Pesquisadora da UFJF analisa influência dos hábitos familiares e do ambiente na nutrição infantil

(Foto: Agência Brasil)
“Pensar em nutrição vai além de estudar a alimentação. Há de se pensar no indivíduo como um todo, nos aspectos socioeconômicos, clínicos, bioquímicos e comportamentais que o circundam, nas características ambientais que o transformam e influenciam sua saúde nutricional”, diz Ana Paula Cândido. Docente no Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva e líder do grupo Pipa Kids, Ana Paula investiga a influência dos hábitos alimentares dos pais na saúde nutricional de seus filhos.
A pesquisadora também lidera o Estudo EVA-JF, que analisa fatores socioeconômicos, comportamentais e nutricionais com foco no consumo alimentar e no risco de obesidade de adolescentes de 15 a 18 anos. O longo trabalho com o tema e a relevância dele levou a equipe da Imagem Institucional a convidá-la para o 18º episódio do Id Pesquisa, programa de divulgação científica da UFJF.
Parentalidade alimentar na infância
O estudo liderado por Ana Paula com crianças de 3 a 6 anos busca compreender o papel dos pais na alimentação infantil. “Crianças dessa idade estão na fase que a gente chama de modelagem. Eles veem os pais como modelo de tudo que fazem. Quando os pais gostam de praticar atividade física, por exemplo, eles também fazem, porque querem seguir os pais, os cuidadores.”
Para observar e analisar mudanças e tendências de uma mesma amostra por um período prolongado de tempo, a pesquisadora e suas alunas investigam até que ponto vai a influência dos pais. O grupo analisa não só o consumo alimentar, mas também sobrepeso, alterações bioquímicas e comportamentais, frequência de atividade física, qualidade do sono, tempo frente às telas e outras variáveis.
Escola como ambiente promotor de saúde
O contato com o público do Pipa Kids ocorre por meio de escolas parceiras, com avaliações antropométricas, aplicação de questionários, coleta de sangue, atividades lúdicas e acompanhamento contínuo. Na primeira etapa do estudo, foram avaliadas cerca de 200 crianças e 200 pais ou cuidadores.
Uma das observações do grupo é que, mesmo com orientações de que a merenda escolar é a melhor opção para o momento, muitas crianças levam o próprio lanche. “Na maioria das vezes, o lanche que a criança leva é um chips, um biscoito recheado, o refrigerante, alimentos com baixa qualidade que se traduzem em excesso de peso, carências nutricionais e alterações bioquímicas”, lamenta Ana Paula.
Políticas públicas e responsabilidade coletiva
Para a pesquisadora, a alimentação inadequada de uma criança não é responsabilidade apenas da família. “Eu não posso dizer para uma família que a criança tem que comer alimentos in natura, frutas, verduras, se hoje sabemos que os alimentos ultraprocessados estão muito mais baratos do que os in natura”, ressalta.
A doutoranda Melina Monteiro, integrante do Pipa Kids, destaca a importância de os resultados da pesquisa orientarem políticas públicas voltadas à infância. “Um dos objetivos do trabalho é contribuir para reduzir doenças crônicas, obesidade e consumo de ultraprocessados na população adulta. A literatura já mostra que é na infância que os hábitos alimentares são construídos e intervir nessa fase é um grande passo para a promoção da alimentação adequada e saudável, reduzindo, assim, gastos com a saúde pública no futuro”, avalia Melina.
A doutoranda Adriana Melo desenvolveu sua tese para validar uma escala de avaliação da adesão às práticas alimentares baseadas nas recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, com crianças de 3 a 6 anos. “Diante desse cenário, as pesquisas voltadas para essa temática, como o Pipa Kids, permitem compreender de forma mais ampla como os diferentes fatores interferem na formação das preferências alimentares, possibilitando a criação de estratégias eficazes de promoção da saúde da população infantil”, reforça Adriana.
Predisposição genética e influência do ambiente
Mesmo com a predisposição genética de doenças, o ambiente é determinante. “Sabemos que mesmo com predisposição, um ambiente saudável vai resultar em menos prevalência de doenças ao longo da vida. O problema é que, muitas vezes, além da predisposição genética, temos um ambiente desfavorável. Uma criança, por exemplo, que já começa a vida com sobrepeso tem alta probabilidade de se tornar um adolescente e um adulto com sobrepeso ou obesidade”, alerta Ana Paula.
Ela observa que o mesmo ocorre com outras alterações. “Uma criança que tem alteração lipídica, hepática, glicêmica, de colesterol, deficiência de cálcio, vitamina C, vitamina A, entre outros, tem alta probabilidade de ser um adolescente e um adulto com essas alterações.”
Excesso não é adequado
“De um lado, há o adolescente que faz o consumo de alimentos de forma excessiva e, de outro, aquele que opta por não se alimentar. Adolescentes que têm preocupação excessiva com a estética e podem desenvolver transtornos como anorexia, bulimia e obsessão por atividade física. Por isso a importância do acompanhamento nutricional de crianças e adolescentes já na infância, como propõe o Pipa Kids. Buscamos um pensamento multidisciplinar, interdisciplinar e variado do indivíduo desde os primeiros anos”, completa Ana Paula.
Colaboração internacional
Durante seu pós-doutorado na Espanha, Ana Paula colaborou com a pesquisa Mediterranean Lifestyle in Pediatric Obesity Prevention (Melipop), que investiga o estilo de vida mediterrâneo na prevenção da obesidade pediátrica. O estudo é coordenado pelo pesquisador Luis Alberto Moreno Aznar, da Universidad de Zaragoza, e está em andamento desde 2019, com previsão de conclusão em 2030.
O episódio completo do Id Pesquisa com Ana Paula Cândido está disponível no Spotify.
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