Memórias de Iano e D. Hélder, símbolos da resistência

A recente lembrança do filme “O agente secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, traz à tona uma das cenas mais emblemáticas da luta pela democracia no Brasil. A imagem do protagonista, interpretado por Wagner Moura, à espera de investidores no aeroporto do Recife, resgata não apenas a narrativa ficcional, mas também a rica história do mural “Sinfonia Pastoral”, de Francisco Brennand. Desde 2004, essa obra decorativa está exposta no aeroporto internacional dos Guararapes e simboliza um período de resistência e esperança na obra do artista, que foi um aplicativo de arte na cultura brasileira.
No auge da década de 1970, Iano Salomão de Campos, um estudante de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora, chegava ao mesmo aeroporto em busca de Dom Hélder Câmara, um renomado defensor dos direitos humanos e um símbolo da oposição à ditadura militar. Com a coragem típica dos jovens de sua geração, Iano visava convidar o arcebispo para ser o paraninfo de sua turma de medicina, na cerimônia marcada para 14 de julho de 1978, no Theatro Central.
Um momento de luta e formação
A cerimônia de colação de grau não foi apenas um rito de passagem, mas um palco de resistência. Durante seu discurso, Iano expressou sua indignação em relação à situação do Hospital-Escola, que enfrentava sérias dificuldades financeiras e administrativas. Ele criticou abertamente a falta de recursos e a gestão federal que negligenciava a saúde pública, ressaltando o papel vital que o hospital desempenhava na formação médica e no atendimento à comunidade.
Iano, cuja trajetória na Universidade foi marcada pela militância estudantil, ocupou diversas posições de representação no Diretório Central dos Estudantes (DCE) e destacou-se por sua oratória e compromisso com causas progressistas. Solenemente, afirmou a necessidade de se alocar verbas adequadas ao hospital, sublinhando a precariedade na formação dos médicos e o impacto negativo das exigências do convênio da Previdência.
Curiosamente, a presença de Edival Cajá, que também estava ligado a esse contexto, foi interrompida antes do encontro com Iano. Preso por agentes da repressão, Cajá foi vítima da tortura durante o seu encarceramento, mas nunca deixou de lutar pela democracia. Reconhecido também por suas contribuições sociais e históricas, foi homenageado em 2023 com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As histórias de Iano, Dom Hélder e Cajá se entrelaçam em uma narrativa de resiliência e de luta pela verdade e justiça. Este momento histórico nos convida a refletir não apenas sobre os horrores da ditadura, mas também sobre a importância de honrar esses personagens que dedicaram suas vidas à defesa da democracia e dos direitos humanos.
Com informações de Tribuna de Minas.


