Tribuna de Minas

Trabalho artístico de davi de jesus do nascimento deságua no Inhotim

(Foto: Icaro Moreno/ Divulgação)
É preciso pedir autorização do rio. E davi de jesus do nascimento pede em cada obra que faz: seja porque, como barranqueiro, é dele que nasceu, ou porque atualmente, celebrando 10 anos de carreira artística, é dele que cria. Ou porque, pelas suas vivências, sabe que o rio é cheio de mistérios e vontade própria — é essa a atmosfera que a instalação “Tororoma” evoca. Os tons terrosos da iluminação e a terra que envolvem a recém-reformada Galeria Nascente criam uma atmosfera quase de caverna, como as de Peruaçu, onde ele foi para pesquisas da exposição; o que se soma também aos espelhos de água e carrancas que vêm da vivência no São Francisco, desde Pirapora, cidade da onde vem, até a Ilha do Ferro e Piranhas, no Alagoas, onde também foi para conhecer outro ponto do mesmo rio. É focando em capturar transformações, como no fluxo de água, e aspectos íntimos e coletivos, que a instalação inaugurada no Inhotim em abril nasceu.
A forma de davi pensar arte está relacionada com a própria história: o referencial mais óbvio não estava nos museus, mas no cotidiano que via de perto. “Eu nasci em um contexto em que a arte se organiza de uma outra forma. Convivi desde criança com muitos mestres carranqueiros, então com o artesanato e outras tecnologias sempre vi formas de fazer arte”, relembra. Talvez por esse aspecto, se acostumou com um trabalho que vai para além das próprias mãos e parte para a coletividade. Na sua trajetória, seu pai, que é pescador, colabora com seu trabalho, fazendo por exemplo embarcações que davi sonha, e que depois se tornam parte de seus projetos. No Inhotim, o mesmo aconteceu com as carrancas do Mestre Expedito, artista referência neste fazer para os norte-mineiros, que elaborou três trabalhos para a exposição. 
Esse deslocamento está provocando efeitos que davi está sentindo aos poucos. “Mais de 30 pessoas da minha família estão vindo. A primeira vez que a minha vó entrou em um museu foi para ver uma exposição minha”, conta. Apesar do seu trabalho trazer aspectos muito íntimos, como a morte de sua mãe, afogada, ele também entende que esse diálogo com a própria comunidade está sempre presente. Na exposição, que leva o nome em referência a um conto de Guimarães Rosa e vem da palavra em tupi para corrente fluvial forte e ruidosa, as referências à comunidade ribeirinha são muitas, inclusive na figura da carranca, que geralmente é usada na proa dos barcos para afastar maus espíritos e trazer proteção aos navegantes. Mas neste caso, um deslocamento importante é feito: dessa vez é dela mesma que sai a água, adicionando mais uma camada de mistério e surrealismo à experiência. 
Neste marco temporal e simbólico para a sua carreira, o artista também sente que foi preciso ir experimentando o tempo de outra maneira — e deixar que isso refletisse em sua obra. “Eu ainda vivo na minha cidade. Morei 5 anos em Belo Horizonte e voltei para lá. É um outro tempo e faz toda a diferença no amadurecimento nas obras. Estar perto de tudo que alimenta meu trabalho faz toda a diferença para conseguir trazer com muita verdade. Quando não conseguimos ter o tempo das coisas, elas não amadurecem. O suco não fica bom, não tem gosto”, diz. Para ele, o tempo é o cuidado do trabalho, da mesma forma que o trabalho tem uma dimensão do sonho e começa a ser elaborado em camadas poéticas.
a”
data-cycle-paused=”true”
data-cycle-prev=”#gslideshow_prev”
data-cycle-next=”#gslideshow_next”
data-cycle-pager=”#gslideshow_pager”
data-cycle-pager-template=” ”
data-cycle-speed=”750″
data-cycle-caption=”#gslideshow_captions”
data-cycle-caption-template=”{{cycleCaption}}”
>

< ► >

(Foto: Icaro Moreno/ Divulgação)

LEIA MAIS sobre Cultura aqui
 Experimentando linguagens 
Com o uso de vídeo e escultura, ele entende que a possibilidade de experimentar entre linguagens é o que cria uma chance de explorar seu eu artístico na essência. “Fico animado de poder trabalhar com tudo que se tem direito. Acho que os artistas têm que vazar, transbordar”, diz. O reflexo se dá também na coletividade, a partir de parcerias, como acrescenta. 
Mas a palavra poética, como com o livro “Aluvião” lançado em 2025 pela Fósforo, costuma servir como guia. “A escrita sempre conduziu muito a imagem do que eu quero criar para os trabalhos enquanto artista visual. Às vezes, vejo um barco que na verdade navega para cima. É um barco que se comporta como oratório. Ou então o trabalho está em formato de abundância, com muitas frutas, como o tamarindo, que é muito presente na minha produção”, explica.
(Foto: Icaro Moreno/ Divulgação)
O mistério do rio
O mistério do rio não se esgota quando o público sai da Galeria Nascente. Mas fica no peito. “O trabalho vai desaguando. É natural que alcance alguns lugares, a gente sendo água, escorre mesmo”, diz davi. Ele, que na inauguração afirmou que o público também conheceria uma parte de sua mãe através das obras, entende que seu processo criativo flerta muito com a morte e com o luto. Muito por conta dessa perda, mas não só: pela própria vida, que o fez encarar esse processo como um caminho natural das coisas.
Foi nesse aspecto, inclusive, que foi encontrando muita ressonância com a sua obra, que inclui a série “Sorvedouro”, que junta bichos, restos de vegetação e até figuras humanas que viu em sonho, enviadas pela mãe. “Meu processo com a arte me ajudou a canalizar e compreender muita coisa. Quando falo da morte da minha mãe, parece muito pessoal e íntimo, mas no final é um espelho d’água. As pessoas se veem nesses processos. Às vezes estamos lidando com momentos densos, mas eles podem virar algum tipo de folia também”, diz.
 
O post Trabalho artístico de davi de jesus do nascimento deságua no Inhotim apareceu primeiro em Tribuna de Minas.

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo