Paula Vaz: ‘Nenhum corpo é dono de outro corpo’

Paula Vaz, poeta, psicanalista e romancista, lança “Atire a primeira pedra neste coração cansado” (Record), romance de estreia em que investiga o amor, o desejo e as ambiguidades das relações afetivas por meio de uma escrita atravessada pela poesia, pela literatura e pela escuta psicanalítica (Foto: Marcia Charnizon/ Divulgação)
Paula Vaz já havia publicado quatro obras poéticas – “Não se sai de árvore por meio de árvore: ponge-poesia”, “A outra língua: amor”, “Deserto” e “O reino animal da poesia” – quando sentiu que a poesia havia secado. Aí veio a vontade de experimentar um novo formato, um gênero diferente. Resolveu buscar a prosa e escreveu um romance, cujo título, curiosamente, já existia bem antes de o livro nascer. “Atire a primeira pedra neste coração cansado” (Record, 144 páginas) é o novo lançamento e traz uma história sobre amor, ambiguidades, complexidades, paradoxos contidos nas relações afetivas e desejo.
Laura, uma mulher casada de cinquenta anos, tenta superar Mathias, o amante que marcou profundamente sua vida, enquanto revisita o passado em um balanço íntimo de leituras, amores interrompidos e perguntas persistentes. Ela atravessa um casamento morno e paixões intensas, evocando relações que resistem como vestígios do desejo. “Nessa procura do reencontro consigo mesma, se pergunta onde termina seu próprio corpo e onde começa o do outro. E descobre que talvez a maior liberdade seja entregar-se ao amor sem temer as pedras que encontrar no caminho.”
Na construção da narrativa, Paula apostou em um vaivém de lembranças e repetições. São “fragmentos do que ficou dos afetos da Laura, dos detalhes que marcaram o percurso dela”, explica a autora. E, em meio a devaneios e fantasias da personagem, misturam-se referências da literatura, do cinema e da psicanálise.
“Queremos o que o nosso desejo quer. Em ‘Atire a primeira pedra neste coração cansado’, Paula Vaz nos faz olhar para esse lugar que tanto nos fascina e assusta. Nele o desejo nos encosta na parede: – o que você vai fazer comigo? – Não há silêncio possível como resposta”, sentencia Carla Madeira, na orelha da publicação, adiantando, ainda, que o romance dessa poetisa e romancista belo-horizontina nos convida a viver a travessia amorosa de Laura e seus amantes sem julgamento.
“Nós vivemos num mundo em que todo mundo atira pedra em todo mundo. Depois das redes sociais, então, tudo que não é espelho recebe uma pedrada, né? É como se as pessoas só conseguissem viver batendo palmas para suas semelhanças. Então, tocar em temas delicados, é dar um pouco a cara a tapa para as pessoas atirarem pedras. Também, no livro, faço um pouco essa crítica de não ter que explicar nada, de poder simplesmente mostrar as coisas”, afirma Paula, defendendo que a função da arte e da literatura não é dar explicações nem ser pedagógica. “É mostrar uma realidade que existe. Mostrar para o leitor assim: ‘A solidão destas personagens conhece a sua’, como diz Jean Genet. Para que o leitor também não se sinta tão sozinho na sua experiência. Mas é isso mesmo. Tem julgamento, mas também tem absolvição, né? É a vida como ela é. É um pensamento não binário.”
Marisa Loures: Ao longo da obra, você mobiliza diversas referências da literatura e da psicanálise. Poderia nos contar um pouco sobre esse projeto?
Paula Vaz: São referências não só literárias, mas musicais e cinematográficas. Elas chegam no livro não como meras referências, mas são quase personagens, sabe? O que eu quis mostrar, usando muitas referências, foi que a arte, de uma maneira geral, não existe para essa personagem, a Laura, como um mero entretenimento. A arte, para ela, é realmente alguma coisa que a ajuda a viver. Nas horas mais difíceis, nos maiores dilemas, nos momentos de fronteira entre saber ou não saber o que fazer, ela recorria à arte, a um filme que ela viu, a um livro que ela leu, a uma música ouvida, como personagem mesmo, como alguma coisa que fazia companhia nesses momentos difíceis, que ajudava a personagem a viver, a conviver com suas questões, a elaborá-las.
E eu acredito que sejam as suas próprias referências, emprestadas para essa personagem.
Sim. Nessa hora, o livro não, necessariamente, autobiográfico nas histórias, mas ele é nas questões e nas referências. Coloco muitas questões no livro, que são pensamentos da personagem, mas também são pensamentos da autora. Nesse sentido, são referências minhas de vida.
De onde veio a ideia deste livro, que é sua estreia no romance?
Eu já tinha escrito quatro livros, né? Sobre poesia, ou ensaios sobre poesia. E esse tema do amor sempre me perseguiu de alguma forma, mas sempre escrevi com a linguagem da poesia, né? E, depois do quarto livro, senti que eu não conseguia escrever nenhum poema. Eu me sentia um pouco como uma terra um pouco devastada, estava sem palavras para escrever poesia. Então, comecei a escrever num outro formato, um formato um pouco mais linear, narrativo, sobre essa questão do amor. E o livro também foi se formando ao longo da escrita. Nunca sei onde vai terminar a escrita, a única coisa que eu tinha era o título, que é “Atire a primeira pedra neste coração cansado”, que é um título que eu carrego há muitos anos. Desde 2014 que falo que iria escrever um livro com esse título e acabo escrevendo outra coisa. E aí, quando eu senti que a poesia estava seca, que eu estava numa fase em que não conseguia escrever um poema, pensei assim: “agora, vou escrever “Atire a primeira pedra neste coração cansado.” E então foi aí que ele foi nascendo. Depois fui entender por que não escrevi o livro com esse título antes. É que eu achava esse título muito completo. Para mim, ao mesmo tempo, ele era um enigma e uma resposta. Sentia que esse título continha um saber dentro dele, sempre me pedindo para ser clareado, mas eu sentia que, toda vez que eu começava a escrever alguma coisa, ela falava que não era aquilo ainda. É como se o título já fosse quase um livro, já fosse uma frase que continha dentro dela uma significação incrível.
E você acredita que o seu livro traz a resposta para esse enigma?
Eu acho que traz, não uma resposta toda, totalizante, né? Tem sempre alguma coisa de insondável. Mas acho que o livro faz um certo contorno sobre essa questão que traz o título, como se ele colocasse nome para muitas coisas que não tinham nome. Como se ele clareasse mesmo, expandisse o título e fosse dando sentidos possíveis para ele. É um livro que fala de relações, amor e desejo, né? Modos de gozo de cada sujeito. É um livro que fala das complexidades, das ambiguidades, dos paradoxos que contêm as relações. É como se eu quisesse devolver para o mundo a complexidade mesmo de um indivíduo. Queria mostrar que a gente é mais complexo do que a gente queria ser.
O livro apresenta amores que fazem Laura se lembrar de que o desejo não cabe em convenções, mas também não se dobra à promessa de liberdade. Há aí uma contradição clara. Podemos afirmar que “Atire a primeira pedra neste coração cansado” recusa soluções fáceis e sustenta a ideia de que amar implica risco, dependência e atravessamento do outro, algo que nem a regra social nem o discurso da liberdade individual conseguem domesticar?
Acho que sim. A Laura é uma mulher casada de longa data, né? Que vive com desejos esporádicos fora do casamento, e o livro fala de seus amantes, de seus amores. E o livro traz esta questão, né? O que é que se faz quando você tem uma relação sólida, e de amor mesmo, mas, mesmo assim, ao longo de décadas da vida, você realmente tem desejos por outras pessoas. Você vai viver aquilo? Você vai reprimir aquilo? Qual é o preço de viver aquilo? Qual o preço de reprimir aquilo? Tudo tem um preço. É uma questão de escolha. Então, o livro conta como é que ela vai lidar com esses dilemas. Cada um vai lidar de um jeito. Diante de questões-limite, a gente não tem uma resposta pronta. Cada um vai construir sua forma de lidar com essas questões. Em relação a essa questão dos amores clandestinos, contingentes, a gente sabe que a sociedade, de um lado, tem as normas, os tratados, ela estabelece uma certa conduta a ser seguida. E a cultura, literatura, por outro lado, já vai revelar isso que você acabou de dizer, que não se pode domesticar. Essa personagem acaba sendo mesmo uma personificação do desejo. Ela dá voz a essas nuances que atravessam o submundo do corpo. Por meio dela, o leitor pode se aproximar do que arde, do que não se cala, do que insiste em permanecer vivo, mesmo quando o coração parece ter se esgotado. Porque o desejo é isto também, alguma coisa que, apesar de o coração se cansar, como diz a Carla Madeira na orelha do livro, o desejo não se cansa, né? E é nesse movimento que a gente permanente, vivo, né?
Seu livro nos sugere que o desejo é movimento contínuo, mesmo quando causa desgaste e dor. Como essa ideia orientou a estrutura do romance?
O norte do livro foi sendo construído com lembranças, devaneios, fantasias que se misturam com imagens dos filmes, das músicas, da literatura. Então, é uma escrita que vai, que vem, que não é tão linear, que tem um ritmo também poético. As pessoas têm falado muito isto, que o livro é pura poesia. Então, eu falei: “nossa, então eu encontrei a poesia no romance. Que interessante! A prosa poética, no romance. Achei interessantes as observações que ouvi”. Então, ele foi sendo construído assim, a partir dos fragmentos, do que ficou dos afetos da Laura, dos detalhes que marcaram o percurso dela.
Em algum momento, você percebeu que esse romance só poderia existir atravessado pela linguagem poética? E eu também vejo a escuta psicanalítica…
Ao lê-lo, eu não tinha reconhecido a poesia do livro. Depois, fui tendo esse retorno. Mas, a posteriori, vejo que só poderia escrever sobre tema, que geralmente não é dito, um tema que também é tabu – poder ser um pouco porta-voz do desejo de muitas mulheres e de homens que vivem esse dilema com angústia – acho que a gente só pode escrever daquilo que é impossível de dizer de uma maneira oblíqua, de uma maneira poética, com outra língua, uma outra linguagem que não é necessariamente a linguagem de todos os dias, a linguagem cotidiana, né? E a poesia é isso. A poesia é essa outra língua que vem diante daquilo que a linguagem comum não dá conta. Então, eu acho que só conseguiria escrever sobre o que normalmente não é dito, é calado, é colocado debaixo do tapete, que vem obliquamente, poeticamente.
Capa de ‘Atire a primeira pedra neste coração cansado’, de Paula Vaz (Foto: Divulgação)
“Nenhum corpo é dono de outro corpo.” Essa formulação, presente no livro, orientou sua escrita desde o início? De que maneira essa reflexão sobre autonomia, desejo e vínculo atravessaram o romance sem se impor como discurso teórico?
Isso realmente foi um cuidado, porque, como psicanalista, a gente tem de pensar muito sobre a vida, tentar elaborar alguns pensamentos sobre sobrevivência, sobre a experiência, sobre os temas. Então, eu tentei ter esse cuidado de não ficar teorizando a vida. Mas, de vez em quando, aparece uma frase que tem uma certa qualidade de fórmula, sabe? Um certo saber cristalizado, e eu, realmente, acredito nisso. Algumas frases que fecham algum sentido e nomeiam um pouco a experiência das próprias personagens. Essa frase é uma delas. É uma frase feminista, forte, mas também, como psicanalista, como mulher, eu acredito muito nisso. “Nenhum corpo é dono de outro corpo.” Nós vemos tantos feminicídios, tanta violência, fruto de acreditarem que o corpo do outro é sua propriedade, que você pode fazer com ele o que quiser, porque ele extensão do seu próprio corpo numa relação. Então, acho que é importante as pessoas lembrarem que cada um é dono do seu corpo, e de poder querer e poder não querer.
Mathias é o amante que Laura tenta superar aos cinquenta anos e que “incendiou” a vida dela. Que lugar Mathias ocupa na trajetória afetiva de Laura? Em que medida essa relação reorganiza, ou desorganiza, sua forma de desejar?
O Mathias, na verdade, talvez nem tenha sido a relação mais importante. Não sei se ele chegou a incendiar a vida, mas ele foi uma paixão, né? E, como toda paixão, desestrutura um pouco. A paixão é essa coisa que anima a alma, mas também desorganiza tudo. Talvez o Mathias tenha tido uma função importante porque é como se alguma ficha caísse em relação ao desejo para ela. Essa paixão por Mathias parece que a faz questionar muito. Esse desejo metonímico que ela acaba tendo, algumas vezes, talvez até raras vezes, mas significativas vezes, por outra pessoa, talvez ela tenha enxergado alguma coisa a partir dessa relação. Com o Mathias, ela percebeu que, muitas vezes, a busca de liberdade que ela tinha fazia com que ela se tornasse um pouco escrava das afeições. Então, nesse sentido, acho que ela percebe que ela não precisa também querer tudo o que deseja, que é uma escolha. Ela pode até querer, mas ela não necessariamente precisa consentir sempre com o desejo dela.
Já o Gael é um amante que permanece na amizade. E vejo muito um vínculo que é sustentado pela palavra, pelo adiamento, pela suspensão do gesto. Que tipo de amor interessava a você explorar nessa relação em que o desejo se realiza mais na escuta, na linguagem e no tempo partilhado do que na posse do corpo?
Que coisa maravilhosa isso que você falou. É isso mesmo. É um lugar mais delicado, talvez, né? Ele é sempre atravessado pelas palavras, pela linguagem, pelo poema. Muito mais do que pela questão do corpo. O corpo, na verdade, nem entra na experiência desse amor sustentado pela poesia, pela amizade, pelo sublime, pela sutileza. E, por isso mesmo, parece que tem natureza de eternidade, parece que alguma coisa ficou ali congelada.
No capítulo “Transposição”, a separação de Laura ocorre depois de uma longa convivência com o esvaziamento e se precipita quando certas palavras do marido finalmente se tornam audíveis. Acho que foi a gota d’água. Que concepção de desejo e de responsabilidade afetiva você buscava inscrever nesse gesto no romance?
A Laura escutou o que o marido disse, e aquelas palavras fizeram sentido para ela. Deram corpo a um sentimento que ela tinha. Acho que ela, de alguma forma, também é uma personagem que tem dentro dela um imperativo ético de não desaparecer, de ser fiel a si mesma também. Acho que, quando ele diz aquelas coisas, numa relação tão longa, que tem passado por situações difíceis, a ponto de ela se sentir sozinha, é como se ela realmente sentisse que permanecer era desaparecer. E isso não tinha nada a ver com amor, porque logo depois, ele coloca lá: “Mas você não me ama?”. E ela diz que isso é tão secundário perto do resto que ela nem respondeu. E o resto era a vida dela.
Você acredita que, de certa forma, alguns leitores podem ler isso como uma tentativa de justificar a traição?
As pessoas podem ler, né? Cada um pode ler como quiser. Agora, o que eu tento fazer no livro todo, é um pouco isto, que uma coisa não tem muito a ver com a outra, sabe? É claro que as questões do casamento abrem uma cratera que possibilita, talvez, a entrada de outras expectativas, de outros desejos. Por outro lado, tem alguma coisa do casamento, do casamento mesmo, que tem a ver com aquele sujeito, com aquela relação. Nunca é só uma fala do marido, né? Talvez não seja isto: “, ah, isso é por conta disso. Ela só procurou fora por causa disso.” Não necessariamente, mas pode ser. No caso ali, certamente, isso tem uma contribuição de muitos por cento, na forma de ela sentir o desejo fora do casamento.
“Atire a primeira pedra neste coração cansado” marca sua estreia no romance depois de uma trajetória consolidada na poesia. O que essa passagem de gênero permitiu dizer ou experimentar que a linguagem poética, sozinha, já não comportava?
Acho que me permitiu ter leitores que eu não tinha. Tenho recebido vários retornos. Enquanto escrevia poemas ou ensaios sobre poesia, realmente é um leitor muito restrito, que gosta de poesia, ou de pensar sobre isto, a teoria do poema. Mas, a partir do romance, vi que o meu leitor ampliou, e recebi vários retornos de homens e mulheres falando sobre o livro. Cada um por um ângulo diferente, mas tão interessante. Então, eu me senti mais lida, como se estivesse mais próxima do leitor. E senti também que é um livro que está gerando muita conversa. São vários clubes de livros, em espaços diferentes. Está sendo gerado um desejo de conversa sobre ele.
E a poesia, que você julgava ter secado? Já conseguiu reencontrá-la?
Ainda não sei, ainda não consegui colocar no papel, mas acho que ela está sempre no meu horizonte. Acho que ela virá, sabe? No seu tempo.
Ao convidar Carla Madeira para escrever a orelha do livro, você estabelece um diálogo explícito com uma autora muito lida no Brasil contemporâneo. Que afinidades — ou deslocamentos — você percebe entre o seu trabalho e o das escritoras que hoje vêm reconfigurando a escrita sobre amor e desejo?
Tem uma coisa que eu tenho percebido e que eu admiro em escritoras como a Carla é essa capacidade de legitimar, de autorizar a complexidade humana, não querer simplificar. É uma literatura que não tem o bem e o mal, não tem o certo e o errado. Todo mundo tem traços complexos, ambíguos, contraditórios. Então, acho que ela trata os personagens com muita profundidade, sem simplificá-los. E eu sinto muita afinidade com isso, porque acho importante a gente poder caber no mundo com as nossas ambiguidades. Poder se sentir existindo com elas. Sem tanta culpa, sem tanta divisão, sem tanto julgamento.
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