Tribuna de Minas

Conheça Si Duarte: crocheteira que reforça ancestralidade em roupas e acessórios

Brincos de crochê estão entre as peças que Si mais gosta de fazer (Foto: Arquivo pessoal)
Si Duarte usa turbante branco, blusa branca e bota branca quando nos encontramos. É sexta-feira, dia de Oxalá. Está com sua filha, Maria Luiza, de 8 anos, que pergunta quando é a próxima feira de artesanato assim que passam pelo Parque Halfeld. Também usa um batom vermelho e uma saia de crochê colorida com algumas linhas desfiadas, feita com as próprias mãos. “O mundo é muito grande para ficarmos só dentro de uma caixa. (…) O crochê me dá liberdade de vestir o que eu quero, de ser quem eu quero ser, de ser flexível, de ser leve. E levo isso pra vida também”, conta ela. Foi com 8 anos de idade que aprendeu a técnica, com sua mãe e sua bisavó, e se lembra bem da primeira peça que fez, em uma época em que não era possível ver tutoriais no YouTube: um biquíni laranja para ir pra praia. Mas foi só mais tarde, quando teve a caçula que a acompanha, que viu o crochê como profissão e decidiu realmente investir nessa área. Hoje, ela encontrou uma profissão que honra sua ancestralidade e que lhe permite continuar criando todos os dias.
Apesar de ter aprendido a técnica bem cedo, Simone, que é conhecida como Si, conta que teve dificuldade de reconhecer que se tratava de um trabalho e não um hobby — e de um trabalho digno como qualquer outro. Foi em um momento de dificuldade que viu essa possibilidade.  “Descobri minha segunda gravidez com 4 meses, no seguro-desemprego, querendo virar cabeleireira. Pensei: ‘agora vou ter que dar meus pulos’. Aí, fiz o enxoval pra minha filha. E não parei”, conta, e recorda que ainda na maternidade tem uma foto da Maria Luiza com uma roupa feita por ela. A partir do momento em que decidiu realmente tornar isso um negócio, também se lembrou que era algo que sempre fez parte da sua vida: já tinha ajudado a mãe a vender cachecóis, feito várias peças para dar para amigas e confeccionado uma manta quando teve a primeira filha, Maia, que já tem 16 anos. 
Também percebeu que a versatilidade do crochê era algo que a interessava especialmente, já que combinava com qualquer temperatura e nunca saía de moda.  Para o frio, era possível fazer cachecóis e casacos, já para o calor, biquínis e vestidos. Sem contar os brincos e bolsas, que hoje são algumas das peças de que ela mais gosta. “É uma moda sustentável. O crochê é um material que, bem feito, é estrutura para uma peça que pode durar 30, 40 e até 50 anos, com cuidados como lavar a mão e não deixar secar ao sol”, explica. Fora da moda, ela também faz os amigurumi, que são gerados a partir de uma técnica artesanal japonesa para criação de bonecos e de outros objetos tridimensionais. Atualmente, ela vende as peças na Feira de Ogum e pelo Instagram, com peças prontas, mas também aceita encomendas.
Para criar o próprio negócio, no entanto, como logo percebeu, não bastava ser boa só no crochê. Foi preciso aprender também sobre comunicação, marketing, fotografia, gestão financeira e entrega dos produtos. Dar conta de tudo isso, para ela, segue como o maior desafio: “São muitas áreas que temos que ter domínio para poder oferecer cada vez mais um produto de qualidade. Sempre penso: o que posso entregar para a minha cliente que ela vai se sentir surpreendida e cada vez mais mulher? Não é só um brinco de crochê, quero que a mulher olhe para a peça e se sinta exclusiva, que saiba que eu dediquei meu tempo a fazer aquilo para ela”, diz.
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Saia de crochê propositalmente sem arremate tem diferencial de moda, como conta ela (Foto: Arquivo pessoal)
Pra que arremate? 
Com a própria experiência no crochê, Si, hoje com 40 anos, percebeu que não tinha apenas o domínio da técnica, mas a capacidade de criar e ousar. “Sempre gostei de usar turbante, cabelo mais cheio, aquela coisa bem “leoa”, e batom contrastando com a minha pele. Acho que a gente que cria a moda, nós somos a moda. Não tem uma regra, um padrão”, diz. Esse encanto fez com que ela também decidisse voltar a estudar para começar um curso de Moda, um sonho antigo, e levasse para a área esse seu olhar de crocheteira. 
Nas suas peças mais recentes, ela também tem se sentido mais à vontade para experimentar e ousar de formas variadas. “Por muitos anos fiz o crochê padrão, que começa de um jeito e segue desse jeito até a finalização. Mas quando comecei com o vestuário pude explorar outras coisas. Essa saia que estou, por exemplo, não tem arremate. Não precisa de estar nos padrões para ser belo. Eu gosto disso”, conta. 

Entre elas
Ao lado de Maia e Maria Luiza, ela dá continuidade ao legado (Foto: Arquivo pessoal)
Outra frente de trabalho de Si são as oficinas de crochê, em que compartilha mais sobre a técnica e estimula que seja aprendida por mulheres que, como ela, podem ter sua trajetória transformada. “Acho que se adequa muito às mães solo, mães independentes, mães que precisam de um complemento da renda ou da flexibilidade de horário. É uma forma de dar autonomia, da gente entender que podemos construir um sonho mesmo com as nossas mãos”, ressalta. 
Apesar de ter precisado desacelerar durante um tempo no ano passado, devido ao adoecimento da mãe por um câncer, ela já retomou os trabalhos para honrar suas raízes.  “O crochê veio para a minha vida por causa dela. Ela faleceu há 4 meses, e estou voltando a fazer feiras, a caminhar com meus projetos. Quanto mais ando pra frente, vejo que ela estaria feliz, porque era uma das nossas paixões em comum”, diz. Não só para ela, inclusive, se trata de um conhecimento tradicional: apesar das origens exatas serem incertas, as técnicas remontam à pré-história. “Para mim, é muito ancestral. Não só porque minha bisavó passou pra minha mãe e as duas passaram pra mim, mas também porque é da minha identidade. A minha filha mais velha já aprendeu e a mais nova tem vontade. Por isso tenho vontade de seguir ensinando para outras mulheres, porque acho que esse conhecimento não deve morrer comigo”, conta.
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