Quem cuida das mães que cuidam sozinhas em Juiz de Fora?
O despertador toca cedo. Tem café para preparar, filho para acordar, ônibus para pegar e contas esperando para serem pagas. Em muitas casas de Juiz de Fora, a maternidade acontece sem pausa, sem descanso e, muitas vezes, sem alguém para dividir o peso da rotina.
Enquanto o Dia das Mães costuma ser associado a homenagens e encontros em família, milhares de mulheres vivem uma realidade diferente. São mães que criam os filhos praticamente sozinhas, equilibrando trabalho, responsabilidades domésticas, dificuldades financeiras e a ausência paterna.
Em silêncio, elas sustentam famílias inteiras.
“Cada fase foi um desafio diferente”
Aos 36 anos, Mariana Neves trabalha em uma cafeteria de Juiz de Fora e cria sozinha o filho de 14 anos. Ela conta que a maternidade solo começou cedo, quando tinha pouco mais de 21 anos, e veio acompanhada de dificuldades financeiras, longas jornadas de trabalho e cansaço constante.
“Quando ele nasceu, era um bebezinho muito gostosinho, muito fofinho. Mas aí começaram os desafios. Primeiro a amamentação, depois as dificuldades financeiras. Eu precisei trabalhar em vários lugares para conseguir sustentar minha família”, relata.
Segundo Mariana, a necessidade de trabalhar mais para aumentar a renda fez com que ela passasse menos tempo com o filho durante parte da infância dele.
“Eu acompanhava o que conseguia. Isso era muito difícil para mim”, conta.
Ela destaca que o apoio dos pais foi fundamental em alguns dos momentos mais complicados da criação do filho, especialmente quando passou a trabalhar à noite.
“Meu filho precisou morar com a minha mãe durante um tempo porque eu chegava muito tarde em casa. Todos os dias de manhã eu ia para a casa dos meus pais ficar com ele antes de voltar para o trabalho. Eu era uma pessoa extremamente cansada.”
O peso emocional da maternidade solo
Além das dificuldades financeiras, Mariana conta que existe uma sobrecarga emocional constante que acompanha mães solo em diferentes fases da criação dos filhos.
“O abandono paterno é sempre aquela coisa que está ali atrás da porta, sabe? Uma porta que pode ser aberta a qualquer momento.”
Hoje, com o filho entrando na adolescência, ela diz que os questionamentos sobre a ausência do pai começaram a aparecer com mais força.
“É muito difícil você falar para o seu filho que uma pessoa tão importante escolheu abandonar ele”, desabafa.
Mesmo diante dos desafios, Mariana afirma que segue encontrando forças na relação construída com o filho ao longo dos anos.
“As dificuldades são enormes, mas as alegrias também são muitas.”.
Mariana Neves e seu filho em registo de 2022. Imagem: Redes Sociais.
Mães que trabalham enquanto o resto da cidade comemora
A realidade de Mariana também se cruza com a de milhares de mulheres que trabalham justamente em datas comemorativas enquanto outras famílias celebram.
Funcionária do setor de atendimento, ela explica que domingos e feriados costumam ser os dias mais movimentados para bares, cafeterias e restaurantes da cidade.
“No Dia das Mães, a gente trabalha. Eu nem sei qual foi o último Dia das Mães que passei em casa com meu filho.”
Ainda assim, ela diz que muitas mulheres seguem cumprindo a rotina tentando esconder o próprio cansaço.
“A gente vai cumprir nosso dever como sempre, com sorriso no rosto, mas com aquela lágrima escondida, porque o que a gente queria mesmo era estar aproveitando o dia com nossos filhos e nossas mães.”.
Mariana vai trabalhar normalmente neste domingo de Dia das Mães. Imagem: Arquivo Pessoal.
As mulheres que sustentam a cidade sem serem vistas
A história de Mariana não é isolada. Ela se conecta à realidade de milhares de mulheres que hoje sustentam sozinhas os próprios lares em Juiz de Fora e em todo o país.
Dados do IBGE mostram que o número de mulheres responsáveis financeiramente pelos domicílios brasileiros cresceu nos últimos anos. Muitas dessas famílias são chefiadas por mães solo, que acumulam responsabilidades financeiras, emocionais e domésticas praticamente sem divisão de tarefas.
Em Juiz de Fora, essa realidade aparece diariamente nas ruas, nos ônibus, nos supermercados, nas escolas, nos hospitais, nos bares e no comércio. São mulheres que acordam antes do amanhecer para deixar filhos em creches ou com familiares, atravessam longas jornadas de trabalho e voltam para casa sabendo que ainda existe uma segunda jornada esperando por elas.
Em muitos casos, o apoio vem justamente de outras mulheres.
Avós que ajudam na criação dos netos. Vizinhas que buscam crianças na escola. Amigas que dividem cuidados. Grupos de WhatsApp criados em bairros para trocar roupas, alimentos, favores e apoio emocional. Em muitos territórios da cidade, a maternidade solo deixa de ser individual e passa a ser coletiva.
Na Zona Leste e Nordeste de Juiz de Fora, bairros como Santa Cândida, Santa Cruz e São Benedito se tornaram exemplos dessa rede silenciosa de acolhimento feminino. Lideranças comunitárias conhecidas como “mães de bairro” são lembradas como Célia Barbosa, além de figuras que marcaram esses bairros como a falecida como Adenilde Petrina. Todas, ajudaram e ajudam a fortalecer ações de cultura, educação e apoio social dentro das comunidades.
Adenilde Petrina foi uma figura bastante lembrada em Juiz de Fora como uma “mãe de bairro”. Imagem: Reprodução/UFJF.
Além das redes informais, mães solo também encontram suporte em projetos e equipamentos públicos espalhados pela cidade. Os Centros de Referência de Assistência Social, os CRAS, funcionam como uma das principais portas de entrada para benefícios sociais e acompanhamento familiar.
O CRAS Leste São Benedito, por exemplo, atende famílias da região na Rua Noêmia Ezídia dos Santos. Já ações como o projeto “CRAS no seu Bairro” realizam atendimentos comunitários em locais como a Escola Municipal Santa Cândida, oferecendo atualização do Cadastro Único, encaminhamentos para benefícios e orientações sobre programas sociais.
Outras iniciativas também ajudam mulheres em situação de vulnerabilidade na cidade. A Fundação Maria Mãe atua com segurança alimentar e distribuição de alimentos, roupas e assistência social. Já a Aldeias Infantis SOS Brasil, na região de Grama, oferece apoio a famílias e crianças em situação de vulnerabilidade.
Existem ainda redes específicas voltadas para mães atípicas, que criam filhos com deficiência ou doenças raras. A Rede de Apoio a Mães e Famílias Atípicas JF, por exemplo, atua nas redes sociais conectando mulheres, compartilhando informações e criando espaços de acolhimento.
Mesmo com essas iniciativas, a sobrecarga continua sendo uma realidade diária. O cansaço constante, a pressão financeira, a culpa por passar pouco tempo com os filhos e o medo de não conseguir “dar conta” fazem parte da vida de muitas mulheres.
Ainda assim, elas seguem.
Seguem atendendo clientes, dirigindo ônibus, limpando casas, servindo cafés, trabalhando em caixas de supermercado, cuidando de outras pessoas e mantendo a cidade funcionando enquanto tentam, ao mesmo tempo, sustentar emocionalmente os próprios filhos.
Talvez o maior símbolo do Dia das Mães esteja justamente aí: nas mulheres que continuam cuidando de tudo, mesmo quando quase ninguém pergunta quem está cuidando delas.