Dependência de exercícios: quando a prática se torna prejudicial?
A prática excessiva de exercícios físicos pode ser considerada um vício, levando a problemas físicos, psicológicos e sociais. No entanto, uma revisão publicada no Journal of Behavioral Addictions sugere que a prevalência desse tipo de dependência pode estar sendo superestimada. Os pesquisadores, vinculados a instituições da Hungria e da Austrália, analisaram estudos que indicaram que entre 3% e 42% dos praticantes de atividades físicas poderiam estar em risco de desenvolver essa dependência.
No caso de grupos específicos, como ciclistas na Espanha e maratonistas na Itália, os índices de risco foram de 6,1% e 15,4%, respectivamente. Os autores da pesquisa, Attila Szabo, Zsolt Demetrovics e Bhavya Chhabra, explicam que essa variação pode ser atribuída a diferenças nas populações estudadas, ao uso de amostras pequenas e à interpretação de questionários que não são diagnósticos.
Como identificar a dependência de exercícios?
Uma das ferramentas utilizadas para avaliar a dependência de exercícios é a Exercise Dependence Scale (EDS), que considera aspectos como a necessidade de aumentar a carga de treino e o desconforto causado pela interrupção da prática. Everton Crivoi, especialista em preparação física, ressalta que uma alta pontuação na escala não implica um diagnóstico de dependência, mas sim uma indicação de comprometimento com o esporte.
Organizar a rotina em torno dos treinos não é necessariamente um sinal de vício, desde que a prática não traga prejuízos à saúde ou ao bem-estar emocional. Crivoi destaca a importância do descanso e a capacidade de cancelar treinos sem sofrimento emocional como sinais de uma relação saudável com a atividade física.
A discussão sobre dependência de exercícios começou na década de 1970, com observações sobre os efeitos negativos da privação de atividade física. Pesquisadores como William Morgan argumentaram que o excesso de exercício poderia ser uma disfunção comportamental. Atualmente, a relação entre exercício e saúde mental é complexa, podendo envolver fatores como ansiedade e transtornos alimentares.
Os riscos associados ao treinamento excessivo não se limitam à dependência. A síndrome de excesso de treinamento pode resultar em fadiga intensa e alterações hormonais, enquanto a deficiência energética relativa no esporte pode comprometer a saúde óssea e levar a arritmias. Em casos extremos, a prática intensa pode até resultar em rabdomiólise, uma condição grave que afeta os músculos.
Para aqueles que identificam sinais de dependência, o tratamento não precisa envolver a interrupção total da atividade física. O foco deve ser na recuperação do controle sobre o comportamento, incluindo a incorporação de períodos adequados de descanso e a investigação de fatores subjacentes à compulsão.
Com informações de Tribuna de Minas.