Ressurreições cotidianas

A Páscoa é celebrada como o tempo de renascimento, de travessia, de transformação. O que tem a ver essa experiência espiritual com o nosso envelhecimento? Tem tudo a ver. Transformar e ser transformado. Ficar velho é atravessar e ser atravessado. Não apenas pelos anos, pelas perdas, pelas mudanças, pelos silêncios que chegam, pelos papéis que se vão.
Assim como na vivência da Páscoa, temos no nosso envelhecimento um convite – nem sempre confortável de a gente aceitar – para deixar algo para trás. Liberar. Deixar ir. Desprender-se. Entregar. A Páscoa nos lembra que fim e recomeço não são opostos. São partes do mesmo processo.
Envelhecer não é apenas acumular tempo, é reinterpretá-lo. A pessoa idosa quando tem espaço para elaborar a sua trajetória de vida, vive uma espécie de “ressurreição cotidiana”: porque ressignifica dores antigas; reconcilia-se com suas escolhas; encontra novos sentidos onde antes havia apenas rotina, o que é uma grande construção de uma vida toda.
Renascimento. Morrem certezas; papéis sociais; expectativas irreais; ilusões de controle. Páscoa é renascimento, sim: mas, quantos de nós ainda vestimos roupas que não nos servem mais? Chegamos à idade madura e, mesmo assim, estamos presos às versões antigas de nós mesmos? O envelhecimento saudável não se sustenta apenas em indicadores clínicos, mas na capacidade de encontrarmos sentido na própria existência.
O que, em mim, precisa renascer? O que efetivamente eu devo aposentar? O que vale a pena eu cultivar? Portanto, envelhecer, assim como viver a Páscoa em nós, representa menos ter respostas prontas e mais obter perguntas reveladoras sobre nós mesmos: para onde estou conduzindo a minha vida?
É verdade, a Páscoa nos lembra que a vida insiste. E o envelhecimento quando vivido com consciência, confirma isso. Recomeçar. Talvez seja por isso que a Páscoa promova um belo encontro com quem já viveu mais tempo: não como repetição de um ritual, mas como uma nova chance de olhar para si com mais profundidade e soltar o que já não serve. Soltar as culpas que envelheceram conosco. Soltar a ideia de que “já não há mais tempo”. Paradoxalmente, o envelhecimento pode ser justamente o tempo mais fértil para o essencial da vida por ser a nossa última estação. Feliz Páscoa!
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