Queda de público e mudança no consumo forçam shoppings a rever modelo e operação
O movimento dentro dos shoppings já não é mais o mesmo — e isso não é percepção, é dado. O fluxo vem caindo e, na prática, o varejo está passando por um processo natural de ajuste: lojas que não performam estão ficando pelo caminho.
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Lojas em ajuste: Menos emoção, mais resultado
“O público dos shoppings vem caindo, e todos os varejistas passam por um processo de depuração”, afirma Silvio Stagni, presidente da Allied Tecnologia.
Na prática, isso significa uma operação mais racional.
Lojas que não entregam resultado deixam de fazer sentido — e o fechamento passa a ser uma decisão estratégica, não mais exceção.
Internet vende mais e muda o jogo
O consumidor mudou e rápido. Hoje, ele compra com mais autonomia, compara preços e prioriza conveniência.
No mercado de celulares, por exemplo, o online saiu de 25% das vendas em 2020 para 45% atualmente. E o movimento é ainda maior: desde 2024, as vendas pela internet já superam as dos shoppings.
Com o orçamento mais apertado, o cliente evita custos extras como transporte, estacionamento e consumo por impulso. Ele pesquisa mais — e decide melhor.
Menos crédito, mais consumo
Além da mudança de comportamento, o cenário econômico também pressiona o setor.
Fatores como juros altos, endividamento e inadimplência reduzem diretamente o consumo — especialmente dentro dos shoppings, que dependem mais da venda de bens duráveis e semiduráveis.
Ou seja: quando o crédito aperta, o shopping sente primeiro — e com mais intensidade.
Quem puxa o fluxo hoje?
Durante anos, o shopping se sustentou em grandes âncoras de público como cinemas, praças de alimentação e grandes magazines.
Esses espaços tinham um papel claro: gerar fluxo e, a partir dele, impulsionar o consumo.
Hoje, esse comportamento mudou.
O cinema já não ocupa o mesmo lugar na rotina do consumidor, e outras formas de entretenimento muitas vezes mais acessíveis e dentro de casa como stremings que passaram a disputar essa atenção.
O desafio do shopping agora é outro: criar novos motivos para a visita.
Mais do que comprar, o cliente precisa sentir que vale a pena estar ali.
O desafio não é abrir – é atrair
Mesmo com queda de fluxo, o setor segue crescendo em número de empreendimentos e faturamento, o que mostra que o modelo não acabou — mas precisa evoluir.
A discussão agora não é mais sobre quantidade de lojas, e sim sobre relevância. O shopping precisa voltar a ser destino — não só ponto de compra.
Novos hábitos, nova operação
A mudança no comportamento do consumidor já começa a impactar a operação.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, o empresário Alexandre Birman, CEO do grupo Azzas 2154, defende que o varejo precisa rever a lógica de funcionamento. Segundo ele, o pico de vendas no fim do dia já não é mais uma regra.
O consumo está mais distribuído ao longo do dia e, em muitos casos, começa mais cedo. Isso abre espaço para uma operação mais alinhada à nova rotina do cliente.
Essa discussão também se conecta a um tema sensível no setor: o aumento dos custos operacionais e a revisão de modelos de jornada, como a escala 6×1.
Lojista pressionado, operação em revisão
Para lojistas, principalmente os pequenos e médios, o cenário é desafiador. A conta ficou mais apertada: custo fixo elevado, concorrência digital e um consumidor mais seletivo.
Nesse contexto, revisar horários de funcionamento surge como alternativa para equilibrar operação e rentabilidade — ainda que haja resistência por parte das administradoras.
Um modelo em transformação
Para especialistas em varejo, o momento é de reinvenção. O shopping que conhecíamos, baseado em fluxo alto e consumo por conveniência — já não responde sozinho.
Agora, experiência, serviço e proposta de valor passam a ser decisivos. Além disso, a transformação acontece de forma desigual pelo país: enquanto algumas regiões ainda crescem, outras já mostram sinais claros de saturação.
O que diz o setor?
A Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) reforça que o setor segue relevante e não vê a redução de horário como solução.
A entidade aponta que, diante das novas dinâmicas de consumo, há espaço para evolução do modelo — inclusive com ampliação de conveniência — e não necessariamente redução de funcionamento.
No fim, a pergunta é uma só
O varejo físico não perdeu força — perdeu a previsibilidade.
Agora, mais do que abrir as portas, é preciso criar motivo.