Tribuna de Minas

Rascunho passado a limpo

Ao revisar um texto, observamos sua coesão e a coerência, percebemos a falta de conectivos, de lógica, de harmonia. (FOTO: Pexels/Mart Production)
“Chega um tempo da vida em que nós passamos a rever nossas ilusões e esperanças.” Ouvi essa frase vinda de alguém que, atrás de mim, também esperava pela vez de usar o caixa eletrônico. Comecei, então, a pensar sobre o que essa afirmação significava e concordei com a desconhecida que a havia dito. 
É verdade: chega uma hora em que, mesmo sem querer, sem ainda estarmos prontos, fazemos uma releitura da própria história. É quase uma imposição silenciosa, como se a vida exigisse uma mudança de trilho para continuar seguindo em frente, deixando para trás pesos desnecessários. 
Esse momento de clarividência, quase que um chamado interno, costuma surgir depois de um largo período de turbulência. Passar por essa autoavaliação tem seus dissabores. Não é simples vivenciar essa fase enquanto o cotidiano nos chama à realidade e tentamos, ao mesmo tempo, organizar nosso caos interno. 
Perceber as ilusões perdidas também não é confortável. Isso traz decepção, sofrimento e um sentimento de culpa por ter optado por certos caminhos e não outros. Às vezes, tomamos uma decisão inicial que parece certeira, capaz de nos fazer pensar que existe, enfim, uma luz no fim do túnel. 
Em outras ocasiões, as escolhas são feitas de modo impensado, porque parecem ser o único caminho a seguir. O certo é que cada decisão limita nossas possibilidades e carrega nossa vida para um lado até que chega o momento de uma releitura, de medir prós e contras, e assim, talvez, recomeçar de uma maneira diferente. 
Esse processo de se enxergar é doloroso, mas é necessário. Deveria servir para que nos tornemos melhores para nós mesmos e para os outros. Ao menos, é isso que se espera. Essa reflexão me levou a pensar que revisar a vida se assemelha muito ao ato de revisar um texto.
Ao revisar um texto, observamos sua coesão e a coerência, percebemos a falta de conectivos, de lógica, de harmonia.  Buscamos as conjunções adequadas, os pronomes mais precisos, tentando ligar melhor as frases e evitar repetições ou contradições que enfraquecem o sentido.
Revisar a própria história é quase o mesmo exercício. Lembrei-me, então, do livro de Carlos Drummond de Andrade, “A vida passada a limpo”. Nele, o poeta não apenas relata episódios vividos, mas tenta compreendê-los, removendo as manchas deixadas por uma existência por vezes caótica. 
Assim como nos textos, na vida também precisamos limpar os excessos, contradições e aquilo que já não nos representa, para que tudo fique mais enxuto, mais coerente com o que desejamos ser, depois que o rascunho, enfim, é passado a limpo.
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