Tribuna de Minas

Antes que inventem o teatro vertical

Existimos em uma era em que o tempo parece ter sido reduzido à velocidade necessária para um scroll em um feed infinito. O celular nos exige o imediato, a resposta instantânea. Em contrapartida, quando entramos em um teatro, somos convidados a uma experiência radicalmente oposta: a duração. Como define a saudosa Barbara Heliodora, o teatro, por um lado, é uma forma de arte onde pessoas representam acontecimentos vividos por personagens, e, de outro, o lugar onde essa atividade acontece. A atividade merece atenção muito acima da que estamos acostumados atualmente e o lugar, o respeito necessário.
O primeiro choque ocorre no silêncio da construção. Enquanto o ambiente digital em que vivemos é permeado por ruídos artificiais constantes, a arte teatral é, também, fundamentalmente artificial, mas no melhor sentido da palavra: é uma obra criada por um artista com a intenção deliberada de comunicar sentimentos e pensamentos. Barbara cita o professor Richard Southern para definir a arte como uma “obra na qual se diz uma coisa, mas se quer dizer outra”. 
Essa “sobrecarga de significado” exige tempo para ser processada; não cabe em um vídeo de quinze segundos ou em um story de um minuto. A percepção do espectador, habituada à rapidez, sofre um impacto ao ser forçada a lidar com a profundidade da cena, na qual o que é dito esconde camadas de intenção que só o foco absoluto permite captar.
Historicamente, o espectador nem sempre teve pressa. Na Grécia Antiga ou na Inglaterra Elisabetana de Shakespeare, o público ia ao teatro para “ouvir” uma peça que durava três ou quatro horas. O ouvido era treinado pela métrica da poesia e pela narrativa épica. Hoje, as redes sociais atrofiaram nossa audição em favor de um olhar disperso, diminuindo nossa capacidade de ouvir o diferente. 
No teatro moderno, em especial no Realismo, estabeleceu a ideia da “quarta parede”, sugerindo que os atores estão em um mundo próprio, “ignorando” a plateia. Isso impõe ao espectador o papel de observador paciente, alguém que precisa esperar a ação se desenvolver organicamente, sem a possibilidade de acelerar ou mudar de aba.
A construção teatral também é um processo de resistência ao tempo acelerado. O sistema de Stanislavski e o Teatro de Arte de Moscou, por exemplo, passavam por ensaios exaustivos, onde cada detalhe do comportamento humano era estudado profundamente. Essa investigação da verdade cênica leva meses para ser construída. 
Quando o espectador se senta diante dessa construção, ele é convidado a participar dessa “calma para a reflexão”. Heliodora, em “O teatro explicado aos meus filhos”, afirma que as grandes obras do passado surgiram quando os autores tinham um “mínimo de calma para a reflexão e a criação em termos mais ambiciosos”. Em seguida, ela conclui que “esse tipo de calma, no momento, é desconhecido no nosso planeta”.
O que acontece com a percepção do espectador contemporâneo? Ela é posta em xeque. O teatro atua como um espelho que nos devolve a humanidade que a velocidade digital tenta mecanizar. Segundo a autora, o tema essencial do teatro é sempre a preocupação com os comportamentos humanos.
No choque de ritmos da vida contemporânea, o teatro não deve ser apenas entretenimento, mas também um exercício de reaver nossa capacidade de contemplação. Se o celular nos treina para a distração, o bom teatro, aquele que nos faz sair diferentes de como entramos, nos treina para sermos, novamente, humanos capazes de suportar o silêncio, a espera e a beleza da construção lenta.
Ao desligar o celular e permitir que as luzes se apaguem, estamos reivindicando nosso direito ao tempo. Que isso dure até criarem o teatro vertical.
Em cartaz
“Chico Xavier em pessoa”
encontro com a figura de Chico Xavier, interpretado pelo ator Renato Prieto, que também fez o personagem André Luiz do filme “Nosso Lar”, trazendo ao palco reflexões espirituais e humanas que atravessam gerações.
“Gota D’água” – Paineira Escola Waldorf
12º ano da Escola Waldorf com direção de Gabriela Machado. Inspirada em “Medéia”, a peça mergulha nas tensões de um subúrbio carioca dos anos 1970, em uma tragédia marcada por abandono, vingança e desigualdade.
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