Os perigos do autoritarismo em tempos de crise
O autoritarismo não desaparece automaticamente com a perda do poder. Muitas vezes, ele apenas se silencia, se reorganiza e espera por novas oportunidades para ressurgir. A célebre frase de Bertolt Brecht alerta sobre essa realidade: “Os povos conseguiram dominá-la, mas ainda é muito cedo para sair cantando vitória: o ventre que gerou a coisa imunda continua fértil!”. Essa reflexão, escrita em meio à ascensão do nazismo, nos lembra que derrubar um regime autoritário não significa eliminar as condições sociais, políticas e culturais que permitiram sua ascensão.
A expressão “coisa imunda” refere-se à figura de Adolf Hitler e ao nazifascismo, enquanto o “ventre que lhe pariu” aponta para as estruturas sociais, econômicas e políticas do capitalismo, além da conivência das elites e da apatia popular que facilitaram a ascensão desse regime. A pluralidade de opiniões é vital para a democracia, mas é preciso que as divergências não justifiquem o desrespeito às instituições, aos direitos fundamentais ou à dignidade humana.
Autoritarismo e a fragilidade da democracia
As insatisfações da população são válidas, mas o verdadeiro risco surge quando esses sentimentos são utilizados para propagar ódio, desumanizar opositores e concentrar poder. O autoritarismo não é exclusivo de um único espectro ideológico; ele se manifesta sempre que a lealdade a líderes prevalece sobre princípios, quando a crítica é vista como traição e os limites institucionais são considerados meros obstáculos.
A coerência democrática exige que aliados e adversários sejam tratados com os mesmos critérios. A democracia vai além de um processo eleitoral: ela depende de instituições sólidas, educação crítica, liberdade de expressão e respeito ao pluralismo. O real teste democrático está em assegurar que a competição de ideias ocorra dentro de um respeito mútuo pelos direitos e limites que são comuns a todos.
O “ventre” da intolerância se mantém fértil quando essa atitude é normalizada, quando a força é preferida ao diálogo e quando princípios são abandonados por conveniência. Assim, a democracia se revela como uma conquista contínua, cuja manutenção depende tanto da responsabilidade dos governantes quanto da consciência crítica da sociedade. Portanto, enquanto a intolerância for aplaudida, a mentira for justificada e a força for mais valorizada que a justiça, nenhuma vitória poderá ser considerada definitiva.
Com informações de Tribuna de Minas.