Conexão permanente não é imprescindível

Para aqueles que pertencem à geração Z, isso parece impossível, pois nasceram e cresceram em um mundo conectado. Mas, sim, houve uma época sem redes sociais, em que as conexões precisavam ser presenciais (Foto: Pexels/kindel media)
Por incrível que pareça, passei uma manhã sem notificações, sem chamadas, sem sentir o bolso vibrar. Cheguei a pensar que tinha esquecido meu celular em outro lugar ou até que ele havia desaparecido. Mas, não, meu aparelho estava comigo e, surpreendentemente, sem requisitar minha atenção. Lembrei-me de uma vida em que não existia o telefone móvel. Foi então que me pus a imaginar quem eu seria sem o celular.
É bem possível que eu caminhasse mais devagar e observasse mais os detalhes ao redor; que parasse com mais frequência ao longo do percurso para conversar com algum conhecido e perguntar sobre como estava sua vida. Olharia mais para o céu, sem o impulso de verificar uma nova mensagem a cada minuto, e tentaria adivinhar o formato das nuvens. Sentiria mais intensamente o sabor do café, sem sobressaltos causados por uma nova manchete na tela.
Esperaria ansioso pela chamada do filme da Sessão da Tarde ou iria até uma locadora. Torceria para que a próxima música da rádio fosse aquela que eu estava louco para ouvir. Marcaria a hora de estar em casa para alguém me ligar. Aguardaria, por alguns dias, pela resposta daquela carta. Sentaria na frente de casa, no final da tarde, e esperaria pelos amigos de carne e osso, para, então, colocar o papo em dia. Iria até a banca comprar uma revista. Teria tempo para mais leituras ou para descobrir um tipo novo de lazer que não me oferecesse uma casa de aposta a cada clique.
Para aqueles que pertencem à geração Z, isso parece impossível, pois nasceram e cresceram em um mundo conectado. Mas, sim, houve uma época sem redes sociais, em que as conexões precisavam ser presenciais. Não quero romantizar a vida de antigamente, porque sei que viver em qualquer época nunca foi fácil. Minha questão é tentar entender por que precisamos estar conectados o tempo todo.
É como se tivéssemos perdido o direito ao tédio, pois estamos sempre em busca de preencher vazios e eliminar esperas. A cada notificação que chega, surge uma questão a ser resolvida. A internet apresenta-se como salvadora neste sentido, pois oferece respostas instantâneas. Isso pode até parecer algo inocente, mas vai consumindo a nossa tolerância, e é aí que está o perigo: essa incapacidade de suportar certas frustrações acaba atravessando nossas relações sociais. Dessa forma, cria-se um mal-estar, porque fora do espaço digital tudo tem outro tempo.
Entendo que seja impossível imaginar hoje um mundo sem internet, pois o caos se instalaria em todos os setores da sociedade. Ainda assim, fico pensando se as pessoas, em busca de um prazer momentâneo por meio das telas, não estariam se tornando cada vez mais insensíveis diante do que a vida lhes apresenta.
A internet e tudo o que envolve o universo virtual vão ganhando uma importância tão grande que, só de imaginar a falta de acesso, já se instaura certo pânico. Há muita gente que, diante da simples possibilidade de ficar sem rede, entra em crise de ansiedade. Minha intenção aqui é refletir que não há como voltar atrás: o ecossistema digital existente é um elemento importante de sustentação do mundo contemporâneo. Mas precisamos ter em mente que desconectar pode ser uma escolha consciente, um reencontro com nossa essência humana. Uma possibilidade de olhar para a vida e entender que a conexão permanente não é imprescindível.
LEIA TAMBÉM: Esperança, liberdade e ‘O último azul’
O post Conexão permanente não é imprescindível apareceu primeiro em Tribuna de Minas.



