Tribuna de Minas

Conheça Pedro Moysés: diretor do espetáculo ‘A copa’

Pedro Moysés, 28, é diretor e roteirista do premiado ‘A copa’ (Foto: Divulgação)
Para o crítico Sábato Magaldi, o valor do teatro não pode ser medido pelo tamanho do público de cada apresentação, mas pela intensidade da experiência que provoca em cada espectador. É essa ideia que Pedro Moysés, que também é repórter da Tribuna, mantém na cabeça quando pensa no que essa arte significa para ele, que começou a assistir às peças do Grupo Divulgação quando era bem criança, junto com a mãe. “Acho que eu começo no teatro ali. Toda semana, invariavelmente, a gente ia assistir a uma peça”, relembra ele, sobre o momento, ainda no começo dos anos 2000, em que os dois cumpriam uma rica agenda cultural em Juiz de Fora, por meio da qual, desde cedo, ele já começou a formar seu repertório — ainda sem pretensões artísticas. Por volta dos 15 anos, cursando o Ensino Médio em Florianópolis, mudou de escola e entrou em um grupo de teatro. De novo foi fisgado. E mais uma vez essa intensidade o atingiu, aos 21 anos, quando voltou a Juiz de Fora e foi participar da mesma oficina de teatro cujas apresentações havia assistido um dia. Em 2025, ele escreveu sua primeira peça, “A copa”, que será apresentada no Palco Central nesta terça-feira (7), às 18h30, e busca expandir esse efeito para mais pessoas.
Em 2013, Pedro subia aos palcos pela primeira vez, na peça ‘Mamba’ (Foto: Arquivo pessoal)
Logo no primeiro contato com o Núcleo Cênico do Colégio Catarinense, um grupo de secundaristas, ele percebeu que aquele ambiente o fazia bem — eram pessoas variadas e uma atmosfera mágica, que se diferenciava ainda mais das outras atividades que ele fazia na época, ainda que também essas já se conectassem com a arte (e, mais especificamente, com a música). Quando, no entanto, precisou se mudar de Florianópolis com a família de volta pra Minas, passou por um novo processo de readaptação e de encontrar o seu rumo em Juiz de Fora. Até que indicaram para ele o próprio Grupo Divulgação, do qual até então ele não se lembrava de conhecer. A experiência com o grupo foi ainda mais diferente. Inclusive porque antes de ele entrar, sua mãe começou as aulas e ele acompanhou o grupo de longe, apenas assistindo aos espetáculos, devido a uma incompatibilidade de horário.
Quando finalmente conseguiu entrar, adaptando seus horários na faculdade para isso, viu que o grupo ensinava a ser “gente de teatro”, e não apenas a ser ator. “Eu aprendi a costurar, fazer figurino, montar cenário, pensar a iluminação e entender o que funciona e o que não funciona em uma peça. A gente faz de tudo”, conta. Junto com o grupo, passou pela pandemia de Covid-19 e foi amadurecendo sua relação com o teatro, que foi se tornando cada vez mais próxima. “Aprendi que meu amor pelo teatro vai muito além do palco. Eu tenho a mesma paixão quando eu estou na bilheteria, quando eu estou na cabine fazendo iluminação, se eu estou no bastidor e quando eu estou no palco”, diz.
Essa possibilidade de transitar por diferentes perspectivas dentro da cena fez com que, em 2025, encarasse um novo desafio — mas sem imaginar, ainda, o tamanho do passo que estava dando. Quando um amigo conseguiu um equipamento emprestado da faculdade por dois finais de semana, resolveu tentar escrever algo para que eles filmassem, como uma experimentação. Dito e feito. Mas, quando o grupo se reuniu para colocar a ideia em cena, perceberam que o que estava sendo filmado era, na verdade, uma peça. E decidiram, juntos, transformar mesmo o texto em uma versão teatral. Foi assim que também nasceu o grupo “Em cômodos”, formado por amigos (Valentine Fontanella, Bruno Ferreira, Igor Santos e Lucas Barbosa) que fizeram teatro e que estavam buscando desenvolver a sua própria linguagem. “Eu já queria fazer a transição de ator para diretor, e acho que o Divulgação me preparou para isso.”
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Construção de ‘A Copa’
“A copa” nasceu de uma colagem de vários interesses de Pedro — quase uma curadoria do que ele vê no mundo e do que foi absorvendo, como define. Por isso, a peça tem uma relação com o teatro do absurdo e também apresenta referências claras a Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Ferreira Goulart e  Nietzsche. Escrito enquanto ele lia “A arte de produzir efeito sem causa”, de Mutarelli, a peça apresenta dois personagens confinados em um ambiente ao qual não sabem como chegaram ou como vão sair. Mas à medida em que esperam por algo indefinido, também mergulham em reflexões sobre trabalho, tempo e existência.
O espetáculo foi para o Festival de Teatro Comunitário de Mariana e foi indicado a seis dos sete prêmios do festival, e de fato ganhou cinco deles. Como um ator que também se vê como autor dos textos que encarna, ele conta ainda que teve o cuidado para pensar, a partir do momento que ficou definido que aquela criação dele seria uma peça, em como fazer caber o seu texto na boca dos seus atores. Esse é um dos diferenciais que ele enxerga na peça, assim como ter entendido que é importante deixar o texto ir se transformando em um ato quase de desapego. “Com os atores, o texto ganha carne e osso. A partir do momento que vai para boca de outras duas pessoas que não são você, que criou o texto, vai tendo outras nuances e contornos”, diz.
(Foto: Divulgação)
Para mudar os incômodos
Desde então, muita coisa mudou para ele — inclusive a percepção do que pode fazer nessa posição de diretor, que é diferente de como costumava se enxergar. Como o cenário de “A copa” é bem simples, o peso recai sob os atores, e cabe a ele os guiar; mas quando as posições se inverteram, passou também a ficar mais consciente de si no palco. Da mesma forma que a paixão pelo universo foi despertada, logo no início, a vontade de continuar dirigindo também: agora passou a planejar levar, um dia, o texto de outro ator para os palcos a partir de sua direção. Para isso, o grupo do qual faz parte está há quase um ano formando repertório e fazendo leituras para entenderem os caminhos que querem traçar.
O nome “Em cômodos”, inclusive, surgiu do local enclausurado em que se passa essa primeira peça, mas também de uma ideia mais geral de limitação — que os obriga inclusive a ser mais criativos. O que eles também têm tentado fazer, neste momento, é algo que enxerga que o Divulgação já faz há muitos anos, mas segue como um desafio: a formação de um público de teatro em Juiz de Fora. Principalmente depois da pandemia de Covid-19, as dificuldades para se fazer teatro são várias, mas ele também entende que a importância específica do teatro se mostrou maior ainda. 
É comum que cada elenco tenha seus rituais antes de uma peça, e ele acredita bastante nisso. Inclusive, tem os seus: sempre pede que as pessoas saiam pelo menos um pouco transformadas. “Acho que a gente precisa olhar pra esse lado humano de encontrar o outro, sentar ao lado de alguém com um pensamento diferente e ver isso também no palco. Quando a gente chega como plateia, faz um contrato de acreditar no que está sendo dito, e quem está em cena se compromete a dar o melhor para passar uma mensagem, uma experiência. Essa junção é a coisa mais linda: enquanto sociedade, a gente dá a mão, ainda que metaforicamente. O teatro acontece nesse momento de encontro — e no dia seguinte já são outras pessoas, outra experiência”, diz.
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