A ‘tragédia carioca’ no palco do Central: ‘A falecida’ e o espelho implacável de Nelson Rodrigues

“Todos os meus textos dramáticos são uma meditação sobre o amor e sobre a morte”, disse Nelson Rodrigues (1912-1980) em entrevista concedida em junho de 1973 ao O Globo, 20 anos após a primeira montagem de “A falecida”, ocorrida em 1953. Agora, na próxima terça-feira (26), o palco do Cine-Theatro Central em Juiz de Fora será tomado pela “tragédia carioca” de Nelson Rodrigues. A montagem do Aquele Grupo traz ao público a oportunidade de conhecer o texto de um dos maiores dramaturgos do país.
Para compreender o impacto dessa obra, é preciso dar um passo atrás. Quando o saudoso crítico e teatrólogo Sábato Magaldi (1927-2016) organizou a obra completa de Nelson, ele classificou “A falecida” (escrita em 1953) como a inauguração das suas “Tragédias Cariocas”. O dramaturgo nutria uma profunda antipatia pela superficialidade das chamadas comédias de costumes. Aconselhado pelo poeta Manuel Bandeira a escrever sobre “pessoas normais”, a fim de se reaproximar do grande público e reduzir o “divórcio da obra com a plateia”, Nelson trouxe suas histórias para os subúrbios da Zona Norte do Rio. Mesmo com esse movimento, ele não abriu mão do abismo e da tragédia, escondendo-os sob a aparente banalidade do cotidiano
No centro da trama está Zulmira, uma mulher suburbana cuja rotina é marcada por frustrações profundas. Diagnosticada com tuberculose, ela desenvolve uma obsessão quase mística pela própria morte e passa a planejar um funeral sumptuoso. Para Zulmira, o luxo póstumo não é apenas vaidade, é uma desforra contra o destino cinzento e uma busca desesperada por validação e reconhecimento que a vida lhe negou.
E é exatamente na intersecção entre o abismo humano e a realidade dos tempos atuais que a nova montagem ganha sua força. Em conversa com a coluna, o diretor do espetáculo Conrado Braga ressaltou que a missão de encenar Nelson Rodrigues não é sacralizar o mito do dramaturgo, mas encontrar a pulsação humana por trás de suas palavras. “Montar Nelson Rodrigues é uma honra para qualquer diretor apaixonado por teatro. É muito intrigante pensar em como atores e atrizes vão dizer no palco palavras que foram escritas por alguém que se tornou tão célebre pela maneira ácida e crua que enxergava a realidade do Brasil, sempre tão inventivo e inovador.”
A atualidade da peça não foi o chamariz inicial para o interesse do grupo no texto – que surgiu de forma rodriguiana: em uma mesa de botequim -, mas fez-se com força durante os ensaios. Os protagonistas de Nelson carregam dilemas que esbarram violentamente nos que vivemos ainda hoje: o machismo estrutural, o esvaziamento das relações e o vício em jogos. “Essa atualidade do texto foi se revelando enquanto íamos pensando na dramaturgia e na encenação e foi incrível perceber que a peça deixou de ser uma tragédia do Rio de Janeiro dos anos 50 para se tornar um drama contemporâneo, sem praticamente nenhum ajuste relevante no texto.”
Em pleno ano de Copa do Mundo, com o sonho distante do hexacampeonato que mais parece uma utopia alienante, “A falecida” ressuscita. No espetáculo, com direção de Conrado Braga e assistência de Vitu Marcs, o elenco formado por Ágata Avelar, Barbosão, Franklin Ribeiro e Tayane Araujo dá vida aos intensos e contraditórios personagens que orbitam a tragédia de Zulmira. A montagem ganha ainda mais força com a iluminação desenhada por Gabriel Iung e Andressa Melo, operação de vídeo de Vitu Marcs e assistência técnica de Jessie Dutra. O cartaz é assinado por Washington Botelho, além de som e fotografia do próprio diretor. A peça é fruto de uma produção cuidadosa assinada pelo próprio Aquele Grupo.
Preparar o espírito para Nelson Rodrigues é aceitar que não sairemos ilesos do teatro. Na terça-feira, o Central nos abriga para essa catarse. Nos vemos na plateia.
Cartaz de Washington Botelho (Foto: Divulgação)
Serviço:
Espetáculo: “A falecida”, de Nelson Rodrigues (pelo Aquele Grupo)
Data: Terça-feira (26)
Horário: 18h30
Local: Cine-Theatro Central (Praça João Pessoa, Juiz de Fora – MG)
Ingressos: Entrada gratuita. Os ingressos já podem ser retirados na portaria lateral do Cine-Theatro Central, de terça a sexta, das 9h às 12h e de 14h às 17h e aos sábados, de 9h às 12h.
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