Tribuna de Minas

‘Não vale a pena trocar o mito da sexualizada pelo mito de empoderada’, afirma Mary Del Priore sobre Chica da Silva

Em ‘Meu nome é Francisca’, Mary Del Priore revisita a trajetória de Chica da Silva por meio de uma narrativa em primeira pessoa, sustentada por pesquisa documental e escrita literária, e propõe uma leitura que busca desmistificar a imagem construída pelo audiovisual (Foto: Pense D/Divulgação)
Para contar uma história, Mary Del Priore diz que mergulha de cabeça em cada detalhe. Importante destacar que ela se caracteriza como uma leitora voraz. Vai atrás de documentos e de tudo o que já escreveram a respeito do tema ou do personagem sobre o qual ela se debruçará. Por exemplo: quando se dedicava ao livro “Meu nome é Francisca: uma história de Chica da Silva” (José Olympio, 112 páginas), chegou a ligar para um ornitólogo mineiro, pois queria saber que tipo de passarinho cantava em Diamantina, naqueles idos do século XVIII, época em que essa mulher negra alforriada se tornou uma das figuras femininas mais ricas do Brasil.
Como historiadora, Mary lida, portanto, com fatos históricos. No entanto, quem já leu alguns de seus títulos sabe que sua escrita flerta com a literatura, fugindo daquele estilo que, normalmente, está presente em obras tradicionais sobre a História do Brasil. Sua alegria, ela confidencia, é produzir para um grande público. “Os meus livros cheiram a prazer de escrever”, comenta a também professora, quando questionei por que optou pela narração em primeira pessoa ao revisitar a trajetória de Chica da Silva.
Quem é, afinal, a Chica da Silva que Mary nos apresenta? “Meu nome é Francisca. Não se sabe quando vim ao mundo. Um dia qualquer entre 1731 e 1735, no arraial do Milho Verde.” A autora afirma que, nessa obra, a proposta é desmistificar a imagem polêmica de Chica da Silva que ficou eternizada no imaginário brasileiro, afastando-se da figura folclórica ou sexualizada construída pelo audiovisual. Ao conduzir a narrativa, a protagonista nos conta sobre sua infância, a maneira como ela e outras mulheres negras viveram como donas de casa, o cuidado delas com os filhos, o fato de constituírem o segundo grupo mais rico da região e a dedicação aos companheiros em relações que não tinham o consentimento da Igreja Católica. Em nossa conversa, na última segunda-feira, Mary fez questão de enfatizar que não existiu apenas uma Francisca, mas várias. E, segundo ela, “são essas Franciscas, tais como a nossa Chica da Silva, que, de alguma maneira, são as matrizes do Brasil, daquilo que nós somos hoje.”
Marisa Loures – Quem é a Chica da Silva que seu livro nos apresenta?
Mary Del Priore –É a Francisca da Silva. Por isso que eu digo “Meu nome é Francisca”. Eu gostaria aqui de destacar o meu querido amigo e ex-aluno Eduardo Paiva e a Júnia Furtado, pois os dois foram os primeiros a tratar dessa classe de mulheres que têm uma mobilidade social, que têm uma vida estável com um companheiro, que não é necessariamente afromestiço ou preto, que criam os seus filhos. E eu digo sempre que essas crianças são criadas com muito carinho, elas não são absolutamente uma exceção. Nós vamos ver que, ao longo do século XIX, esses filhos vão ser as grandes figuras do mundo do direito, do mundo da medicina, do mundo do jornalismo. Serão os pardos que estarão à volta de Dom Pedro I, de Dom Pedro II. Então, são essas Franciscas, tais como a nossa Chica da Silva, que, de alguma maneira, são as matrizes do Brasil, daquilo que nós somos hoje. Agora, tudo foi cuidadosamente recuperado através de documentos. Eu tenho sempre muito cuidado em citar bibliografia ao final dos meus livros. E, no caso desse livro em particular, no final, no momento em que ela morre, ela conta: “eu conto a minha história, como na África se contavam as histórias à volta do fogo, mas é graças aos historiadores que já contaram essa história.” Então, eu faço questão de reverenciar, de agradecer essa pesquisa grande que os historiadores fazem e que me permitiu embasar não só o cotidiano da Chica, a questão da indumentária dela, das doações que ela fazia para as irmandades religiosas, da sua participação nas irmandades. Uma coisa também que os historiadores estão descobrindo é como os filhos dessas relações eram protegidos por padrinhos, que é o caso dos filhos da Chica. Quem vai ser o padrinho da primeira filha é o primeiro dono dela, que é amicíssimo do contratador (fidalgo português e contratador de diamantes que atuou no Arraial do Tijuco, no século XVIII, e viveu em concubinato com Chica da Silva), é médico. Hoje, os historiadores estão estudando como essas relações, essas verdadeiras redes de auxílio que se formam ou verticalmente, sempre contando com pessoas da elite, que tanto podiam ser ex-senhores, como podiam ser párocos, como podiam ser professores, o que seja, como horizontalmente, no caso ainda de escravizados. São escravos que já conseguiram sua liberdade, ou já estão fora da senzala, ou têm um ofício que pode ajudar, ou é da mesma etnia. Então, essas relações são extraordinariamente complexas, interessantes, fluidas, como eu mostro o tempo todo. Elas trazem a África para o Brasil, mas aqui elas se constroem não naquele viés do vitimismo, que foi tão explorado pela Sociologia dos anos 60, gente que simplesmente descontextualizou a famosa frase do Gilberto Freyre, que, aliás, tinha muito bom humor ao descrever as coisas. Então, esta frase dele de que os senhorzinhos ficavam transando com as escravas na senzala, isso seria impossível. Primeiro porque hoje também a historiografia já demonstrou que os senhores trabalhavam de sol a sol, no mais das vezes, ao lado dos escravos. O trabalho da Maria Sylvia de Carvalho Franco sobre isso não deixa negar. Ninguém tinha tempo para ficar na senzala fazendo arte. E, mais do que isso, muito mais importante, as famílias escravas se organizavam dentro das senzalas até quatro gerações. Isso que é muito impressionante. Então, o papel da família é tão importante para a verdadeira Francisca, para a Chica, quanto para o contratador. Eles estão ali para fazer filhos, viviam sob a égide da Igreja Católica, que disse “crescei e multiplicai-vos”, né? Eles estão cumprindo esse roteiro com maior seriedade, fazendo doações, sendo padrinhos de nascimento, de casamento, enterrando os seus escravos. E ela tendo, óbvio, uma mobilidade exponencial. Ele foi um dos homens mais ricos do Brasil e, quiçá, de Portugal nessa época.
– Mas a imagem cristalizada pelo audiovisual é totalmente fantasiosa?
– Trabalhei muito com o dicionário da Yeda Pessoa de Castro, nossa maior linguista, a maior conhecedora de falares africanos. E, quando você vai para esse dicionário, inclusive com palavras que ela coletou em Minas Gerais do século XVIII, o que se vê é o encontro, primeiro, de uma tradição africana na qual virgindade, casamento, nada disso teria a menor importância. As posições sexuais que são exigidas pelo Concílio de Trento não teriam o menor impacto na África nesses anos, séculos XVI, XVII e XVIII. Quer dizer, havia lá um viver em família totalmente diverso. E eu lembro que as pessoas gostam muito de esquecer, ou simplesmente não conhecem, o papel do patriarcado africano, polígamo, a favor da infibulação, patriarcado extremamente vertical. Então, isso vem para o Brasil com essas imigrações forçadas, e aqui as mulheres absolutamente não viveriam dentro das amarras que a Igreja Católica vai impor para os seus acólitos. Era proibido, por exemplo, a mulher em cima do homem. Era proibido mulher de quatro, porque animalizava um ato que Deus criou para multiplicar os cristãos. Era proibido beijo, eram proibidos os chamados tocamentos torpes. Então, é de se imaginar, conheço bem porque trabalhei muito sobre história da sexualidade e tudo mais, que essa moça, filha de uma africana, com todo esse aporte africano ali na vida dela, que já tinha vivido anteriormente com um homem bem mais velho, junto com a sua amiguinha, pois as duas ali eram amantes dele, e ele é processado por bigamia, então uma fluidez, uma liberdade que uma mulher católica, que teria que confessar uma vez por mês ou uma vez por semana, não teria. Então, tem essa tradição, sem dúvida nenhuma. E a gente vê isso pelo número de filhos que eles têm, são 13 filhos em 15 anos, e ela já chega com um filho. Eu acho que havia não esse erotismo que a televisão e o cinema passaram, e que é muito inspirado pelos anos de abertura dos anos 80, a revolução sexual, a pílula, porque são obras dessa época, né? Que falavam do quê? Da liberação da mulher, viva o orgasmo, palavras que nem existiam antes no jornalismo. Então, tudo isso permitiu, nesse momento, a criação desse mito, dessa mulher incandescente, dessa mulher em fogo, quando ela não passava de uma excelente mãe de família, uma mulher que deve ter gozado de todo o afeto do seu companheiro e que lhe deu afeto também. Um casal feliz.
– A trajetória de Chica da Silva reúne acontecimentos impensáveis para os padrões do Brasil Colônia. É possível afirmar que o amor foi o motor dessa transformação?
– Se você quiser olhar o amor romântico do século XIX, ou o que era amor, pega aí o Gregório de Matos, final do século XVII, início do XVIII, em que nós temos tantos poemas de amor. Quer dizer, se nós olharmos um pouco a poesia colonial, é um amor de adoração da mulher. Não é um amor que passa, digamos, por um desempenho sexual extraordinário. É um amor de valorização da mulher, em que a mulher é comparada a uma pombinha, pombinhas que se bicam. Tem uma poesia do Gregório de Matos mais ou menos nesse sentido. Quer dizer, a mulher era envolvida num sentimento que não tem nada a ver com o amor paixão, o amor sexualizado, que é o nosso hoje. Se a mulher não goza dez vezes, ela não se sente amada. Então, o que eu vou te dizer? É diferente. Quer dizer, aquilo que nós hoje entendemos como amor e que envolve o contato físico, que envolve a satisfação sexual, naquela época, isso tudo era dito e era traduzido de outra maneira. Não que não houvesse contato sexual. É óbvio que havia, né? Eu mesma trabalhei, e outros tantos historiadores, com centenas de processos de sedução de jovens, de meninas que queriam se casar. Por que nós temos esta expressão “vá se queixar ao bispo”? Muitas delas, espertamente, se deixavam seduzir, porque elas se queixavam, ele corria atrás, mandava os seus soldados atrás do amante fujão. Era outra forma de dizer o amor, né? O que eu acho é que havia afeto, sim, sem dúvida nenhuma, porque realmente ele a cobre de presentes, ele garante a estabilidade dos filhos. É aí que eu acho que nós podemos comprovar o afeto, o carinho que esse homem tem por essa mulher. Ele não vai embora a caminho de Portugal, ele vai fazer o testamento dele, ele vai deixar tudo organizado para ela. Quer dizer, ele tem essa preocupação de dar estabilidade para a família dele. Então, como é que nós chamaríamos isso? Eu chamaria de um afeto profundo, de um compromisso profundo e de um homem que admirava enormemente a sua companheira.
– O livro mostra que Chica da Silva se orgulhava de possuir centenas de escravizados, entendendo isso como um marcador de status social. Trata-se de uma contradição evidente para uma mulher negra que também foi escravizada. Como compreender essa lógica dentro do contexto da época? Há registros de como os escravizados viam essa posição ocupada por ela?
Capa do livro ‘Meu nome é Francisca’ (Foto: Divulgação)
– Acho que da maneira mais natural do mundo. Você teve reinos importantíssimos na África, onde mulheres negras como a Chica tiveram seus escravizados. E, no Brasil, a primeira coisa que qualquer alforriado fazia era comprar um escravo. Isso está em todos os documentos que todos nós historiadores cansamos de manusear. Houve ex-escravizados que ganharam a vida e enriqueceram na Bahia fazendo o quê? Tráfico de escravos. Então, o sistema da escravidão era um sistema que estava incorporado na mentalidade dessas pessoas. Ela não tinha nenhum pudor de ter escravos, muito pelo contrário, aquilo era um bem, aquilo era um patrimônio, quase 600 escravos, diz a Júnia Furtado, além das propriedades, além das joias, além das fazendas. E ela só alforria a filha da ama de leite dos filhos dela. Ela cumpre todo o código da boa católica. Ela batiza os filhos dos escravizados, ela casa os escravizados, e, quando eles estão doentes, manda dar extrema-unção, pergunta se eles querem morrer com ritos africanos ou dentro do catolicismo. Então, ela cumpre essa fluidez de comportamentos. Isso é uma característica dessa sociedade profundamente mestiçada, tanto biológica quanto culturalmente.
– Sem apagar essas tensões todas, a gente pode dizer que essa personagem pode ser lida como um símbolo de emancipação feminina negra?
– Eu não diria isso. Eu sou historiadora, eu não gosto de colar questões que hoje são importantes para a gente no passado, dizendo que aquela personagem pensaria de tal maneira. Ela é simplesmente uma mulher que fica rica. E outras mulheres pretas vão ficar muito ricas nessa época. Os trabalhos do Eduardo Paiva mostram que o segundo grupo mais rico nas Minas Gerais era o das mulheres pretas forras, porque elas sabiam fazer comércio, elas tinham tendas, tinham pequenas indústrias de tecelagem, elas vão fazer importação de produtos tanto de Portugal quanto da África para vender. São mulheres muito poderosas. São mulheres guerreiras, bem realizadas, que sabem construir a sua liberdade, com conforto financeiro. Agora, imaginar a Chica, digamos, como uma espécie de pré-feminista, acho que estava muito longe das ocupações dela. Ela é uma mãe dedicadíssima aos filhos, dedicada à casa, ao lar, aos negócios que ela faz. Ela aprende a escrever. E ela, como boa filha de africanos, e isso eu já falei em vários outros livros, eu lembro sempre que as africanas aprendem a contar e a fazer troca e compra e venda desde muito cedo. Nas famílias polígamas, que são as famílias todas até hoje em vários países africanos, a poligamia sobrevive, apesar de proibida, a mulher que melhor sabe aplicar o seu dinheiro é a mais valorizada, comprando e vendendo produtos agrícolas, aves, ovos, o que for. Quer dizer, ela sabia, ela deve ter herdado essa capacidade que existe até hoje, que é extremamente valorizada na África, a capacidade de fazer negócios. Ela devia ter isto, eu não sei, eu não achei nenhum documento falando disso especificamente, mas nós sabemos que essa é uma tradição africana que vem para o Brasil e que vai dar nas chamadas sinhás pretas, donas de joias, donas de escravos, fundadoras de casas de santo, bem-casadas, ou vivendo sozinhas, porque já conheciam, na tradição poligâmica, a dificuldade que aquelas várias mulheres teriam de agradar um único homem. Então, muitas escolhem viver sozinhas, com os seus escravos. Só entrava menino pequeno ou velho, não entrava um homem em idade, por assim dizer, madura. Elas queriam viver longe dos homens. Então, há trabalhos também de historiadores sobre isso. Eu acho que não vale a pena trocar o mito da sexualizada pelo mito de empoderada. Isso não deveria nem ocorrer a ela. Mas tinha ali, e os trabalhos dos historiadores mineiros comprovam isso, tinha outras mulheres pretas que eram ricas também. Tinha uma lá que tinha um altar em casa, que era uma coisa dificílima de se obter. E eu cito no livro vários casos de casais ou de mulheres que têm seus escravos, que exploram as suas datas, as suas minas de diamante. Houve uma mobilidade social muito grande em Minas Gerais nessa época.
– E, assim como em outros livros seus, “Em meu nome é Francisca”, você opta pela narração em primeira pessoa. O que essa voz narrativa permite revelar?
– Acho que, primeiro, é uma voz narrativa que escapa de todas, digamos, aquelas armadilhas universitárias de conceitos e de métodos que acabam afastando o leitor da História do Brasil. Marisa, quando saí da USP (Universidade de São Paulo), e saí por livre e espontânea vontade, para escrever para um grande público, isso foi um projeto de vida. É o que eu faço até hoje e adoro fazer. Os meus livros cheiram a prazer de escrever. Eu adoro o que eu faço. Agora, o que eu fiz? Eu já tinha usado essa primeira pessoa no livro anterior. Isso é uma coleção, é importante que se diga. O primeiro foi sobre a Tarsila, o segundo foi sobre a rainha Maria da Glória, filha de Dom Pedro, que nasce no Brasil e depois vai para Portugal. Nele, faço a voz de uma criança que conta o sofrimento da mãe. Ficou um livro muito bonito. Esse é o drama hoje de milhares de crianças que veem as mães sofrendo, né? Porque são abandonadas pelo marido, porque não têm condições de reagir, porque sofrem, porque ficam doentes. E, no caso da Chica, eu quis dar uma voz usando justamente essa coisa maravilhosa que são hoje os trabalhos de pessoas como a Yeda Pessoa de Castro, que está com 92 anos, e do Galindo, que publicou o pequeno dicionário também de falares africanos. Quer dizer, para você dar carne e sangue a um personagem, você realmente tem que mergulhar no falar da época, no contexto, nas casas. E isso também eu conheço bem porque, durante muito tempo, trabalhei com vida privada, trabalhei com intimidade, construção da intimidade. Então, eu quis colocar a Chica viva lá em Diamantina, né? E tirá-la da tela, tirá-la da novela, colocá-la viva e mostrar que Franciscas foram muitas mulheres não só em Minas. Mulheres que tiveram relações estabilíssimas com os seus companheiros, tiveram filhos. E isso foi uma novidade que eu fiz questão de sublinhar no livro. A gente que é historiador trabalha com testamento e inventário e vê que os pais raramente morriam sem deixar alguma coisa para os filhos, sem se preocupar com o futuro dos filhos. O contratador não foi uma figurinha fora da caixa. Você tem testamentos e testamentos que cobrem o Brasil colonial inteiro mostrando que os pais se sentiam responsáveis pelos filhos que tinham tido nessas ligações. Então, a gente introduz aí também o papel desse homem, que é pintado de botas, abaixando as calças e fazendo qualquer coisa. Não! Os caras estavam lá, havia relações extraordinariamente estáveis. Então, muitas mulheres tiveram, sim, conforto financeiro, independência, filhos. Com a fortuna da Chica, eram raras, é lógico, né?  Também há uma bobageira sobre as mulheres: “Ah, elas matavam as crianças”. Não. As pessoas não conhecem nada de antropologia africana. É impossível, porque o filho é a encarnação do antepassado. Se você matar seu filho, você está matando seu pai, sua mãe, seu tio, seu irmão, alguém que já morreu. Não pode. A valorização da família é enorme na África. O papel da mulher na África é ter filhos. Dentro do casamento poligâmico, é ter filhos, porque, quanto mais filhos você tem, mais forte você é dentro daquela estrutura poligâmica. Uma mulher estéril pode ser abandonada, pode ser mandada embora. Nos olhares entre reis europeus, mulher estéril era devolvida para casa de onde veio. Então, a esterilidade é um estigma, é uma maldição e, portanto, essas mulheres, tendo filhos, se aliando com os filhos, isso que é muito importante. A Chica vai cuidar do casamento dos filhos dela. Ela vai tentar casar os filhos dela da melhor maneira possível, vai fazê-los frequentar não só as boas escolas – os meninos vão todos estudar em Portugal, as meninas vão para as Macaúbas (Mosteiro)-, mas vão fazê-las frequentar também as irmandades religiosas, que eram lugares de muito poder. Havia irmandades africanas, e divididas por etnia, viu? De Congo, de Malê, por exemplo. A Chica não só frequenta as irmandades brancas, como depois os filhos vão frequentar as irmandades de pardos e todos eles vão ficar muito bem situados. Então, é uma forma de poder dessa sociedade, que é uma sociedade extremamente fluida, mas que garantia a duração das relações, garantia os laços familiares, garantia os filhos reconhecidos, garantia acumulação de bens para essas mulheres e a mobilidade social possível, ainda que desigual. É óbvio que não serão tantas sinhás pretas quanto foram as brancas, mas elas puderam fazer isso, sim. E essa ideia de que eram todas estupradas, que é realmente uma maneira, primeiro, de diminuir o protagonismo das mulheres. É um absurdo, né? Porque aí a mulher ex-escravizada parece que não tem agência, não tem cálculo, não tem escolha, não tem projeto, não tem desejo, não tem futuro. Isso é uma bobagem. E eu acho que agora nada disso mais pode ser apagado, porque os documentos estão aí, os trabalhos estão aí. E o que eu aprendi nesses anos todos, eu estou há 30 anos escrevendo, é que essas mulheres negociavam as suas relações, eram capazes de recusar parceiros, sobretudo quando elas têm autonomia, elas mantêm as uniões estáveis, elas herdam, elas empreendem e elas circulam socialmente. Agora, é o poder da época. Hoje, provavelmente, a mulher que tem poder quer ir morar em Miami. Mas é uma coisa diferente. Era o poder possível, uma vez que era proibido o casamento perante a Igreja, que rapidamente se dilui nas segundas gerações. Rapidamente isso acaba nas segundas gerações. Aí as pessoas embranquecem, entendeu? Mas não é esse embranquecimento ideológico que serve para negar a identidade negra. Nada disso. Isso são estratégias, estratégias bem pensadas de inserção. Negar isso é negar a maioria da população brasileira. Então, são estratégias.
– Você já comentou sobre sua opção por uma escrita mais literária. Como você equilibra esse estilo narrativo com o rigor historiográfico, de modo a assegurar ao leitor que a narrativa permanece fiel aos fatos?
–Minha preocupação é sempre publicar fontes e publicar a origem da documentação, citar os colegas. Tenho muito orgulho dos meus colegas, sabe? Eu acho a carreira do historiador muito sofrida, muito pouco reconhecida. Os alunos não querem mais aprender História, o professor de História sofre, o professor de História de faculdade está cada vez mais esquecido. Então, tenho muito orgulho. Agora, acho que essa minha maneira de escrever vem muito do fato de que sou uma leitora que não para. Por exemplo, eu tenho que escrever um livro, situá-lo no século XIX, eu pego aquele recorte, vou ler tudo, ler autores que escrevem nessa época. Isso vai me familiarizar com a linguagem da época. Por isso que eu fiz questão de usar os falares africanos, porque eu estava falando da filha de uma africana, né? Então, foi uma maneira de eu valorizar a língua, valorizar os costumes, valorizar a presença africana aqui nesse momento. Mas eu, se eu tenho que pegar qualquer personagem, realmente mergulho de cabeça. E eu sou uma leitora voraz. E eu acho que aquela música do texto é alguma coisa que acaba ficando na minha cabeça, porque eu acho que, quanto mais a gente lê, mais a gente escreve. É um casamento. O que que acontece hoje? Você não pode usar determinadas palavras, as pessoas não sabem mais o que você está falando. Você tem que controlar o seu vocabulário, você tem que ir direto ao fato, você tem que fazer uma frase com sujeito, verbo e objeto. Não tem mais o prazer de você convidar o leitor a ver o que você está vendo, a cheirar o que você está cheirando, ouvir. E tem um detalhe interessante: você sabe que esse livro, originalmente, essa coleção era para ser um audiobook, um audiolivro. E eu tive o cuidado de ligar para um ornitólogo mineiro para ele me dizer que tipo de passarinho cantava aí nessa região de Minas, que podia ser um passarinho diferente que canta em Belo Horizonte, ou onde você mora e eu moro, porque nós estamos aqui muito pertinho uma da outra. Eu queria que esses sons todos estivessem no livro, que o som da água correndo no rio estivesse no livro, sabe? Eu queria isso para esse audiobook. O audiobook saiu, você sabe que ainda é uma coisa que não pegou aqui no Brasil, mas o pessoal da José Olympio viu o texto e quis publicar. Então, esse é um livro que tem esses cuidados. Mas, por trás desses cuidados, tem alguém que gosta de ter cuidados. Eu gosto, entendeu? Eu, se eu pudesse, iria até ver as temperaturas no inverno, no verão de Diamantina no passado, porque acho que isso é que permite ao leitor entrar no livro.
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