Alzheimer soma mais de 176 mil atendimentos em 2025 e acende alerta para diagnósticos tardios

(Foto: Reprodução/Arquivo do Canva)
A mudança de comportamento veio antes do esquecimento. Na casa de Lúcia Helena Monteiro, a mãe passou a agir de forma diferente, com atitudes que a família não conseguia explicar. Sem informação e sem suspeitar de uma demência, o diagnóstico de Alzheimer só veio meses depois. Isso aconteceu há mais de 20 anos, quando o conhecimento sobre a doença era mais limitado. Ainda assim, o diagnóstico tardio é uma realidade que se repete em muitas famílias. De acordo com especialista entrevistada pela Tribuna, os sinais iniciais do Alzheimer ainda são frequentemente confundidos com alterações naturais do envelhecimento, o que dificulta sua identificação precoce.
A situação vivida pela família de Lúcia Helena afeta cada vez mais pessoas e se reflete também na rede pública de saúde. Dados da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Juiz de Fora (SS/PJF) mostram que, ao longo de 2025, foram registrados 176.829 atendimentos de pessoas em tratamento relacionados à doença, incluindo a dispensação de medicamentos e a realização de exames com Classificação Internacional de Doenças (CID) associada ao Alzheimer. Apenas em janeiro de 2026, já foram contabilizados 16.787 atendimentos, o que evidencia a existência de demanda por acompanhamento.
Segundo a neurologista Jéssica Tilli Marques, o diagnóstico precoce é fundamental para atrasar a progressão da doença e garantir melhor qualidade de vida ao paciente. “Muitos chegam ao consultório em estágios mais avançados porque a família pensava que era ‘algo da idade’. Mas o envelhecimento não vem acompanhado, necessariamente, de perda de memória. Qualquer mudança cognitiva ou comportamental persistente deve ser avaliada”, explica.
A especialista destaca que, em alguns casos, os primeiros sinais podem não estar ligados ao esquecimento, mas a alterações de comportamento, dificuldade de organização e mudanças na linguagem, o que pode atrasar ainda mais a identificação da doença. Foi o que aconteceu com Maria Aparecida Guedes, mãe de Lúcia Helena. Aos 79 anos, ela começou a apresentar mudanças sutis, mas progressivas, que chamaram a atenção da família.
Sem apresentar falhas de memória evidentes no início, passou a demonstrar comportamentos incomuns, como irritação consigo mesma e alterações na rotina doméstica. “Ela começou a fazer comida em excesso, salgar demais, cozinhar em quantidades desproporcionais para duas pessoas”, relembra a filha. Com o tempo, também surgiram episódios de inquietação, como acordar de madrugada para iniciar tarefas do dia a dia, além de uma dificuldade em organizar atividades simples.
Diante das mudanças, a família passou a buscar alternativas na tentativa de entender o que estava acontecendo. Sem um diagnóstico claro, Lúcia Helena recorreu a diferentes profissionais e abordagens, incluindo atendimentos com geriatra e tratamentos voltados ao bem-estar, como a acupuntura. “Foi um processo de correr atrás, de tentar entender. Não tinha internet, não tinha material acessível. A gente foi aprendendo aos poucos”, relata.
‘É duro ver a pessoa perder a história dela’
Para quem convive com a doença, no entanto, o desafio vai além das orientações médicas. Na prática, o Alzheimer exige adaptação constante e uma rede de apoio. “É muito duro ver a pessoa perder a história dela”, resume Lúcia Helena. Ao longo dos anos, ela buscou diferentes formas de manter a conexão com a mãe — desde músicas antigas até fotos e atividades que pudessem estimular a memória. “Você precisa entrar no universo da pessoa. Não adianta confrontar, corrigir. É aprender a lidar com o tempo dela.”
Hoje, décadas depois da primeira experiência, Lúcia Helena enfrenta novamente a doença na família, desta vez, com a irmã. Sempre muito próximas, ela conta que as duas dividiram os cuidados com a mãe durante anos. Professora e com trajetória acadêmica consolidada, a irmã começou a apresentar os primeiros sinais já idosa, com esquecimentos frequentes e perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina, como leitura e compromissos do dia a dia.
Com o avanço da doença, os sintomas se intensificaram e, segundo Lúcia Helena, o quadro evoluiu de forma mais rápida. “Cada caso é diferente, mas o impacto é o mesmo”, afirma. Para ela, o aprendizado permanece e se renova. “O que a gente pode oferecer é paciência. Muita paciência”, diz. “E tentar cuidar da gente também. Porque é uma doença que não afeta só quem tem, mas todos ao redor.”
Idade e genética influenciam risco para Alzheimer
Embora seja mais comum após os 65 anos, o Alzheimer também pode surgir antes, nos chamados casos de início precoce, que representam entre 5% e 10% do total. Nesses quadros, o diagnóstico costuma ser mais desafiador, já que os sintomas nem sempre começam pela perda de memória e podem ser confundidos com estresse, depressão ou sobrecarga profissional. O risco da doença aumenta com o avanço da idade. Após os 65 anos, a estimativa é que uma em cada nove pessoas pode desenvolver Alzheimer, proporção que chega a um em cada três entre idosos com mais de 85 anos.
Nos casos de início mais jovem, além de esquecimentos progressivos, podem surgir dificuldades para se orientar no espaço — como se perder em trajetos conhecidos ou ter problemas para avaliar distâncias —, alterações na linguagem, com dificuldade para encontrar palavras, e prejuízos nas funções executivas, como organização, planejamento e gestão de tarefas do dia a dia. Também podem aparecer dificuldades para realizar atividades já aprendidas, como cozinhar ou manusear objetos. Por isso, a recomendação é buscar avaliação médica sempre que houver mudanças persistentes que interfiram na rotina habitual.
Do ponto de vista genético, especialistas explicam que existem diferenças entre os tipos da doença. Nos casos de início precoce, há uma pequena parcela hereditária, associada a mutações específicas e que pode se repetir em gerações da mesma família — cenário raro, que representa menos de 1% dos diagnósticos. Já no Alzheimer mais comum, de início tardio, o que existe é uma predisposição genética. O principal fator associado é um gene que aumenta o risco, mas não determina o desenvolvimento da doença. Mesmo nesses casos, hábitos de vida, saúde cardiovascular e estímulo cognitivo continuam tendo papel fundamental na prevenção e no atraso da progressão da doença.
45% dos casos podem ser prevenidos ao longo da vida
Além do diagnóstico precoce, a neurologista reforça que a prevenção deve começar muito antes do surgimento dos sintomas. Jéssica explica que cuidados devem ser tomados ao longo da vida, já que os danos cerebrais associados à doença podem começar até três décadas antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos. Na prática, isso significa que um diagnóstico aos 70 anos, por exemplo, pode estar relacionado a fatores acumulados desde os 40, como sedentarismo, obesidade, depressão e estresse crônico.
Níveis elevados de cortisol, conhecido como o “hormônio do estresse”, podem afetar diretamente o hipocampo, região do cérebro ligada à memória. Segundo a médica, estudos indicam, ainda, que uma parcela significativa dos casos pode ser prevenida ou ao menos adiada com o controle de fatores de risco modificáveis ao longo da vida, estimativa que chega a cerca de 45%, segundo a Comissão Lancet. “Cuidar da saúde cerebral não é algo que começa na velhice, mas ao longo de toda a vida”, completa.
Lucia Helena acredita que a prevenção está nas escolhas do dia a dia e na forma como se cuida do corpo e da mente. Hoje, aos 74, ela diz que passou a olhar com mais atenção para a própria saúde depois de vivenciar a doença de perto. “O que eu procuro é ter qualidade de vida em todos os aspectos”, afirma. Entre os cuidados, ela destaca a prática regular de atividade física, a alimentação equilibrada e o acompanhamento com profissionais de saúde.
Além disso, investe em estímulos cognitivos e na manutenção da vida social. “Faço atividades, estudo, tento aprender coisas novas. Já fiz até aulas de italiano, porque dizem que aprender uma língua ajuda o cérebro”, conta. Para ela, o equilíbrio emocional também é essencial. “A gente precisa cuidar da mente, evitar o estresse, ter fé, aprender a lidar melhor com as coisas do dia a dia”, aconselha.
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