Zona da Mata

A importância de fazer o bem sem ser observado

Realizar boas ações quando não há uma audiência à vista pode ser um dos maiores desafios na atualidade. Em uma era onde tudo pode ser transformado em conteúdo para redes sociais, agir com bondade sem registrar o ato parece ir contra a lógica predominante que valoriza o engajamento. A reflexão é instigante: para que realizar um gesto altruísta se ele não render “likes”?

Entretanto, são esses pequenos atos de generosidade, realizados longe das câmeras, que nos lembram da essência da humanidade. Eles são fundamentais para que não tenhamos uma visão completamente negativa da condição humana. Esta discussão foi motivada pela recente releitura de “Ensaio sobre a cegueira”, obra de José Saramago, que se mantém relevante mesmo após mais de trinta anos de seu lançamento.

Reflexões sobre a cegueira e a empatia

No enredo, uma epidemia atinge a população, levando a maioria a perder a visão, exceto uma mulher que decide fingir-se cega para ajudar o grupo. Apostas de solidariedade e entrega, ela organiza, busca alimentos e se dedica a cuidar dos mais vulneráveis, sem esperar reconhecimento por suas ações.

A figura dela contrasta com a escuridão moral que a cegueira epidêmica traz à tona, revelando o egoísmo e a indiferença das pessoas. A falta de vigilância sobre os atos alheios faz com que maldades sejam cometidas sem a preocupação do julgamento, uma situação que ecoa a atmosfera da internet contemporânea, onde a impunidade muitas vezes alimenta comportamentos incivilizados.

Esse retrato sombrio do ser humano é encapsulado na frase do livro: “É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”. Saramago nos faz perceber que a moralidade é frequentemente mantenedora de comportamentos éticos; sem vigilância, o impulso para o mal torna-se mais forte. Isso nos remete a lembranças do período da pandemia de Covid-19, quando muitos optaram por ignorar o sofrimento alheio em um contexto em que a solidariedade também se manifestou fortemente.

Agora, mais do que nunca, as lições de Saramago permanecem em nosso cotidiano, nos lembrando de que, mesmo em tempos difíceis e sem reguladores morais aparentes, podemos e devemos cultivar nossa humanidade e empatia, ajudando quem precisa, mesmo que ninguém esteja observando.


Com informações de Tribuna de Minas.

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