivista revelam que somos uma sociedade tão incivilizada quanto às dos séculos anteriores. Dados de feminicídio, de violência no campo, de ataques às minorias mostram que somos ainda muito intolerantes e vivenciamos a democracia de forma pouco participativa. 
Respondendo finalmente à questão – as eleições de 2026 terão um uso mais intenso e estratégico das plataformas digitais, em termos de mais formatos e mídias (Instagram, Facebook, YouTube, WhatsApp, Twitter e até Linkedin). Mas as mídias convencionais, hoje em diferentes plataformas, também terão o seu papel no agendamento de temas e na construção dos cenários políticos e eleitorais. Isso, principalmente, se olharmos as disputas majoritárias, como presidência da República, governos de estado. A diferença, inclusive, é que a disputa já foi antecipada e teremos ainda longos 10 meses de campanha eleitoral. Hoje, os pré-candidatos já estão na disputa por visibilidade e apoio nas redes e nas mídias convencionais, como Lula e os candidatos anunciados da direita – Zema, Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr. Mas nas eleições proporcionais, apesar dos candidatos influenciadores digitais, como Nikolas Ferreira (PL) e Erika Hilton (PSOL), as principais figuras da política tradicional ainda serão eleitas por métodos tradicionais de fazer campanha. O capital político é conquistado na distribuição de emendas, por exemplo, o que tem sido feito ao longo dos mandatos, o que significa que a maior parte dos deputados vão se reeleger. 
Tribuna: Além da desinformação que já vem sendo tema desde as últimas eleições, o que o senhor espera de novo ou mais desafiador para 2026?
Luiz Ademir: Com a proliferação de circuitos informativos e convencionais, que não passam pelos filtros tradicionais, há de fato muitas possibilidades de criação de novos espaços de fala, para vozes que não têm espaço nos meios tradicionais, comprovados aí pelo crescimento do poder dos influenciadores digitais. O fato de os indivíduos terem hoje o poder de produzir e compartilhar conteúdos faz com que os campos sociais percam certa influência. Mas se isso aponta para um lado democratizante das mídias digitais, há os aspectos negativos. Entre eles a desinformação como estratégia de poder político, econômico e cultural. Mas não pode ser reduzida a um simples ato de reproduzir conteúdos falsos. A pesquisadora Raquel Recuero, que hoje tem muitos trabalhos voltados para entender a ambiência digital, afirma que a desinformação precisa ser entendida em três dimensões: a coisa ou o fato (uma mensagem falsa ou um vídeo – deepfake que é compartilhado), o processo (geralmente, são estratégias de grupos de poder que se articulam para atuar de forma recorrente e sistêmica) e os efeitos (geram impacto porque o indivíduo, na rapidez com que lida com as mensagens, acaba recebendo e compartilhando estes conteúdos sem uma reflexão crítica). Tal compreensão ajuda a entender e a criar cenários que são desafiadores para 2026. Sem dúvida, teremos a desinformação como um sistema organizado e estratégico, o que demandará muito esforço de quem tem a tarefa de garantir eleições idôneas e republicanas (como o Judiciário e o próprio sistema político, bem como a sociedade civil organizada). E cabe ao indivíduo, eleitor, ter uma visão mais responsável de suas decisões, seja no âmbito do cotidiano, como da política. Escolhas mal feitas, reprodução de conteúdos sem um filtro mais crítico podem significar retrocessos, perda de direitos e a abertura para que líderes nocivos ao ambiente democrático possam ser eleitos. Os resultados das eleições de 2026, que não são animadores em relação ao velho (oligarquias) e ao novo (influenciadores pouco ligados aos ideais republicanos), depende do que faremos nestes 10 meses que nos restam para tentarmos nos reposicionar de maneira mais cidadã, reflexiva e crítica, até para que possamos colher frutos melhores do que temos vivenciado.
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