Tem CEP que é condenação

O local onde se nasce e vive muitas vezes define o peso do nome, a forma como se é visto e até o valor que a vida parece ter. (Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)
Nesta semana, pudemos comprovar, por meio dos noticiários, que, no Brasil, o CEP também é uma condenação. O local onde se nasce e vive muitas vezes define o peso do nome, a forma como se é visto e até o valor que a vida parece ter. Essa é a realidade de quem vive nas periferias, nas favelas e nas comunidades.
A identificação desses endereços é uma sentença, que acarreta aos seus moradores uma carga de preconceito, uma herança que se renova a cada suspeita, que culmina em uma abordagem forçada; a cada olhar atravessado, a cada manchete que trata a pobreza como criminalidade.
Até o dia em que este texto foi finalizado, 121 era a contagem de pessoas mortas em confrontos com a polícia do Rio de Janeiro. Segundo o balanço oficial, entre as vidas perdidas, estavam 54 corpos de civis, que foram encontrados no dia da ação, e outros 63, que foram achados depois por moradores em uma região de mata do Complexo da Penha. Quatro policiais também morreram na ação, sendo dois militares e dois civis.
O total de mortos assusta e nos leva a pensar que a segurança pública em nosso país precisa ser tratada com responsabilidade, sem servir de palanque eleitoral e muito menos ser enxergada de forma polarizada. A matança deliberada a que assistimos não pode ser considerada como uma forma de justiça, como muitos querem crer, porque não houve direito a julgamento legal. Não há política de segurança que se sustente sem investimento social, discernimento e respeito à vida dos cidadãos.
Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que, nesse cenário de violência, muitos policiais também perdem a vida. São homens e mulheres que, cotidianamente, colocam-se à frente dos confrontos e acabam se tornando vítimas de uma guerra que não escolheram travar. Atrás de cada farda, há uma história interrompida, uma família que sofre, filhos que crescem com a ausência e com a dor. A morte de um policial, que muitas vezes também é oriundo da periferia, também comove e expõe o quanto o Estado falha em proteger quem deveria garantir a segurança de todos.
Também é chocante, e é esse o ponto central desta reflexão de hoje, a facilidade com que parte da sociedade naturaliza uma tragédia. A ausência de empatia que dominou os comentários a respeito do ocorrido no Rio revela uma ferida social aberta: a desumanização de quem vive fora do centro.
Dentro desta semana triste, no último dia 29, comemorou-se o Dia Nacional do Livro. A data quase passou em branco, mas ela é um convite à reflexão sobre essa desvalorização da vida dos mais pobres. A leitura, mais do que um hábito, é uma forma de libertação. Ler é abrir brechas na ignorância, é permitir-se enxergar o outro além dos rótulos. O acesso à informação tem poder para desfazer estigmas e reconstruir olhares, porque quem lê aprende a pensar, e que quem pensa dificilmente aceita a injustiça como destino.
A leitura é, portanto, uma forma de resistência, pois, por meio dela, adquirimos as ferramentas necessárias contra o preconceito, contra o apagamento, contra o silenciamento, contra a condenação imposta aos que nascem e vivem em um lugar que a sociedade insiste em estigmatizar.
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