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Sindicato denuncia falta de insumos, desvio de função e problemas estruturais no HPS em Juiz de Fora

O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Juiz de Fora (Sinserpu) denunciou uma série de problemas enfrentados por profissionais de saúde que atuam no Hospital de Pronto Socorro Dr. Mozart Teixeira (HPS). Entre as principais reclamações estão a falta de insumos básicos para atendimento, dificuldades relacionadas à alimentação dos trabalhadores e desvio de funções.
As denúncias foram apresentadas pelo sindicato em reuniões com profissionais da área e representantes da Prefeitura de Juiz de Fora (PJF). Documentos e pareceres técnicos também foram utilizados para embasar as reclamações. Segundo o Sinserpu, a situação tem afetado diretamente as condições de trabalho na unidade de saúde e pode impactar a qualidade do atendimento prestado à população.
A Tribuna entrou em contato com a PJF, mas não recebeu retorno até o momento. O espaço segue aberto.
Comida azeda e jejum de 12 horas
Segundo o sindicato, uma reforma necessária no refeitório do HPS, custeada por uma emenda parlamentar, tornou-se fonte de desgaste para os servidores. Em entrevista à Tribuna, a presidente do Sinserpu, Deise Medeiros, afirma que a falta de planejamento logístico durante as obras tem comprometido a nutrição dos trabalhadores e a própria assistência aos pacientes.
A principal queixa envolve uma ordem interna que obriga os servidores do plantão noturno a retirarem seus marmitex entre 19h e 19h30. O problema, como explica Deise, é que o horário coincide com a troca de plantão e um dos períodos de maior movimento no hospital. Assim, se os funcionários param para comer, a unidade fica desassistida; se priorizam o atendimento, a comida esfria. “O trabalhador fica em um momento de comprometimento, porque ele não vai deixar [o paciente], ele vai lá atender as pessoas.”
A qualidade da alimentação também foi alvo de denúncia. Em um episódio recente, o Sinserpu relata que as marmitas entregues pela prestadora de serviço chegaram azedas, impedindo o consumo. “Os trabalhadores reportaram para nós que ninguém do hospital conseguiu comer porque estava azeda.”
Além disso, o sindicato alerta para o risco à saúde dos profissionais que cumprem 12 horas de plantão. Como a única refeição oferecida ocorre logo no início da noite, os trabalhadores — incluindo diabéticos, hipertensos e idosos — são obrigados a passar o restante da jornada sem qualquer suporte alimentar por parte da instituição.
“É importante reformar? É importante. Só que tem que achar um mecanismo em que o trabalhador consiga prestar o serviço dele com qualidade e consiga fazer a sua alimentação. (…) O cara já vai chegar no plantão comendo e depois fica 12 horas sem?”, questiona.
Falta de insumos e estrutura
Outra dificuldade relatada pelos trabalhadores é a falta de materiais e insumos necessários para o funcionamento regular da unidade. Além dos problemas de infraestrutura e alimentação, o HPS estaria enfrentando escassez crítica de materiais básicos, que vão desde itens de higiene pessoal até insumos hospitalares indispensáveis para procedimentos cirúrgicos e de rotina. Segundo Deise, a situação é tão grave que coloca em risco pacientes e servidores.
Entre os itens citados está a Clorexidina, líquido antisséptico usado para a assepsia em cirurgias, suturas e passagens de sondas. Deise relata que há situações em que os profissionais estão sendo obrigados a usar álcool como substituto, o que causa dor e desconforto. “Tem locais mais sensíveis que você não pode usar o álcool, porque arde e pode causar algum problema para o paciente.”
Diferentes tamanhos de luvas de procedimento e cirúrgicas também estariam em falta. De acordo com o Siserpu, o hospital dispõe apenas de tamanhos grandes. Deise explica que a falta de tamanhos menores impede a aderência correta, o que aumenta o risco de acidentes com agulhas e impossibilita a realização de alguns procedimentos por parte dos profissionais. “O médico que tem a mão pequena não está fazendo sutura, porque não tem luva.”
Os profissionais também denunciam a falta de materiais de higiene, como álcool em gel, papel toalha e papel higiênico. Deise explica que a situação aumenta o risco de contaminação cruzada e infecção hospitalar. Algodão, gaze, copos descartáveis e lençóis de papel utilizados nas macas também são listados como insuficientes.
O Sinserpu aponta, ainda, a falta de materiais específicos, como sondas vesicais de calibres menores e equipos para bombas de infusão, necessários para a administração de drogas vasoativas e sedação, e de medicamentos como antimicrobianos (antibióticos), utilizados para combater infecções.
“Se você não tem uma clorexidina para higienizar, se não tem um sabão ou papel para secar a mão, se não tem álcool gel, o que sobra para aquele paciente? Uma infecção. E aí você teria que tratar com o antimicrobiano, que também não tem.”
Sobrecarga e desvio de função
Uma das frentes da denúncia apresentada pelo Sinserpu diz respeito ao desvio de função dos profissionais de enfermagem do HPS. Segundo Deise, a Prefeitura de Juiz de Fora tem ignorado as regulamentações da profissão e as resoluções do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), obrigando técnicos e enfermeiros a realizarem tarefas administrativas que estão fora do escopo profissional. 
Ela exemplifica que, para manter o hospital funcionando, a equipe de enfermagem é “frequentemente retirada do leito do paciente para executar funções que deveriam ser da administração”. Entre as principais irregularidades citadas estão o deslocamento de profissionais até a farmácia para buscar insumos; a gestão de prescrições, com a enfermagem sendo cobrada para solicitar assinaturas dos médicos ou até mesmo repetir prescrições; e gerir a lógica interna com atividades de entrega e busca de materiais que deveriam ser feitas por servidores do setor administrativo.
Ela alerta que o desvio de função causa prejuízo direto à assistência. “A cada momento que o profissional de enfermagem está lá na farmácia, fazendo entrega de material ou gestão de prescrição, o que está acontecendo? O paciente está ficando desassistido”, avalia.
Deise afirma que as resoluções do Cofen não são seguidas da maneira correta. “Somos uma profissão regulamentada, a gente tem um norte ético para seguir. E a prefeitura está ignorando esse norte ético e está colocando os trabalhadores para fazer coisa que não é deles.”
O parecer técnico nº 5/2024 do Cofen aponta que não compete à equipe de enfermagem se deslocar para buscar medicamentos ou insumos em farmácias das unidades, uma vez que essa atividade não está prevista entre as atribuições legais. Segundo o documento, a ausência do profissional do setor de atendimento para realizar esse tipo de tarefa pode representar risco à assistência prestada aos pacientes.
Servidores fazem ‘vaquinha’ para consertar unidade após depredação
O clima de insegurança no HPS atingiu um ponto crítico em fevereiro, quando um episódio de violência resultou em depredação física da unidade. Diante da ausência de reparo aos danos, os próprios trabalhadores se mobilizaram financeiramente para comprar os materiais necessários e garantir a continuidade dos atendimentos com um mínimo de privacidade.
De acordo com o Sinserpu, no dia 16 de fevereiro, uma paciente, que chegou à unidade em surto e sob efeito de álcool, iniciou um ataque após uma confusão envolvendo a falta de ficha de atendimento e uma suposta interpretação de deboche por parte de um acompanhante. “A agressora levantou e começou a quebrar tudo naquela unidade. Ela quebrou a lata de lixo, quebrou a divisória que separa os pacientes naquele local para ter mais privacidade para o atendimento, quebrou tudo”, relata Deise.
Após o fato, segundo o sindicato, para não interromper o serviço e manter a segurança e a dignidade dos usuários, os funcionários tiveram que intervir com recursos próprios. “Os trabalhadores compraram a peça que precisava para poder garantir a segurança dos atendidos, para esticar uma cortina e fechar.”
Para Deise, a situação expõe a negligência da Secretaria de Saúde e da direção do hospital, que, segundo ela, têm sido omissas em relação à segurança dos profissionais no exercício de suas funções. Segundo a presidente, a profissional vítima da agressão ocorrida em fevereiro ainda não foi atendida pela secretaria, que marcou uma reunião apenas para o dia 2 de abril.
 
 
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