Mês do Livro: o hábito da leitura entre o declínio e a esperança digital

Sentar-se em uma poltrona confortável, sentir o aroma de um café recém-passado e ter um gato ronronando ao lado é, para muitos de nós, a definição de um momento perfeito. Para mim, com certeza é! O hábito da leitura é o fio condutor que une essas paixões, transformando o ato de folhear páginas em uma experiência sensorial completa.
Entretanto, celebramos este Mês do Livro com um misto de nostalgia e alerta. Dados recentes mostram que o prazer de ler está enfrentando um declínio dramático em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.
A realidade dos números: por que estamos lendo menos?
Recentemente, estudos da Universidade da Flórida e do University College London revelaram dados preocupantes. Nos Estados Unidos, o número de pessoas que leem por prazer caiu mais de 40% nas últimas duas décadas. Além disso, essa retração é ainda mais acentuada em áreas rurais e entre populações de menor renda.
Aqui no Brasil, a pesquisa “Retratos da Leitura” trouxe um dado histórico e triste em 2024. Pela primeira vez, a parcela de “não-leitores” (53%) superou a de leitores (47%). É um cenário que nos faz refletir sobre como a agitação do mundo digital tem fragmentado nossa atenção.
Muitas notícias sobre este tema foram debatidas especialmente no Dia Mundial do Livro, comemorado em 23 de abril, como debate do que será do futuro do livro e da literatura. A IA (Inteligência Artificial) também é ameaça? Neste caso, mais especificamente para os escritores? Particularmente, como leitora assídua, nada disso me afeta, mas é difícil pensar numa mudança para pior, porém, sempre há novas perspectivas neste mundo tão dinâmico.
E antes que passemos a outro tópico deste artigo, só para matar a curiosidade de porque abril é especial, o dia 23 foi escolhido (pela Unesco) por marcar o dia da morte de uma das maiores expressões da Literatura, William Shakespeare. Todo ano a instituição também escolhe uma cidade para ser a capital mundial do livro. Este ano é Rabat, capital do Marrocos. Ano passado foi o Rio de Janeiro – que, alíás, promoveu a maior Bienal do Livro de todos os tempos. E o objetivo final é o mesmo: incentivar o hábito de leitura.
Foto: Pexels
O papel vs. o digital: existe um vencedor?
Embora os e-books sejam práticos e leves – perfeitos para quem busca a “leveza” que tanto valorizamos aqui na coluna -, a ciência ainda dá pontos extras ao papel. Uma pesquisa da Universidade de Valência com 450 mil pessoas mostrou que a compreensão de texto é significativamente superior em livros físicos.
O contato tátil com a folha e a ausência de notificações de redes sociais permitem um “processamento profundo”. Isso não significa que você deva abandonar seu Kindle, mas talvez reserve aquele livro físico especial para os momentos de maior calma.
Os benefícios da leitura para sua saúde
Manter o hábito da leitura não é apenas um exercício intelectual; é uma questão de saúde pública. Ler regularmente pode:
Reduzir drasticamente os níveis de estresse.
Proteger o cérebro contra o declínio cognitivo e demência.
Melhorar a empatia e as conexões sociais.
E mais uma vez, me baseio em ciência: um estudo de Yale descobriu que leitores vivem, em média, 23 meses a mais. Ler um romance funciona como um “treinamento” para a vida real, ajudando a combater a solidão, que é um fator de risco tão grave quanto o tabagismo.
O fenômeno BookTok: uma luz no fim do túnel?
Apesar dos dados negativos, há um movimento vibrante acontecendo nas redes sociais. O BookTok (comunidade de livros no TikTok) está revolucionando o mercado editorial brasileiro. Jovens estão invadindo livrarias com prints de capas que viralizaram.
Essa nova forma de compartilhar o amor pelos livros prova que a tecnologia, quando bem utilizada, pode ser a maior aliada da literatura. O entusiasmo dos “booktokers” está criando uma nova geração de leitores apaixonados, provando que a palavra escrita nunca perde sua força, apenas muda de plataforma.
E o mesmo vale para outras redes, Instagram, YouTube, os leitores entusiasmados também estão lá, com dicas de tropes, com sinopses, com debates. Eu acompanho sempre com entusiasmo, pois acho que o incentivo lá também é real, mesmo que o maior conteúdo seja “raso”, há produtores de conteúdo para todos os gostos. A vantagem é que o algoritmo te entrega mais justamente aquilo que você gosta e com o qual interage mais.
Como resgatar a leveza de ler
Se você sente que perdeu o ritmo, a dica é começar devagar. Escolha gêneros que prendam sua atenção imediatamente. Autores de thrillers psicológicos, como a incrível Karin Slaughter, são ótimos para isso. A série do detetive Will Trent, por exemplo, é perfeita para quem quer recuperar o fôlego literário. Nunca ouviu falar? A vantagem do digital é este. Você joga na busca e acha todo tipo de informação a respeito e até amostras digitais sem custo para testar. Além de todo tipo de artigo em blogs literários que te ajudam a definir ordem cronológica por autor, sugestão de por onde começar a ler Ken Follet, por exemplo, ver sinopses e resumos de livros, há muito, muito mais.
Conclusão: deixe para trás o que não te pertence
Como diz a frase que guia esta coluna: “a arte de levar a vida com leveza está em deixar para trás o que não te pertence”. Talvez o que precisemos deixar para trás seja a obrigação de ler “clássicos difíceis” e focar naquilo que nos dá prazer real. Talvez seja resgatar um autor preferido (estou numa fase Agatha Christie), experimentar um gênero novo, dar oportunidade a um autor que você desconhecia. Mas hábito de ler não é obrigação de ler, é tirar prazer e vida dessa “companhia”: seu livro preferido do momento.
Neste Mês do Livro, o convite é simples: abra um livro, sirva um café e permita-se mergulhar em outra realidade. A leitura é o único refúgio que nos permite viver mil vidas em uma só.
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